Esse pessoal do marketing esportivo é mesmo diabólico. Depois de invadir as camisas, os calções, as meias, os agasalhos dos atletas e o uniforme dos juízes com suas logomarcas, avançou no último refúgio intacto do futebol tradicional: a bola. Tinha-se a bola, aliás as bolas, uma de cor laranja para os jogos diurnos e outra branca para os noturnos. As bolas laranjas saíram de moda e permaneceu a branca, pura e virginal, à espera das botinadas dos nossos craques como Amélias resignadas. Não mais: agora temos a bola da Copa, com logotipos especiais e uma cor reticulada para realçar sua "esfericidade" como certamente dirá um locutor esportivo. Mas não basta ao torcedor ter a bola da Copa; é preciso ter , também, a bola da partida final da Copa, com marcas especiais, comemorativas. Pelo andar da carruagem, logo, logo, os marqueteiros conseguirão que a Fifa aprove bolas maiores, onde caibam mensagens publicitárias inteiras. Já pensaram que glória? A foto no jornal de uma bola onde se lê: "são momentos como este que merecem um gole da sua deliciosa ..." entrando no gol adversário?

Tempos modernos. E vamos reconhecer que o futebol brasileiro vive seu momento de esplendor, com gente de todo o planeta usando camisetas amarelas com o nome de Kaká, Ronaldinho, Ronaldo... e a Europa invadida por outdoors com a foto de Ronaldinho e a frase em português "Joga bonito". Confesso que, apesar de ter me qualificado ao longo da vida para dizer "meninos, eu vi!" como alguém que gozou de alguns privilégios inesquecíveis como ver Pelé, Garrincha, Didi e Nílton Santos jogar, e de assistir as seleções de 1958 e 1970 enterrarem o Complexo de Vira-Lata de que falava Nelson Rodrigues, também vi o império da desorganização e da improvisação dominar o esporte brasileiro. A bagunça do futebol continua, com a inacreditável saga dos Onaireves, Euricos Mirandas e "Caixas d’Água" , que parecem ter sido colocados na terra com a singela missão de evitar que os ventos da modernidade soprem sobre o nobre esporte bretão; mas, pouco a pouco, a improvisação foi sendo banida do lugar realmente importante que é o gramado. Não existe comparação possível entre o estado físico da seleção de hoje com o da seleção de 1958, cuja preparação teve o concurso de um dentista, obrigado a arrancar várias dezenas de dentes de nossos craques, minados por infecções, e de um pedicure para arrancar centenas de calos.

A seleção de agora tem o que – de novo apud Nelson Rodrigues – se chama de saúde de vaca premiada, é acompanhada por fisioterapeutas, médicos e psicólogos. Quanto a esse último, espera-se que não pertença à mesma escola do professor Carvalhaes, psicólogo da seleção de 1958 que queria, a todo custo, que Garrincha fosse barrado da seleção depois que um teste aplicado por ele descobriu que Mané tinha idade mental de 7 anos. Como a vitória purga todos os pecados, o professor Carvalhaes viveu seu momento de glória desfilando em caminhão dos bombeiros pelas ruas de um jubiloso Rio de Janeiro.

Enfim, já que não fomos capazes de derrotar o mensalão nem a corrupção dos sanguessugas, nem de cassar a turma dos "recursos não contabilizados", vamos ao que é importante que é ganhar a Copa. E aí, começo a ter receio do triunfalismo precoce. As TVs estão inundadas de mensagens patrióticas, todo mundo fala no hexa e já, já aparecerá um deputado propondo colocar a sexta estrela que ganharemos na Copa na bandeira brasileira. A concentração na Suíça está inundada de torcedores e até uma ala de escola de samba, com Neguinho da Beija-Flor puxando sambas exaltados e lindas passistas semi-nuas rebolando, já está lá, espantando os locais, absolutamente pasmos com o que está acontecendo. Quem é que pode ter um mínimo de tranqüilidade para se preparar quando mais de 5 mil pessoas assistem os treinos?

Tenho em matéria de futebol brasileiro uma teoria extremamente cabotina. Se não fosse a "contribuição" dos que estão fora de campo "dirigindo" os clubes e as federações, o campeonato mundial teria de ser suspenso por falta de competição; se deixássemos apenas os jogadores trabalhando sem ter de aturar as trapalhadas, as roubalheiras e a crônica desorganização do futebol brasileiro, seríamos como o Dream Team do basquete americano, aquele a que se vai ver jogar sabendo que vai ganhar, apenas pelo prazer de observar o virtuosismo em ação, mesmo que à custa do seu time.

Que tal deixar a turma de dentro do campo fazer, sem pressão demasiada, aquilo que sabe fazer melhor do que qualquer outro mortal na face da terra? Para que obriga-los a sentir-se como soldados ansiosos ouvindo a exortação napoleônica: "Jogadores da seleção canarinho: do alto dessas arquibancadas, cento e oitenta milhões de brasileiros vos contemplam!".

Belmiro Valverde Jobim Castor é membro da Academia Paranaense de Letras e professor do mestrado em Organizações da UniFAE.

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