Chico Buarque não é economista, mas resume bem as coisas: "Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas. E qualquer desatenção, pode ser a gota d’água".

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Lembram-se da parábola do cavalo do inglês? Um inglês tinha um cavalo que comia muito e resolveu educá-lo para viver sem comer. Assim, a cada dia diminuía um pouquinho a ração dada ao animal. O cavalo não reclamou, mesmo porque cavalos não falam (diferentemente dos burros, segundo diz um cáustico amigo meu) e foi suportando a provação em silêncio. Emagrecendo a olhos vistos, mas aguentando firme. Quando finalmente a ração foi eliminada, o cavalo estava alquebrado, mas de pé. O inglês então preparou um relatório para a Royal Society descrevendo o experimento notável, mas antes de enviá-lo, o cavalo morreu. O que o sistema financeiro mundial, apoiado pelos governos mais ortodoxos da Alemanha e da França, está fazendo com a Grécia é aplicando o modelo do cavalo do inglês. Depois não devem ficar surpreendidos quando o cavalo helênico desabar.

A comparação parece esdrúxula, mas garanto que é apropriada: o tal acordo da Grécia com os credores privados nada mais é do que a tentativa de pegar a comida do cavalo e dar para os bancos regularizarem seus empréstimos imprudentes feitos no passado ao país e ao resto da Europa hoje endividada. Empréstimos imprudentes porque qualquer estudante de primeiro ano de finanças públicas sabe projetar receitas e despesas e calcular previamente a capacidade de pagamento de um país, de um estado ou município. A quase totalidade das receitas se comporta de maneira aproximada ao crescimento econômico, a grande maioria das despesas é fixa. Mas, na ânsia gerada pela cupidez de "aproveitar" o apetite de governos populistas prontos para esquecer os limites da razoabilidade e se endividar sem controle, os grandes bancos internacionais se atolaram em empréstimos na zona do Euro que eles sabiam (ou deviam saber) que estavam muito além da capacidade de pagamento dos devedores. Deu no que deu.

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Como, paciente leitor? Não interessa se a dívida está acima da capacidade de pagamento do devedor, pois o que foi escrito tem de ser honrado? Deveu, tem de pagar e pronto? Essa moral calvinista não se aplica ao mundo das finanças reais e da mesma forma como um banco pode recusar o pedido de empréstimo para comprar um carro ou negar o aumento do limite no cheque especial da pessoa mais honrada e honesta do mundo porque seus técnicos não confiam em sua capacidade de pagamento – e não a sua honradez e seu desejo de pagar.

Que significa concluir um acordo entre a Grécia e seus credores privados? Que ela receberá 130 bilhões de euros para regularizar sua situação com os credores, tirando uma espada da cabeça deles. Explico: as regras de prudência bancária exigem que, quando um devedor está em atraso superior a um determinado prazo, sua dívida seja provisionada, isto é, o banco credor deve colocá-la em uma conta especial para enfrentar um eventual não pagamento; pior ainda: se o devedor se declarar incapaz de pagar, o temido default, o banco é obrigado a levar o empréstimo e todas as rendas que acumulou com ele para a conta de prejuízos, o que pode facilmente quebrá-lo. Já imaginaram os bancos europeus, já debilitados pela crise imobiliária de 2009, terem de escriturar 130 bilhões de euros de prejuízos?

Portanto, em português claríssimo, quando a dra. Angela Merkhel, Sarkozy e outros linha-dura querem, a ferro e fogo, que o governo grego aceite diminuir o salário mínimo, demitir milhares de pessoas, reduzir os salários, aumentar os impostos e aceitar um rosário de sacrifícios a mais, eles estão simplesmente tentando salvar a grande banca internacional, como aliás já foi feito dois anos atrás. Talvez até se justifique, porque ninguém está pronto para a absoluta desorganização das finanças mundiais que se seguiria a uma crise de liquidez bancaria internacional, mas é preciso deixar essas coisas bem claras.

Chico Buarque não é economista, mas resume bem as coisas: "Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas. E qualquer desatenção, pode ser a gota d’água".

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.

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