Uma breve análise da conjuntura política atual nos permite recordar o modelo democrático estruturado no mundo grego antigo. Naquele tempo, a democracia era exercida pelos cidadãos de forma direta, os quais, por meio da palavra, deveriam (relação de dever) se dirigir até a ágora para participar do debate público. A praça era o espaço onde a política acontecia, onde a coisa pública era gerida a partir dos interesses do bem comum.

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O cenário político brasileiro vem chamando atenção da imprensa mundial em virtude dos diversos movimentos que tem surgido pelas ruas do país. Até pouco tempo atrás a frase que mais se ouvia era "o gigante acordou", fazendo alusão ao despertar político por parte da população que padecia de uma espécie de "sono dogmático". O reflexo desse movimento se vê nos diversos protestos que têm ganhado as avenidas e mobilizado milhares de pessoas. Certamente tais protestos geram divergência entre aqueles que são contrários e aqueles que são favoráveis. De fato, ainda assim, é inegável que tais protestos são de suma importância para o processo político brasileiro.

Se para os gregos a ágora era o espaço do debate democrático, hoje, para nós brasileiros, as ruas, o espaço de todos, é o local mais adequado para tal debate. A rua é o espaço político! E trata-se de um espaço relevante, uma vez que é lá que o cidadão utiliza a palavra, tem voz e exige ser ouvido. Depois, nas urnas, o que temos é o desdobramento de tal discussão.

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Sendo assim, torna-se fundamental defender o direito de expressão por parte da população; é preciso que as autoridades constituídas a partir do voto democrático estejam atentas à voz que vem das ruas. Não se pode mais ignorar que a esfera política, hoje, transcende os poderes macrofísicos (Executivo, Legislativo e Judiciário) e se dissemina nas relações microfísicas de todo o corpo social. É o que assevera a Carta Política de 1988, em seu Art. 1.º, Parágrafo Único:"Todo o poder emana do povo [...]". Trata-se, portanto, da soberania popular.

Por fim, é importante salientar que a discussão, os protestos e movimentos, são uma manifestação política e, portanto, legítima em um Estado Democrático de Direito. É oportuno ressaltar que política se faz a partir do dissenso, ou seja, política não é consenso! Por isso a importância do "conflito", da divergência, do diálogo e da argumentação em prol do melhor para a coisa pública. Não são poucos os que levantam a bandeira em prol do consenso político dizendo que "precisamos chegar num consenso". Porém, a razão de ser da própria política é o dissenso. No dia em que a política for consensual, a própria prática política se desconstruirá, uma vez que ela perderá sua razão de ser. É válido lembrar que o consenso só é favorável para aqueles que já estão no poder.

Estamos às vésperas de celebrar mais uma Copa do Mundo, a qual, sem dúvida, será marcada por grandes movimentos políticos. Neste momento oportuno da história do Brasil, vale lembra que, de acordo com Max Weber, "a política significa elevação para a participação no poder ou para a influência na sua repartição, seja entre os Estados, seja no interior de um Estado ou entre os grupos humanos que nele existem".

Edimar Brígido, especialista em Ética e professor de Direito e Filosofia no Centro Universitário Curitiba, é mestre e doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

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