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O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, discursa na conferência anual do Partido Conservador, em Manchester, 2 de outubro de 2019
O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson.| Foto: Ben STANSALL / AFP

A política internacional é uma caixa de ressonância: os ruídos provocados pelos acontecimentos, independente de onde ocorrem, desencadeiam imensuráveis reações. Essa é uma das razões pelas quais o fenômeno do Brexit tem ocupado um espaço significativo dos noticiários políticos de países que, apesar de não estarem diretamente envolvidos no imbróglio, preveem os impactos políticos e econômicos que o dia 31 de outubro pode trazer.

Afinal, outubro será o mês da conclusão do processo do Brexit ou mais uma oportunidade para o adiamento das negociações? Se o primeiro-ministro britânico Boris Johnson conseguir cumprir a sua promessa, a saída será com ou sem acordo?

Apesar da tradição das instituições britânicas, as incertezas em relação à saída do Reino Unido da União Europeia contribuem para o medo de que a insegurança jurídica e a instabilidade econômica seja um risco iminente.

Um volume intenso de informações sobre esse dilema é produzido no mundo todos os dias. Porém, essas informações pouco esclarecem. As expectativas sobre o que vai acontecer têm deixado britânicos e europeus angustiados com o futuro – pois questões de ordem muito particular do indivíduo, como a escolha da universidade, estão subordinadas a negociações dos burocratas mais importantes da Europa.

A influência política do primeiro-ministro da República da Irlanda nesta reta final é essencial para a possibilidade de um acordo

Desde a conclusão do plebiscito, há mais de dois anos, as expectativas aumentaram, a relação entre governo britânico e oposição ficaram mais acirradas e as negociações entre Londres e Bruxelas pareciam cada vez mais distantes.

Theresa May, eleita em 2017 com alta expectativa para conduzir o processo do Brexit, acumulou derrotas no Parlamento. Foi substituída por um dos seus maiores antagonistas dentro do partido, Boris Johnson, que ganhou popularidade exatamente por ser um grande entusiasta da saída do Reino Unido do bloco econômico europeu.

Entre os vários pontos que carecem de negociação para um acordo, estão: o valor da indenização a ser pago para a UE; novas regras para imigrantes europeus estabelecidos no Reino Unido, da mesma forma como para imigrantes britânicos residentes em países da UE; os novos parâmetros para acordos comerciais e as normativas para empresas europeias e britânicas; e a legislação entre a fronteira da República da Irlanda (país independente e soberano, membro da UE) e a Irlanda do Norte, nação constituinte do Reino Unido.

De todos esses elementos, o mais sensível é a questão das Irlandas e como essa negociação vai impactar geopoliticamente essa região do planeta que já viveu muitos momentos de conflito no passado recente. O receio de parte do Parlamento inglês e do Parlamento Europeu está concentrado na possível retomada do histórico conflito armado nesta região, que manteve fronteira fechada até o acordo de paz assinado em 1998.

Desde o mandato de May, encontrar uma conformação que atendesse minimamente os interesses dos diversos atores em relação ao caso das Irlandas tinha sido tarefa complexa. Por um lado, a oposição acredita que lutar contra o Brexit é lutar contra a retomada da guerra no norte da ilha. Por outro lado, os britânicos a favor do Brexit querem evitar que a fronteira aberta possa se tornar a porta dos fundos para a entrada de imigrantes e mercadorias da UE.

É preciso ressaltar que os parlamentares a favor do Brexit também não estão completamente de acordo com a forma como as negociações estão sendo conduzidas. Para eles, o custo da saída do Reino Unido sem acordo é um cenário completamente inviável. Porém, para o grupo de Johnson, a conclusão do processo é uma questão de “vida ou morte”.

A saída do Reino Unido do bloco econômico irá afetar de alguma forma as relações internacionais entre esses países, mesmo não sendo possível saber com precisão o tamanho do impacto. Mas desde já podemos deduzir que um Soft Brexit e um Hard Brexit produzem diferentes cenários. Por causa disso, a influência política do primeiro-ministro da República da Irlanda nesta reta final é essencial para a possibilidade de um acordo.

Os dias que antecedem o último prazo para a saída do Reino Unido tinham sido extremamente pessimistas. Tanto por causa do calendário apertado para chegar a concordâncias quanto pela falta de consenso e uma suposta inflexão britânica quanto às condições no dilema das Irlandas. Entretanto, diante da inevitabilidade do cenário de saída – considerando improvável a revogação do plebiscito pelo qual parte dos cidadãos do Reino Unido decidiu sair da União Europeia –, Leo Varadkar, premiê da Irlanda, tem agido para contribuir com o alinhamento de um processo de saída ordeira dos seus vizinhos britânicos do bloco europeu.

Na manhã de sexta feira, 11 de outubro, foi noticiado que Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, recebeu sinal promissor de Varadkar sobre possível acordo. Segundo a assessoria de imprensa de ambos os líderes, a reunião entre britânicos e irlandeses foi promissora e retomou a esperança de evitar um cenário de ruptura abrupta no dia 31. Na manhã de segunda feira, dia 14, o chanceler irlandês, Simon Coveney, afirmou ser possível estabelecer um acordo para a saída do Reino Unido, inclusive durante a semana.

O prazo para a resposta da União Europeia sobre o que será feito no fim do mês – saída definitiva ou mais um adiamento para negociações – foi prorrogado para 19 de outubro. Tusk já afirmou que nunca será escolha da UE que o Reino Unido saia do bloco sem acordo. Isso porque o impacto de uma ruptura, pelo menos no curto prazo, é negativo para ambas as partes. Inclusive para Varadkar, que pretende concorrer à reeleição e não deve estar interessado em ter de lidar com uma crise econômica de grandes proporções em seu país.

Dessa forma, a relação entre Johnson e Varadkar, que começou com constrangimentos – tendo em vista que Johnson, ao visitar a Irlanda, não resistiu a perguntar a seus assessores “por que ele não se chama Murphy como todos os outros?”, demonstrando seu estranhamento com o sobrenome de origem indiana do primeiro-ministro –, pode acabar muito bem alinhada a favor de um acordo de saída.

Marize Schons, mestre em Antropologia e doutoranda em Sociologia, é professora de Relações Internacionais e Direito no Ibmec Belo Horizonte.

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