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A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva transcende a simples escolha de um magistrado. Ela coloca em xeque, mais uma vez, o delicado equilíbrio entre a prerrogativa presidencial de nomear aliados e o imperativo republicano de uma corte que seja, de fato, independente. Em um país que ainda tenta cicatrizar as feridas de uma polarização extrema, a composição da nossa instância máxima de justiça deveria ser o remédio, não mais um componente do conflito.
É impossível desassociar o nome de Messias do episódio que o catapultou ao imaginário popular em 2016. O “Bessias” daquela fatídica interceptação telefônica da ligação feita a Lula pela então presidente Dilma, revelando a estratégia de indicar o antecessor como ministro diante dos iminentes desdobramentos da Operação Lava Jato, pode não carregar consigo condenações jurídicas, mas carrega um estigma simbólico.
A independência institucional exige que o ministro, ao vestir a toga, corte o cordão umbilical com quem o indicou. No entanto, o histórico recente nos mostra que a gratidão política, por vezes, pesa mais que a Constituição
Na vida pública, e especialmente no Judiciário, a forma é tão importante quanto o conteúdo. A pergunta que a sociedade se faz é: um indicado que ficou marcado por um ato de “pronto atendimento” aos interesses políticos de seus padrinhos terá a isenção necessária para julgar esses mesmos padrinhos amanhã?
A independência da magistratura não se presume; ela precisa ser demonstrada por uma trajetória de distanciamento das paixões partidárias. Quando a proximidade com o Executivo é o principal ativo de um candidato, a percepção de politização do STF – que já é alta – atinge níveis alarmantes de desconfiança social. Especialmente porque o STF não é, nunca foi e nem pode ser um apêndice do governo. Historicamente, o Brasil adotou um modelo de indicação que permite ao presidente escolher nomes de sua confiança. Contudo, o que assistimos hoje é uma exacerbação dessa prática.
O Supremo tem assumido um protagonismo inédito em questões políticas e sociais, muitas vezes atuando como o árbitro final de todas as crises nacionais. Por isso mesmo, não são raras as vezes em que a instância máxima da justiça, independentemente do mérito, é criticada por muitos com o argumento de exacerbar suas funções, imiscuindo-se em outros Poderes da República, sobretudo o Legislativo.
Ao povoar a corte com figuras que atuaram na “antessala” do governo – como no caso da Advocacia-Geral da União (AGU) –, corre-se o risco de transformar a percepção do tribunal em um “órgão de ratificação”, e não de moderação. A independência institucional exige que o ministro, ao vestir a toga, corte o cordão umbilical com quem o indicou. No entanto, o histórico recente nos mostra que a gratidão política, por vezes, pesa mais que a Constituição.
O debate sobre Jorge Messias também joga luz sobre a inércia do Poder Legislativo. O Senado Federal tem o dever constitucional de funcionar como um filtro rigoroso. Infelizmente, as sabatinas tornaram-se ritos de passagem protocolares, em que o “notável saber jurídico” é avaliado de forma superficial e a “reputação ilibada” é ignorada – ou, pelo menos, relativizada – em nome de acordos de bastidor.
Precisamos discutir também, e com urgência, se o modelo atual ainda serve ao Brasil. Critérios como “mandatos com tempo determinado” para ministros, “quarentenas mais longas e mais rígidas” para quem ocupa cargos de confiança no Executivo e “processos de escolha mais técnicos” e menos personalistas. O presidente da corte, ministro Edson Fachin, vem insistindo na necessidade de um código de ética e conduta para ministros, disciplinando os atos destes dentro e fora do tribunal (entrevistas, palestras etc.) e de seus familiares, dada a zona cinzenta atual que dá margem a interpretações de toda ordem.
A nomeação de Jorge Messias, independentemente de sua capacidade técnica, é um sinal de alerta para quem defende a higidez das nossas instituições. E não é o primeiro. O Brasil sempre teve e deve sempre ter uma Corte Suprema cuja atuação seja reconhecida pelo seu notório saber, coerência e condição moral insuspeita, com a transparência norteando todos os seus atos. O país precisa de segurança jurídica para crescer, atrair investimentos e prosperar. E a segurança jurídica começa com a certeza de que o juiz decide com base na lei, e não por lealdade a quem lhe deu a caneta.
O STF pertence ao sistema republicano, e não a governos de turno. Se não preservarmos essa distinção, o preço será cobrado das gerações futuras por meio de uma democracia fragilizada. O Brasil demanda democracia plena, e esta demanda liberdade econômica, política e de expressão. Remeto ao notável min. Sepúlveda Pertence: “É certo que onde faltar a democracia não há justiça que mereça o nome”.
Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças. É empresário e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







