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STF em crise: o que a Colômbia pode ensinar ao Brasil sobre corrupção no Judiciário

STF pretende continuar com serviços de garçons para ministros
Estátua da Justiça diante do prédio do STF, em Brasília. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

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Em toda democracia, os tribunais e cortes de cúpula ocupam um lugar delicado. São chamados a proteger a Constituição, arbitrar conflitos entre os poderes e, em última instância, preservar as regras do jogo político. Justamente por isso, o funcionamento dessas instituições depende não apenas da autoridade jurídica, mas também da confiança pública.

Nos últimos anos, um episódio ocorrido na Colômbia tornou-se um dos casos mais dramáticos de crise institucional envolvendo um tribunal superior na América Latina. O escândalo, conhecido como “Cartel de la Toga”, ou “Cartel da Toga”, revelou um esquema de corrupção dentro da Corte Suprema de Justiça colombiana, no qual magistrados e intermediários negociavam decisões judiciais em troca de pagamentos em dinheiro, inclusive por meio de intermediários.

O caso resultou em prisões e condenações de figuras do alto escalão judiciário, incluindo ex-presidentes da Corte. Cabe distinguir que, na Colômbia, a Corte Suprema de Justiça é o órgão máximo da jurisdição ordinária, enquanto a guarda da Constituição cabe à Corte Constitucional.

Mais importante do que as prisões foi a resposta institucional do Estado colombiano à crise. O episódio demonstrou a existência de mecanismos capazes de enfrentar instabilidades internas mesmo diante de um profundo abalo à credibilidade pública do sistema. A investigação envolveu uma complexa rede de delações e inquéritos conduzidos por diferentes órgãos do Estado.

A experiência colombiana oferece uma reflexão relevante para o Brasil. Cortes supremas exercem um poder extraordinário em sistemas constitucionais modernos. Quanto maior o poder institucional, maior também deve ser a capacidade de controle, fiscalização e responsabilização

Membros da Fiscalía General de la Nación, órgão colombiano de investigação e acusação penal; a Comissão de Investigação e Acusação da Câmara; o Senado; e instâncias judiciais participaram ativamente do processo que culminou na responsabilização dos envolvidos. A apuração contou também com a cooperação de autoridades dos Estados Unidos, incluindo a DEA, cuja operação em Miami ajudou a revelar o esquema. O princípio reafirmado foi o de que nenhuma autoridade deve estar acima da lei.

Casos como esse oferecem uma oportunidade valiosa para refletir sobre o desenho das instituições judiciais na América Latina e também no Brasil. O episódio colombiano oferece uma lição relevante. Em vez de permitir o desgaste institucional sob a sombra da impunidade, o Estado puniu figuras do altíssimo escalão judiciário. O ex-presidente da Corte Suprema Francisco Ricaurte foi condenado por sua participação no esquema de corrupção, pelos crimes de associação para delinquir, corrupção ativa e uso indevido de informações privilegiadas.

Outro ex-magistrado, Gustavo Malo Fernández, também foi condenado a nove anos, oito meses e doze dias de prisão por associação para delinquir, corrupção passiva e prevaricação por omissão. No centro da investigação apareceu também Luis Gustavo Moreno, então diretor da área anticorrupção da Fiscalía General de la Nación. Moreno foi condenado por concussão e uso indevido de informações oficiais privilegiadas. Nos Estados Unidos, declarou-se culpado de conspiração para lavar dinheiro com a finalidade de promover suborno no exterior e foi condenado a quatro anos de prisão.

A resposta institucional, contudo, também teve limites. Em 16 de outubro de 2026, cerca de nove anos após a revelação do escândalo, a Corte confirmou a condenação do ex-presidente José Leonidas Bustos a 123 meses e um dia de prisão e pediu providências para sua extradição do Canadá. A própria Corte reconheceu que sua evasão comprometia a execução da pena e a concretização da resposta institucional.

No total, o chamado “Cartel da Toga” revelou uma rede complexa que envolvia magistrados, membros da Fiscalía, políticos e advogados. Diversas pessoas foram presas ou investigadas durante os desdobramentos do escândalo. Entre os réus figuraram também congressistas. O impacto institucional foi devastador. A credibilidade da Corte Suprema colombiana foi profundamente abalada por acusações de corrupção em seu próprio núcleo.

No entanto, o episódio também demonstrou a capacidade das instituições democráticas de reagir a crises internas. Investigações conduzidas pela Fiscalía, pela própria Corte Suprema e por outras instâncias judiciais levaram à responsabilização criminal de magistrados e de outros envolvidos.

O caso também abriu um amplo debate nacional sobre mecanismos de controle e transparência no sistema judicial. O projeto de reforma da Justiça apresentado pelo governo em 2018, porém, não prosperou no Congresso. Na Colômbia, ao contrário do Brasil, os magistrados da Corte Suprema não exercem cargos vitalícios.

Eles são escolhidos pela própria Corte, após audiência pública, a partir de listas de dez candidatos encaminhadas pelo Conselho Superior da Judicatura. O mandato também é limitado a oito anos, sem possibilidade de reeleição, o que já representa um mecanismo institucional de renovação periódica do tribunal. Prevista na Constituição de 1991, essa regra é anterior ao escândalo.

No Brasil, os ministros do STF são indicados pelo presidente da República, passam por sabatina e precisam da aprovação do Senado para serem nomeados. Têm a garantia da vitaliciedade e estão sujeitos à aposentadoria compulsória aos 75 anos.

A experiência colombiana oferece uma reflexão relevante para o Brasil. Cortes supremas exercem um poder extraordinário em sistemas constitucionais modernos. Quanto maior o poder institucional, maior também deve ser a capacidade de controle, fiscalização e responsabilização. Para o Brasil, cabe discutir a adoção de mandatos fixos sem recondução, reconhecendo que sua existência na Colômbia não impediu o escândalo.

Nesse sentido, o escândalo do “Cartel da Toga”, revelado em 2017, deixou uma lição importante. Mesmo quando a corrupção atinge os níveis mais altos do sistema judicial, democracias podem preservar suas instituições desde que haja mecanismos eficazes de investigação e responsabilização.

A experiência colombiana recorda uma lição elementar da vida pública, sintetizada na famosa máxima de inspiração romana: “À mulher de César não basta ser honesta; deve também parecer honesta”. A força das instituições depende não apenas da honestidade de seus membros, mas também da capacidade de demonstrá-la perante a sociedade.

Igor Guedes de Carvalho é mestre em história pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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