| Foto: Jemal Countess/AFP

Sempre achei que Stephen Hawking fosse viver mais que eu – e por isso caí no choro ao saber, nesta quarta, que não foi assim. Ele morreu em casa, em Cambridge, na Inglaterra, aos 76 anos, depois de conviver mais de meio século com a esclerose lateral amiotrófica.

CARREGANDO :)

O fato de um homem ouvir que tem três anos de vida, aos 21, e morrer 55 anos depois não deveria ser um choque, mas, embora eu fosse 15 anos mais novo que Stephen, e ele ter vivido com uma doença grave, quem o conhecia não podia deixar de achar que sempre estaria presente, que a sua força de vontade de viver era inesgotável, que, de alguma forma, conseguiria operar mais um milagre.

A comunidade científica reconhece, merecidamente, um deles: a descoberta que fez, em 1974, de algo hoje conhecido como a “radiação Hawking”, ou o fenômeno no qual os buracos negros, que têm esse nome porque nada lhes pode escapar, na verdade permitem que a radiação seja emitida.

Publicidade

Na cultura popular, Stephen foi outro tipo de milagre: um cérebro flutuante, um intelecto desencarnado que se encaixa perfeitamente no estereótipo do cientista gênio.

Para mim, porém, era também o milagre diário do ser humano comum, ainda que tivesse de lutar heroicamente dentro dos limites de sua carapaça particular.

Quando discutia um ponto da física com Stephen, eu sempre perdia

O que não se ouve com frequência é que adorava um bom curry, mas não se fosse apimentado demais; que se considerava alérgico a glúten, mas que não percebia quando seus cuidadores deixavam escapar um bocadinho de vez em quando; que comia banana com kiwi todo dia; que tudo o que consumia tinha de ser amassado ou bem picado, e que era alimentado na base da colherada, embora nunca permitisse que esse detalhe o constrangesse, mesmo nos restaurantes mais finos.

Comecei a parceria com Stephen no início dos anos 2000, pouco depois de ter publicado meu primeiro livro. Ele me procurou para perguntar se eu estaria interessado em escrever um livro, o primeiro dos dois que fizemos juntos. Embora também fosse físico e já tivesse tido a sorte de trabalhar com outros gênios como Richard Feynman, fiquei eufórico com a possibilidade de conhecer Stephen.

Publicidade

Não demorou para estarmos lado a lado, literalmente, durante várias horas por dia, durante inúmeros dias. Conversávamos e debatíamos ideias, a física, e a melhor forma de escrever a seu respeito – mas também ajudava a enxugar o suor de seu rosto, ajustar-lhe os óculos, levá-lo para o sofá. E aí voltávamos a discutir. Com o tempo, nossa ligação intelectual se aprofundou graças à intimidade física desses pequenos gestos, e a partir daí só aumentou.

Como Stephen não falava, ele se comunicava através do computador. Compor frases era como jogar videogame: o cursor se movia na tela e ele tinha de marcar a letra ou palavra que queria no mouse, com o polegar, ou, nos últimos anos, movimentando a bochecha para ativar um sensor de movimento que tinha nos óculos. Quando terminava, clicava no ícone e sua voz metálica, tão famosa, lia o que tinha digitado.

Leia também: Rosetta e os poetas (artigo de Alexandre Zabot, publicado em 23 de novembro de 2014)

Leia também: O divórcio entre ciência e filosofia (artigo de Joathas Bello, publicado em 23 de julho de 2016)

A velocidade com que compunha suas sentenças era coisa de seis palavras por minuto. No começo, eu ficava ali, impaciente, meio que cochilando enquanto esperava que concluísse a composição; mas, um dia, olhando por cima de seu ombro, para a tela do computador, na parte que dava para ver onde estava escrevendo, comecei a pensar na evolução de sua resposta. Quando ele a completou, eu já tinha tido vários minutos para pensar nas ideias que expressava.

Publicidade

O que me foi de muita ajuda. E me deu a chance de considerar suas observações mais profundamente, permitindo que minhas próprias ideias e reações às dele tivessem tempo de se assentar como nunca teriam em uma conversa comum.

Quando discutia um ponto da física com Stephen, eu sempre perdia. Escrevia as equações no caderno ou no quadro, tentando convencê-lo, mas, quando acabava, descobria que a resposta era a que ele já tinha em mente.

A mesma certeza ele tinha a respeito da forma como escrevia nossos livros, embora nossas discordâncias nesse aspecto não fossem uma questão de certo ou errado, mas sim de preferência. Assim, podíamos esticar os debates – e em uma ocasião passamos duas horas discutindo uma única frase.

Provar que as pessoas estavam erradas acabou se tornando um de seus pontos fortes

Nesse aspecto, havia uma diferença importante entre nós dois: eu não precisava de muito esforço para levantar argumentos. Para se opor às minhas ideias, Stephen tinha de lutar com cada letra de cada palavra; apesar disso, era eu, não ele, quem cedia, por pura exaustão. Uma vez, durante uma discussão particularmente acalorada, tive de esperar vários minutos para ele retrucar e, quando finalmente veio a resposta, era uma piada. Mesmo encarando o cósmico, ele não perdia o senso cômico.

Publicidade

Sua especialidade era a gravidade, a mais fraca das quatro forças fundamentais do universo. Mas o próprio Stephen era uma fortaleza. Quando, ainda estudante, começou a trabalhar com os buracos negros, a maioria dos cientistas achava que o campo era um beco sem saída. Seus médicos deram um parecer semelhante em relação à sua perspectiva de vida.

Provar que as pessoas estavam erradas acabou se tornando um de seus pontos fortes – e seu presente para todos nós.

Leonard Mlodinow é físico, autor do ainda inédito “Elastic: flexible thinking in a time of change” e coautor, com Stephen Hawking, de “O grande design” e “Uma nova história do tempo”.
The New York Times News Service/Syndicate – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.