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| Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Gabriel García Márquez, em O General em seu Labirinto, de1989, nos apresenta o grandioso libertador Simón Bolívar, derrotado. Depois de liderar guerras e revoluções que transcenderam o seu próprio ser, ardia em febre, estava insone e andava nu após a sesta, proferindo delírios. Em um deles, deitado em sua rede amarela, balbucia, reflexivo: “A América é um meio globo que ficou louco”.

O Bolívar de García Márquez olhava com profunda frustração para o passado. A libertação havia se transformado em caudilhismo e ditaduras regionais. O esforço da construção de uma Pátria Grande estava dissolvido. Estava? Está?

Historiadores e cientistas sociais preocupados com os rumos da atual América Latina foram surpreendidos há um mês e algumas semanas com a publicação de uma obra-prima póstuma de Eric Hobsbawm, historiador inglês de sapiência, criticidade e engajamento indescritíveis. Viva Lá Revolución: a Era das Utopias na América Latina é uma compilação de seus ensaios sobre a região durante as décadas de 50 a 80. Leslie Bethell, amigo intimo, foi o responsável pela façanha.

A luta pela liberdade e a integração latino-americana foi o sonho de muitas personalidades grandiosas

Na obra, Hobsbawm se surpreende e reflete sobre a revolução que abalou a América como uma hecatombe: a Cubana, de 1959. Fala de Fidel com admiração, mas distanciamento. Ao próprio e seus seguidores não aponta “comunistas”, mas “fidelistas”. De Cuba caminha para os conflitos camponeses no Peru, a formação das Farc e a grande violência colombiana. Estaciona no Chile e dá pinceladas brilhantes sobre os populismos brasileiro e argentino.

Um livro de 2017 sobre uma América Latina da segunda metade do século 20. Ao lê-lo, nós, progressistas, nos frustramos e nos entristecemos. Como o Bolívar de García Márquez, balbuciamos e perdemos o sono. A luta pela liberdade e a integração latino-americana foi o sonho de muitas personalidades grandiosas, de ontem e hoje. O próprio Fidel, em um de seus longos discursos ao povo cubano, em 1982, inicia com uma frase emblemática: “temos o dever sagrado de não estarmos satisfeitos jamais”. Estaríamos satisfeitos?

Entre acertos, obstáculos e erros imperdoáveis, uma tentativa de integração, redistribuição de renda e freio ao imperialismo norte-americano – rapina que nunca descansou – foi tentado. Governos progressistas, mas covardes demais para enfrentar o caudilhismo, o peleguismo, o autoritarismo e a pecha da aristocracia estrutural das elites latino-americanas, caminharam entre sucessos louváveis e revezes detestáveis. Conciliadores, foram vencidos por aqueles que acocaram.

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A Argentina vive hoje um regresso inexplicável, assim como o Brasil de Temer. Honduras experimenta um estado de sítio e eleições farsescas. Uruguai conta com Mujica, mas por pouco tempo. Cuba, com a morte de sua liderança, parece caminhar no escuro. O México e a Colômbia vivem entre um passado que insiste em não passar e horizontes sem expectativas. A Venezuela e a Bolívia, entre crises, pequenas vitórias e uma maior participação popular nas decisões políticas, são alvos incessantes de uma elite carcomida. São tempos sombrios.

Em seu livro, Hobsbawm escreve, em 1963: “As estruturas sociais e a situação colonial da América Latina permanecem praticamente inalteradas”. No mesmo ensaio, o velho marxista, não obstante, não perde as esperanças: “o povo da América Latina começou a acordar”.

2017, próximos de 2018. Estamos cansados, derrotados, insones. Há esperança? A era das utopias chegou ao fim? Não acredito. A história não acabou. Ela nunca acaba. O sonho da Pátria Grande vive. A liberdade e a igualdade ainda nos esperam. Como cantou Mercedes Sosa, a voz da América Latina, seguimos sonhando, “con la esperanza delante, con los recuerdos detrás”. Firmes e juntos, seguimos.

(Dedico este artigo ao meu avô Silvio Mazzalai Machado, falecido recentemente. Enérgico e radical em suas ideias, cantava, tocava, lia e brigava pela América Latina. Com todo o meu amor)

Luís Felipe Machado de Genaro é historiador e mestrando em História pela UFPR.
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