| Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Públicas
| Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Fotos Públicas

Era uma rua tranquila, de pouco trânsito. Uma rua qualquer, como tantas outras. Não tinha curvas, um ou outro buraquinho, até bem conservada, nem muito antiga, nem muito nova. Mas, em uma tarde de março, sobre aquela rua tranquila, a que ninguém dava muita atenção, despencou uma impetuosa tempestade. Rajadas de vento, seguidas de uma chuva torrencial que durou pelo menos umas duas horas, abalaram sobremaneira aquela rua que até então ninguém notava. E causaram um terrível estrago...

Quando sobreveio a calmaria, a constatação: a tempestade havia aberto um grande buraco na rua: quatro metros de diâmetro, um metro de profundidade. E as pessoas, então, finalmente, começaram a prestar atenção na rua. “Olha o tamanho desse buraco? Só pode ter sido por causa da tempestade. Pobre rua, não resistiu.” Mas, ainda que entendessem que o buraco se relacionava à tempestade e que ele poderia crescer ainda mais caso fosse ignorado, as pessoas preferiam desviar dele, fingiam não vê-lo. E a vida seguia, com aquele buraco incômodo, no meio do caminho da vida.

Não podemos mais continuar acreditando que somente os tapumes resolvem o problema dos buracos

O tempo foi passando. Novas tempestades vieram. O buraco foi se tornando mais largo e mais profundo: agora já eram sete metros de diâmetro e três de profundidade. Foi então que alguns profissionais, especialistas em buracos, começaram a se interessar por ele. Os fabricantes e comerciantes de tapumes disseram: “É preciso tapar esse buraco, só assim ele para de incomodar. Iniciamos com um material mais leve, um tapume de 50 cm de espessura, feito de madeira de pínus. Assim ele não trará problemas, não será notado. E as pessoas poderão passar normalmente sobre ele.” Já os engenheiros olhavam para aquele mesmo buraco e diziam: “Tapumes são bons, evitam que os buracos sejam percebidos. Mas eles não resolvem o problema de todo. É preciso ir às causas, entender qual a relação entre a tempestade e o buraco; para isso, precisaremos tirar os tapumes”.

Os engenheiros não foram ouvidos. Os tapumes permaneceram sobre o buraco, que ficava cada vez maior: agora, já eram dez metros de diâmetro e cinco de profundidade. Não tinha como não notá-lo. Então, os comerciantes de tapumes vieram e colocaram uns tapumes recém-lançados no mercado, mais resistentes, maiores, com efeito prolongado. Os engenheiros só observavam, e continuavam a dizer: “O buraco ainda está ali, e cada vez maior... tapumes apenas o deixam escondido, mas ele continua crescendo internamente”. A questão é que era muito mais barato para a prefeitura comprar tapumes e colocá-los sobre o buraco que financiar um estudo urbanístico sobre as relações entre tempestades e buracos. Além disso, havia uma parceria entre fabricantes de tapumes e o setor de obras da prefeitura, que beneficiava ambos. O buraco? Dane-se, era só mais uma rua mesmo...

Com a estrutura cada vez mais frágil, o buraco foi crescendo, ao ponto de tomar conta de toda a rua, que ficou repleta dos mais fortes e densos tapumes. Mas eles já não eram suficientes... Eles já não resolviam mais. E, numa madrugada de verão, enquanto uma chuvinha fina caía, todos os tapumes vieram abaixo. O buraco, que crescia silenciosamente por debaixo dos tapumes, tinha virado uma enorme cratera e aquela rua tranquila, que ninguém notava, desapareceu por completo. Um terrível estrondo foi ouvido a quilômetros de distância. Houve grande comoção. As pessoas olhavam a rua destruída e se diziam: “Como nunca percebemos que ela estava tão mal?”

A rua são as pessoas. A tempestade são as perdas e traumas pelas quais elas passam. O buraco é o luto, sentimento de tristeza profunda que nelas se instala após uma perda. Os tapumes são os medicamentos psicoativos: ajudam as pessoas a conviver com o buraco, mas não agem sobre as causas dele. Os fabricantes de tapumes são as indústrias farmacêuticas: quanto mais pessoas com “buracos”, melhor. Os engenheiros são os psicólogos, os terapeutas, os psicanalistas, aqueles que tentam entender o que está por baixo dos tapumes e o que os causou. E a cratera, que engole o buraco e a rua toda, é o suicídio. No Brasil, são pelo menos 12 mil casos por ano. Eu, você, todos nós conhecemos ou perdemos alguém por suicídio. Não podemos evitar que os buracos apareçam, não podemos evitar as tempestades. Mas não podemos mais continuar acreditando que somente os tapumes resolvem o problema dos buracos. Quantas ruas mais teremos de perder até que passemos a tratar a relação entre tempestades e buracos de outra forma?

Andréa Maria Carneiro Lobo, doutora em História, é professora do Unibrasil Centro Universitário e estuda a história dos antidepressivos no Brasil.
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