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O sociólogo Musa al-Gharbi publicou recentemente um artigo informativo e ponderado na American Affairs, discutindo várias hipóteses para a constatação bem estabelecida de que os conservadores tendem a relatar serem mais felizes, saudáveis e satisfeitos do que os liberais.
O ensaio, e o trabalho futuro de al-Gharbi, contestam a explicação simplista e comprovadamente falsa para essa diferença de bem-estar: a de que os conservadores estariam apenas racionalizando privilégios.
Embora provavelmente existam fatores genéticos que predisponham as pessoas tanto ao conservadorismo quanto ao bem-estar, al-Gharbi conclui que “o conservadorismo provavelmente ajuda seus adeptos a compreender e a responder construtivamente a situações adversas. Esses efeitos são independentes da religiosidade e do patriotismo (que tendem a ser aliados ideológicos do conservadorismo), mas são potencializados por eles”. Por outro lado, “algumas vertentes da ideologia liberal... provavelmente exacerbam (e até incentivam) a ansiedade, a depressão e outras formas de pensamento negativo”.
O ensaio e a literatura que al-Gharbi aborda não definem diretamente as ideologias conservadora e liberal. Os estudiosos dessa literatura tendem a utilizar questionários que solicitam aos respondentes que autodeclarem sua identificação ideológica, em uma escala que vai do conservadorismo ao liberalismo.
É claro que as definições de conservadorismo e liberalismo são objeto de muita controvérsia entre defensores e opositores de cada um; tanto acadêmicos quanto o público em geral podem atribuir significados diferentes a esses termos. E, como al-Gharbi destaca, o fato de os conservadores tenderem a relatar níveis mais altos de satisfação do que os liberais não prova que todas as visões sociais conservadoras sejam as corretas.
Mas há razões para acreditar que o alívio da ansiedade, da preocupação, do desespero e da solidão tende a ser encontrado não com tanta frequência nos mesmos lugares onde os liberais o buscam, como a terapia e o ativismo, quanto nos lugares onde os conservadores o buscam e frequentemente o encontram: fé, família e comunidade. Sob essa perspectiva, a diferença no bem-estar se explica facilmente: o conservadorismo, como projeto intelectual e cultural, está simplesmente mais sintonizado com a satisfação pessoal do que o liberalismo e o progressismo.
O escritor neoconservador Irving Kristol defendeu a busca pelo bem-estar nos espaços comuns da sociedade burguesa — algo que os conservadores tendem a buscar —, mas também percebeu que uma sociedade saudável e vibrante precisa de mais:
Uma sociedade precisa de mais do que homens e mulheres sensatos para prosperar. Ela precisa da energia da imaginação criativa, expressa na religião e nas artes. É crucial para a vida de todos os nossos cidadãos, assim como para a de todos os seres humanos em todos os os tempos, que eles se deparem com um mundo que possua um significado transcendente, no qual a experiência humana faça sentido. Nada, absolutamente nada, é mais desumanizador, mais propenso a gerar uma crise, do que vivenciar a própria vida como um evento sem sentido em um mundo sem sentido.
Nada, absolutamente nada, é mais desumanizador, mais propenso a gerar uma crise, do que vivenciar a própria vida como um evento sem sentido em um mundo sem sentido
Irving Kristol
Durante sua notável vida, o grande ativista comunitário Robert L. Woodson, Sr., foi um soldado na necessária guerra contra a pobreza espiritual. Contra um liberalismo que gera impotência e um conservadorismo complacente, ele exemplificou um conservadorismo de renovação, incentivando-nos a formar relacionamentos fortes, construir nossas comunidades e estender a “graça radical” aos nossos semelhantes. Tal conservadorismo tem muito a oferecer a uma sociedade repleta de déficits de saúde mental e bem-estar.
Patologias do liberalismo
Como al-Gharbi destaca, em boa parte da literatura acadêmica, a vantagem conservadora em termos de bem-estar é considerada "patológica". No entanto, essa perspectiva pode levar os acadêmicos a não perceberem as maneiras pelas quais a ideologia liberal pode ser patológica.
Os liberais são mais propensos do que os conservadores a procurar e receber diagnósticos de saúde mental, com exceção dos conservadores com os problemas de saúde mental mais graves, que são mais propensos a procurar tratamento e receber diagnósticos.
Portanto, os conservadores geralmente são menos propensos a procurar tratamento de saúde mental, mas relatam níveis mais altos de bem-estar. Isso está de acordo com as questões levantadas por psicólogos como Joanna Moncrieff e Paul Minot sobre a eficácia de soluções farmacológicas e abordagens terapêuticas para problemas de saúde mental que focam em aspectos externos aos padrões de pensamento, aos comportamentos e aos relacionamentos dos pacientes.
O chamado “paradoxo tratamento-prevalência” consiste no fato de que, mesmo com a maior disponibilidade de tratamentos para problemas de saúde mental, como a depressão, a prevalência desses problemas não diminuiu; na verdade, aumentou.
No livro Bad Therapy: Why the Kids Aren't Growing Up (Terapia Ruim: Por Que as Crianças Não Estão Crescendo), a jornalista Abigail Shrier argumenta que os efeitos iatrogênicos de uma cultura terapêutica são frequentemente subestimados e particularmente prejudiciais para crianças que enfrentam desafios normais da vida, em vez de problemas genuínos de saúde mental.
O livro recebeu críticas aparentemente razoáveis, mas levanta um ponto importante sobre os limites e os perigos da nossa cultura terapêutica. Em vez de preparar crianças e jovens para enfrentar os desafios da vida, muitas vezes tratamos a dor e o sofrimento emocional como condições anormais que exigem tratamento especial. Essa é uma receita para a infelicidade, pois, nessa perspectiva, praticamente qualquer pessoa ou coisa se torna um obstáculo para a nossa felicidade, contentamento e sensação de paz.
Contentamento conservador
O teórico conservador Russell Kirk colocou a preocupação com o bem-estar da pessoa, o que ele chamou de necessidade de ordem do indivíduo — “o caminho que seguimos, ou o padrão pelo qual vivemos com propósito e significado” —, no centro de sua definição de conservadorismo.
Citando a obra da filósofa francesa Simone Weil, A Necessidade de Raízes, ele descreveu a ordem como a primeira necessidade da alma. Como escreve Peter Berkowitz, William F. Buckley Jr. argumentava consistentemente que “a liberdade política deveria ser valorizada porque permitia aos indivíduos se dedicarem a bens transpolíticos, entre os quais se destacam a família e a fé, que Buckley nunca se cansou de argumentar serem essenciais para a felicidade humana plena”.
O princípio da imperfeição limita adequadamente nossas expectativas em relação a esta vida, contribuindo para um sentimento de gratidão pelas bênçãos que desfrutamos
O princípio da imperfeição, que Kirk destaca como uma característica fundamental da disposição conservadora, limita adequadamente nossas expectativas em relação a esta vida, contribuindo para um sentimento de gratidão pelas bênçãos que desfrutamos.
Os entrevistados que se identificam como conservadores podem não ter lido Kirk ou Buckley, mas parecem ter absorvido alguns desses princípios e os aplicado à sua perspectiva e aos seus comportamentos.
Descontentamento liberal
Enquanto os conservadores defendem a ordem social em parte pelo desejo de atender às necessidades da alma individual, os liberais de vertente clássica defendem a autonomia individual em prol do progresso social.
Para Buckley, a liberdade servia ao propósito da participação na família e na fé, ao propósito da felicidade pessoal; mas, para Friedrich Hayek e John Stuart Mill, o benefício da liberdade individual reside em permitir a inovação e o progresso.
A maioria das pessoas não será capaz de usar a liberdade para promover avanços sociais, mas não podemos saber de antemão quem será; portanto, devemos conceder liberdade a todos.
Como Hayek escreve em A Constituição da Liberdade: “Não é porque gostamos de poder fazer coisas específicas, não é porque consideramos qualquer liberdade em particular essencial para a nossa felicidade, que temos direito à liberdade… O importante não é qual liberdade eu pessoalmente gostaria de exercer, mas qual liberdade alguma pessoa pode precisar para fazer coisas benéficas para a sociedade.”
Em Sobre a Liberdade, Mill defende a maior liberdade possível para a autonomia individual e a liberdade de escolha, para que as "pessoas de gênio", que provavelmente serão sempre minoria, possam testar suas ideias e trazer novas perspectivas que contribuam para o progresso social. A individualidade, embora exista de fato apenas em alguns, serve à sociedade se lhe for permitido florescer.
O liberalismo do New Deal de Franklin Roosevelt e o liberalismo dos Direitos Civis de Martin Luther King Jr. estão um pouco mais sintonizados com as necessidades e preocupações do indivíduo. Ainda assim, esses liberalismos, assim como o progressismo, focam na transformação social e na busca por justiça, em vez de nos adaptarmos às inevitáveis decepções da vida.
Esses liberalismos tendem a tratar como direitos ou prerrogativas bens que só são garantidos por instituições duradouras e, mesmo assim, apenas parcialmente disponíveis nesta vida — pense nas Quatro Liberdades de Roosevelt, que incluem a “liberdade da miséria” e a “liberdade do medo”.
Pense também na famosa declaração de King de que “[a] injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. Esse pensamento absolutista pode facilmente gerar uma sensação de insatisfação e descontentamento constantes com o status quo, em vez do reconhecimento da necessidade de ajustar nossas expectativas e nos fortalecer para a decepção e a imperfeição em nós mesmos, nos outros e em nossas sociedades.
Um conjunto amplo e crescente de pesquisas aponta para a fé, a família e a comunidade como preditores de felicidade e saúde mental autodeclaradas
Relacionamentos e conexões parecem importar mais do que renda ou inteligência em termos de promoção do bem-estar e da satisfação pessoal. O conservadorismo da renovação de Woodson também defende um princípio básico do bem-estar psicológico: sabedoria não é se preocupar demasiadamente com coisas fora do nosso controle, mas assumir energicamente a responsabilidade pelo conjunto limitado de questões sobre as quais podemos agir.
Embora a diferença de bem-estar entre conservadores e liberais não prove que o conservadorismo, em linhas gerais, seja a visão de mundo correta ou superior, ela sugere que, na medida em que os conservadores incentivam a busca por contentamento e bem-estar onde é mais provável encontrá-los, eles estão certos. Tudo isso não parece levar a uma conclusão óbvia?
Devemos dizer aos jovens para serem conservadores, assim como patriotas e religiosos, para o seu próprio bem-estar. Isso é verdade, até certo ponto. Mas os benefícios de ser conservador podem funcionar apenas para alguém que de fato o seja. Em outras palavras, para vivenciar a vida da mesma forma que essa pessoa, você pode ter de internalizar as crenças, os comportamentos e os hábitos que caracterizam alguém que se identifica como conservador.
Lutando a boa luta
Há também algo mais. Os críticos que tratam a disparidade de bem-estar como mero reflexo do privilégio e da relutância em confrontar a injustiça estão objetivamente errados, mas suas críticas apontam para uma verdade. O bem-estar nesta vida não é o objetivo final da vida, como atesta o melhor do conservadorismo.
O primeiro cânone do conservadorismo de Russell Kirk é o reconhecimento da ordem moral divinamente dada. O conservadorismo pode levar (e levou) à complacência e à identificação de instituições e práticas injustas com a ordem vigente no mundo.
A declaração de King sobre justiça não é literalmente verdadeira, mas aponta para uma verdade mais profunda: embora devamos ser gratos pelos bens que recebemos, não podemos nos acomodar com o mundo como ele é. Lembremos outra declaração famosa de King: “Se um homem não descobriu algo pelo qual esteja disposto a morrer, em certo sentido, ele não é digno de viver”.
Woodson compreendeu que muitos problemas em nossa sociedade não se devem principalmente à luta material ou à adversidade externa, mas à pobreza moral e espiritual. Precisamos de seu tipo de conservadorismo, um conservadorismo ativo de renovação pessoal e social. A guerra contra a pobreza espiritual proposta por Kristol vale a pena ser travada e precisa de soldados e generais dispostos a combatê-la.
Ben Peterson é professor assistente de Ciência Política na Abilene Christian University, no Texas, Estados Unidos. Publicou ensaios em diversos veículos, valendo-se de recursos da teoria social e política cristã, da tradição ocidental do pensamento político e da sociologia contemporânea para analisar questões de interesse público.
©2026 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Don’t Worry. Be Conservative.



