O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Nos últimos dias a imprensa nacional tem mencionado o “cerco” ao ex-magistrado e ex-ministro Sergio Moro. Cerco de gente honesta e confiável é que não é. Na verdade, ataca-se Moro por suas qualidades, não por quaisquer deméritos. Os inimigos não são os cidadãos cumpridores de seus deveres: o combate vai de criminosos comuns a figuras políticas atingidas pelos movimentos da Lava Jato, operação que levou à condenação ou à prisão representantes significativos das elites políticas e empresariais do país, defendidas por advogados milionários – igualmente adversários de Moro, como o grupo reunido no site Prerrogativas.

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Não é difícil identificar os que gostariam de ver o ex-juiz afastado do cenário nacional:

1) Os inimigos mais raivosos são os petistas, cujas lideranças foram condenadas em Curitiba, a começar pelo próprio Lula, passando por Zé Dirceu e outros do segundo escalão. Irmãos do lulopetismo, partidos menores e barulhentos como PSol e PCdoB também se manifestam frequentemente contra Moro, revelando o típico desprezo da esquerda pela democracia e suas instituições, especialmente a Justiça, quando suas decisões não lhes convêm.

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2) Outro setor que abomina Moro é o do crime organizado, cujos chefões perderam privilégios, sendo conduzidos ao isolamento em prisões de segurança máxima, longe de seus confortáveis “redutos”. Embora remendado por figurões da política, o Pacote Anticrime provocou devastação junto ao crime organizado.

3) Participam igualmente da “agenda anti-Moro” os partidos do Centrão – hoje aliados do governo Bolsonaro –, cujos representantes têm o rabo preso na Lava Jato, entre eles o presidente da Câmara, cognominado “Botafogo” na planilha da Odebrecht. Não é incogitável que tenham exigido a cabeça de Moro no ministério da Justiça para apoiar o governo. De qualquer modo, seu contentamento com o desfecho foi visível.

4) Por último, são também contra Moro os bolsonaristas radicais, para os quais o ex-ministro – antes tão festejado pelos governistas – hoje não passa de “traidor”. É isso mesmo: quem não apoia incondicional e dogmaticamente o presidente é tratado como inimigo. O fato é que, com a saída de Moro, o governo perdeu uma de suas figuras fundamentais, justamente a que deu incansável combate à corrupção. Bolsonaro não parece bom estrategista: ao invés de ter um bom magistrado no STF, gerou um sério concorrente à presidência em 2022.

O que temem esses grupos? Mais que tudo, exatamente a possibilidade de uma candidatura de Moro. Sua vitória seria uma catástrofe para o crime organizado, para os políticos e empresários envolvidos em corrupção, para o lulopetismo e, claro, para os bolsonaristas, que já estão defendendo até o “Bolsonaro 2026”.

O fato é que, em face da desastrosa crise gerada pela pandemia, nenhum governo no mundo pode ter certeza de ser reeleito. Com a economia destroçada, a travessia não será fácil para ninguém. No caso brasileiro, imagine-se alguma mudança no ministério da Economia, o outro sustentáculo do governo Bolsonaro. O sustentáculo do combate ao crime e à corrupção já foi perdido e pode se tornar um sério empecilho ao continuísmo. Não se pode descartar o cacife político de Sergio Moro.

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Orlando Tambosi é doutor em Filosofia, jornalista e professor aposentado da UFSC.