O que o presidente da Câmara dos Deputados não deve ser
| Foto: Pedro França/Agência Senado

Nas próximas semanas, a Câmara dos Deputados terá a oportunidade de entrar em um novo tempo com a eleição para a presidência da Casa. Não é preciso se alongar explicando por que essa votação é tão importante para o país, nem enfatizar as qualidades que se esperam do vencedor, mas, tendo em vista o que ocorreu nos últimos anos, considero imprescindível dar destaque a tudo aquilo que o próximo mandatário não pode ser ou não deveria fazer.

Começo com o óbvio: o parlamentar que assumir a presidência precisa ser autêntico, ter palavra digna de confiança e não adotar a ambiguidade de quem tem duas caras como padrão moral. É inaceitável que o próximo presidente da Câmara, por exemplo, pose de defensor da agenda econômica liberal diante da mídia que o adula e em jantares sofisticados com a nata do empresariado enquanto, nos bastidores, firma acordos espúrios com a pior parte da esquerda, impedindo privatizações e enfraquecendo propositalmente todo tipo de proposta reformista que chega à Casa. Delegar relatorias cruciais para o desenvolvimento econômico do país aos deputados que publicamente difamam a modernização do Estado é sabotagem pura e simples, e isso precisa acabar na próxima gestão.

O próximo presidente da Casa pode até discordar de algumas das ideias que elegeram Bolsonaro, mas opor-se sistematicamente a todas as propostas provenientes do eleitorado conservador é uma forma de agir inaceitável, egoísta e antidemocrática

O Brasil todo também espera que o novo presidente da Câmara seja alguém que respeite a vontade popular expressa nas eleições de 2018, na qual Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República com uma pauta bastante clara e que foi majoritariamente aceita pela população. Ignorar esse fato incontestável e insistir em demonizar temas como a flexibilização do porte e posse de armas ou a luta contra a ideologia de gênero soa como teimosia infantil, e não como maturidade democrática. É perfeitamente possível e compreensível que o próximo presidente da Casa discorde de algumas das ideias que elegeram Bolsonaro, mas opor-se sistematicamente a todas as propostas provenientes do eleitorado conservador, rotulando de modo simplista e pejorativo como “pauta de costumes” a tudo que não o agrada pessoalmente, é uma forma de agir inaceitável, egoísta e antidemocrática.

Outra prática que precisa ser enterrada junto com o passado frustrante dos últimos anos é a arrogante divisão entre aqueles a quem o presidente da Casa atende e aqueles a quem ele escolhe premeditadamente ignorar, não importando o dever democrático que recai sobre o cargo que ocupa. São as velhas “panelinhas” que acabam por gerar castas entre parlamentares essencialmente iguais, com a agravante de que só caem nas graças do presidente aqueles que se submetem docilmente à sua vontade, por exemplo, produzindo relatórios que digam exatamente aquilo que o presidente quer que seja dito. Trata-se de uma forma deplorável de agredir a independência dos deputados, uma demonstração de desrespeito, de falta de humildade e de honradez. É algo que precisa ser recordado, especialmente no momento do voto, por cada parlamentar que, nos últimos anos, não foi tratado pela presidência da Casa com a devida dignidade, a mesma que qualquer outro de seus pares merece.

Por fim, espero que a presidência da Câmara dos Deputados seja assumida por alguém politicamente maduro, que não seja excessivamente sensível a picuinhas e não dependa permanentemente dos elogios da grande imprensa para fazer seu trabalho.

O Brasil não aguenta mais receber fingimentos e melindres de quem se esperava apenas responsabilidade. A presidência da Câmara precisa crescer.

Filipe Barros é deputado federal (PSL-PR).

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