De que cor mesmo é o presidente Barack Obama? Passado o momento de admiração com o fato de um negro vencer todas as barreiras do preconceito num dos países mais racistas do mundo, ninguém mais parece se importar com isso, o que é uma prova de maturidade política invejável em um país historicamente dividido pela cor das pele. Agora, a atenção geral é pela agenda política, social e estratégica do presidente e de seu grupo e o companheiro Obama não está perdendo tempo. Em menos de cinco meses, já começou a demonstrar que tem ideias bastante concretas a respeito de como encaminhar problemas que se arrastam há anos, décadas.

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Em alguns casos, tem agido com uma malícia e uma esperteza surpreendentes para um americano. É o caso de Cuba, em que os Estados Unidos há cinquenta anos insistem num embargo farsesco a um país de opereta, apenas para agradar aos cubanos anticastristas da Calle Ocho de Miami. Cuba não tem qualquer relevância estratégica ou militar há décadas, mas a insistência americana em manter o embargo só fez alimentar o vitimalismo de Fidel Castro e de seus burocratas. Que fez Obama? Facilitou as viagens dos cubano-americanos e o envio de recursos e produtos para os parentes da ilha. Que acontecerá quando os cubanos começarem a comparar sua situação, tendo de enfrentar racionamentos para comprar um mísero quilo de manteiga, submetidos a uma vigilância policial ferrenha no que dizem e no que fazem, com o destino que tiveram seus parentes que preferiram fugir do paraíso enquanto era tempo? Sou capaz de jurar que a ditadura castrista não resistirá muito tempo incólume a esse choque de realidades tão distintas.

O companheiro Obama também se mexeu logo para desatar o nó da crise dos bancos americanos e da indústria automotiva. General Motors e Chrysler viviam na ilusão de que eram too big to fail (grandes demais para quebrar) e que o governo viria em seu socorro logo que a situção se mostrasse insustentável. Enquanto isso, cometiam todas as burradas a que tinham direito, insistindo em produzir carros ineficientes e gastadores e em desconhecer que mais dia, menos dia, a indústria americana de veículos iria ficar insustentável. Tal como aquele sujeito que se jogou do décimo andar e ao passar pelo terceiro, gritou para um amigo na janela: "até aqui, tudo bem!". Pois bem, as duas foram obrigadas a pedir o que corresponde a uma concordata nos Estados Unidos, a Chrysler já foi entregue à Fiat, a General Motors já perdeu toda a sua operação europeia e vai renascer com o governo americano e o canadense como sócios majoritários, algo impensável na cultura empresarial ianque. Os bancos que receberam de braços abertos o auxílio do Tesouro americano já estão achando que o negócio não foi tão bom assim, pois quando alguns deles começaram a se sentir mais fortalecidos em termos de caixa e anunciaram que iriam pagar os empréstimos para se livrar da ingerência do governo foram avisados que não poderiam fazê-lo sem antes reforçar seu capital para evitar problemas iguais no futuro. Golpe de mestre.

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Em todas as áreas, o governo de Barack Obama está na ofensiva. O reconhecimento de que o mundo vive um processo de aquecimento global representa uma nova postura nas questões ecológicas, nas quais a estupidez do governo Bush alienou aliados e jogou o que restava da credibilidade americana na lata do lixo; a crise do Irã e do Oriente Médio em que saiu da defensiva de muitos anos para propor ideias e provocar reações; e a guerra no Afeganistão, em que o vexame protagonizado pelos ingleses, e depois pelos soviéticos, saindo do país com o rabo entre as pernas, estava em via de se repetir.

Nessa agenda toda, só não existiu nem espaço nem interesse pela América Latina e pelo Brasil. Essa nossa visível desimportância geopolítica é culpa dos Estados Unidos? Ou será culpa dessa política juvenil terceiro-mundista em que o governo Lula, com suas eminências pardas – Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia – nos jogaram? Aliás, para repetir uma ironia do próprio Lula, referindo-se a Paulo Maluf, em matéria de ocupar espaços na burocracia internacional, somos um país cada vez mais competitivos: competimos, competimos e sempre perdemos... A ministra Ellen Gracie que o diga.

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR