Não esqueçamos de que na noite de 15 de julho houve uma tentativa de golpe muito suspeita e frustrada! Porém, na madrugada de 16 de julho começou um golpe civil muito bem-sucedido. Agora, são esses golpistas civis bem-sucedidos que governam a Turquia. A diferença deste golpe, comparando com os outros quatro golpes que a Turquia sofreu na sua história, são os discursos religiosos e a presença de grandes massas que se declaram religiosas nas ruas sem nenhum controle, e inclusive com incentivo e manipulação dos golpistas civis.

Em um ambiente onde a lei e justiça são suspensas, as pessoas se sentem pressionadas e ameaçadas para se manifestar, escrever, falar e pensar conforme opiniões de quem detém o poder. Por isso, como resultado das imposições da autoridade onipotente, é muito possível que todo mundo que quer proteger a si e sua família de uma caça às bruxas faça com que essa farsa aumente ainda mais. Pessoas que nunca tiveram alegações sobre esses assuntos podem até fazer alegações sem base só para satisfazer a demanda dos poderosos.

Todas as pessoas que possuem alguma ligação ou até simpatia pelo movimento Hizmet estão sofrendo com o expurgo

Após uma tentativa de golpe, em um processo normalmente exercido onde as leis funcionam, os militares são destituídos e julgados. Separam-se culpados de inocentes e os culpados são condenados conforme as leis. Na Turquia, ao contrário disso, na manhã seguinte ao golpe frustrado, sem nenhuma base jurídica, serviços ilegais de inteligência e espionagem foram acionados para uma operação que resultou em práticas estranhas voltadas a civis, como destituição e detenção de mais de 50 mil pessoas do Judiciário, da mídia, policia, professores, outros tantos funcionários públicos e civis, além do cancelamento de 21 mil licenças de habilitação de professores e 10 mil passaportes de civis. O número de expurgos passa de 120 mil, até o início de setembro de 2016. Todas as pessoas que possuem alguma ligação ou até simpatia pelo movimento Hizmet estão sofrendo com esse expurgo.

Neste momento funcionam linhas telefônicas de denúncias diretamente ligadas à presidência do país. Uma multidão enfurecida é mantida nas ruas por apelo insistente do governo. Nas redes sociais chovem ameaças de morte e denúncias. Com a lógica de “ou você é um de nós ou você é traidor”, as pessoas são forçadas a fazer vassalagens modernas. Nesse ambiente de insulto e calúnia contra o movimento Hizmet, essa é a única maneira que as pessoas encontram para salvar seus familiares, seus bens e suas próprias vidas.

Na época do rei Ferdinando, da Andaluzia, no fim do século 15, o governo tinha métodos específicos para identificar judeus e muçulmanos. Alguns desses métodos eram controle de circuncisão de homens e a obrigação de as mulheres consumirem carne suína e bebida alcoólica. Quem não tinha sido circuncidado e bebia álcool ou comia carne suína não era visto como ameaça. O destino do restante era ou exílio ou morte. Com certeza esse tipo de episódio vergonhoso ocorreu em diferentes tempos, em diferentes países. Infelizmente a Turquia está passando por um período de vergonha no momento.

Certamente não é possível aplicar os métodos de Ferdinando numa sociedade muçulmana, por isso os métodos de Erdogan estão em vigor na Turquia. Qualquer um que quer proteger sua família, bem como sua própria vida, vai fazer calúnia, maldizer o Hizmet, recusar qualquer ligação com o movimento ou dizer que foi enganado por membros do Hizmet. Estamos testemunhando milhares de inimagináveis calúnias.

No sistema judiciário no mundo todo, somente as declarações feitas sem nenhuma tortura, ameaça ou pressão são consideradas válidas. No Islã, o testemunho de um escravo, cativeiro ou qualquer pessoa sob ameaça ou pressão é considerado inválido. A vida no Islã é um bem sagrado, uma dádiva de Deus; por isso deve ser protegida, por isso as pessoas que sofrem pressões e têm sua vida ameaçada têm permissão de negar sua própria religião, se isso for necessário para proteger sua vida. Lembramo-nos das pessoas inocentes executadas durante os golpes militares no passado. Agora ouvimos discussões sobre a volta de pena de morte na Turquia. Assim passamos a compreender a preocupação das pessoas e, diante da situação, não temos nada a fazer além de rezar.

Mustafa Goktepe é presidente do Centro Cultural Brasil Turquia.
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