
Ouça este conteúdo
Em ano eleitoral, o Brasil volta a discutir crescimento, desenvolvimento, emprego, produtividade e redução das desigualdades regionais. Mas há uma pergunta que raramente aparece nos debates presidenciais: onde, exatamente, o Brasil está construindo sua economia do futuro?
O debate público brasileiro continua preso a um mapa mental estreito. Quando se fala em tecnologia e desenvolvimento, a imagem que surge é quase automática: Faria Lima, Avenida Paulista, polos metropolitanos consolidados no Sudeste e no Sul. Como se o futuro tivesse um CEP fixo.
Os dados mostram outra realidade – e expõem uma escolha política. O Brasil contabiliza hoje 113 parques tecnológicos distribuídos pelas cinco regiões, reunindo cerca de 2,7 mil empresas que faturam mais de R$ 15 bilhões por ano e geram aproximadamente 75 mil empregos diretos, segundo a Anprotec e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Esses ambientes acumulam três décadas de políticas públicas e aproximadamente R$ 7 bilhões em investimentos. Não se trata de iniciativas experimentais. São infraestruturas econômicas consolidadas.
Ainda assim, a maior parte da atenção política, midiática e financeira permanece concentrada nos grandes centros do Brasil. Dados do IBGE mostram que o PIB industrial e os serviços intensivos em tecnologia permanecem concentrados nas regiões metropolitanas. A própria Pesquisa de Inovação (Pintec) evidencia que as empresas inovadoras estão majoritariamente onde já existe densidade econômica. O Brasil anuncia descentralização, mas premia a concentração.
Em 2026, candidatos voltarão a falar de futuro. A pergunta necessária é outra: o futuro continuará concentrado nos mesmos bairros ou será distribuído pelo território nacional?
Há décadas, o Ipea aponta as desigualdades regionais como um dos principais entraves ao desenvolvimento brasileiro. Produtividade e renda seguem distribuídas de forma assimétrica. Ao mesmo tempo, estudos do próprio instituto indicam que ambientes locais de inovação, quando conectados a universidades e cadeias produtivas regionais, produzem efeitos multiplicadores significativos. Em outras palavras: desenvolvimento territorial não é política compensatória – é estratégia econômica.
E é justamente aqui que o interior costuma ser mal compreendido. Tratar a hinterlândia como “periferia” da inovação é ignorar suas vantagens competitivas específicas. No interior, a inovação tende a nascer mais perto do problema real: logística, agro, saúde, energia, saneamento, educação, eficiência industrial, produtividade. São urgências concretas, não “cases” de palco. Isso cria um ambiente de validação permanente – um laboratório vivo – em que soluções são testadas com rapidez e a menor custo.
Além disso, o interior do Brasil possui um ativo pouco reconhecido nas análises tradicionais: capital social. Redes de confiança, cooperativas, associações e arranjos produtivos locais reduzem os custos de coordenação e aceleram a tomada de decisões. Quando a colaboração é orgânica, a inovação não depende de moda; depende de resultado.
Isso significa que parques tecnológicos no interior não são projetos simbólicos. São instrumentos de política econômica. Entre 2017 e 2023, pedidos de patentes associados a empresas instaladas nesses ambientes cresceram mais de 100%. Esse dado, isoladamente, não resolve o problema da concentração, mas sinaliza um movimento que passa despercebido no debate eleitoral: a interiorização gradual da inovação aplicada.
Em muitos municípios médios, a presença de ecossistemas de ciência e tecnologia eleva a massa salarial, amplia a arrecadação tributária e diversifica a base produtiva. Esse movimento altera trajetórias regionais – e o faz por um caminho que o Brasil costuma subestimar: produtividade com enraizamento territorial.
Há também um efeito político pouco debatido: a retenção de talentos. Jovens qualificados deixam de migrar compulsoriamente para capitais do Brasil. Profissionais encontram oportunidades fora dos grandes eixos. A inovação passa a funcionar como mecanismo de fixação populacional e de redução da pressão urbana. Para um país historicamente marcado por fluxos migratórios assimétricos, isso é política de coesão nacional.
A OCDE tem reiterado que sistemas de inovação territorialmente distribuídos aumentam a resiliência econômica e reduzem as vulnerabilidades estruturais. Países que conseguiram descentralizar seus polos tecnológicos – como Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos – transformaram regiões fora das metrópoles em motores industriais e científicos.
Por outro lado, economias excessivamente centralizadas territorialmente são mais expostas a choques e menos eficientes na difusão tecnológica. O ponto não é “interior versus capital”. É construir um sistema nacional capaz de difundir capacidades e resultados por todo o território.
O debate eleitoral de 2026 aborda nova política industrial, reindustrialização, economia verde, inteligência artificial e bioeconomia. Mas raramente especifica onde essas agendas serão implementadas. Sem territorialização, propostas viram slogans. E slogans não criam cadeias produtivas, não reduzem dependência tecnológica, não mudam matrizes econômicas regionais. O “onde” é parte do “como”.
Ignorar a hinterlândia de inovação é perpetuar o modelo concentrador que o país afirma querer superar. Significa reforçar as assimetrias diagnosticadas há décadas pelo IBGE e pelo Ipea. É desperdiçar a capacidade instalada de regiões que já demonstram dinamismo produtivo. E mais: é continuar tratando o interior do Brasil como fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia – quando ele já é, em muitos casos, produtor de conhecimento aplicado e ambiente ideal para prototipagem e escala por cadeia.
Valorizar o interior não é romantizar a escassez. É reconhecer a eficiência econômica onde ela já acontece. Se o Brasil pretende reduzir desigualdades regionais, aumentar produtividade e consolidar soberania tecnológica, precisa transformar parques tecnológicos e ecossistemas regionais de inovação em política de Estado – não em projetos isolados dependentes de ciclos locais. Isso exige instrumentos de fomento mais territorializados, compras públicas e corporativas orientadas a pilotos regionais, conectividade e infraestrutura de dados para pesquisa aplicada e governança que conecte universidade, empresa e poder público com metas comuns.
Em 2026, candidatos voltarão a falar de futuro. A pergunta necessária é outra: o futuro continuará concentrado nos mesmos bairros ou será distribuído pelo território nacional?
Porque, no fim das contas, a verdadeira escolha política não é entre inovação e atraso. É entre concentração e desenvolvimento. E o país que insiste em inovar apenas onde sempre inovou continuará crescendo como sempre cresceu: de forma desigual.
Paulo R. C. Rocha é gestor, pesquisador em políticas educacionais e vice-presidente do Biopark.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







