Escrevendo dois dias antes da eleição, não sei quem ganhou, mas sei quem perdeu. Da campanha mais sórdida em 70 anos, a democracia sai degradada pela manipulação dos marqueteiros. O Brasil já perdera o crescimento, a estabilidade da moeda, a responsabilidade fiscal, o saldo das exportações, o dinamismo da indústria, a admiração do mundo. Está agora ameaçado de perder a unidade e a concórdia civil.

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Lula, Dilma e seu partido escolheram o confronto e a violência verbal como tática para ganhar. Se vencer, a presidente não poderá repetir o que disse Obama em sua posse: "estamos juntos porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósitos em lugar do conflito e da discórdia".

A democracia deve encarar a alternância no governo como o único antídoto contra a inevitável corrupção do poder perpétuo. Não se trata de esperar, por absurdo, que o governo cometa suicídio em nome da alternância. O que se tem o direito de exigir é que nenhum partido, muito menos o que goza da vantagem da situação, se comporte como aquele coronel do interior para o qual só havia em política um crime imperdoável: perder eleição.

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Justificar a sordidez dos meios pelo desejo de manter os inegáveis avanços sociais em favor dos pobres equivale à definição que Sartre deu dos stalinistas: eram "homens injustos que lutam pela justiça".

Não cabe colocar no mesmo plano a mentira oficializada como método de campanha com a divulgação de depoimentos do mais espantoso escândalo de corrupção de que se tem memória na Petrobras e no país. Os juízes terão de decidir se o governo teve responsabilidade criminal. O que não padece dúvida é a responsabilidade política pelo descalabro de presidentes e governos que nomearam e mantiveram nos cargos os diretores indicados por partidos que mais se parecem a famílias mafiosas.

Deixou-se que os problemas brasileiros adquirissem dimensões quase sobre-humanas. Do lado econômico, inflação em alta, estagnação do crescimento, déficits assustadores no orçamento e nas contas externas, risco de perder o grau de investimento numa conjuntura internacional adversa. Do lado político, um Congresso ainda mais fragmentado em partidos fisiológicos combinado com instituições públicas desmoralizadas por escândalos sucessivos.

A última coisa de que precisávamos era de uma sociedade rachada ao meio, polarizada e radicalizada. Como tivemos nos dois anos e meio de paralisia decisória antes do golpe militar. A fim de enfrentar os desafios que o esperam, o governo precisará de um mínimo de unidade e consenso, inclusive das oposições. Os que põem fogo em paixões sectárias para ganhar a eleição vão logo descobrir que vitórias geradoras de ressentimento e rancor inviabilizam tais condições.

Para quem age dessa forma irresponsável, a política não passa de um moinho que deve ser usado para triturar vidas exemplares como a de Marina. Ou para reduzir a pó as ilusões dos que sonharam com uma vida pública renovada e mais pura. O sábio Cartola já nos antecipou o destino que os aguarda: herdarão somente o cinismo e resvalarão no abismo que cavaram com seus pés.

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Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.

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