Joseph Ratzinger nos surpreendeu com a sua abdicação em pleno carnaval e, ao contrário do que se supunha, já na Quarta-Feira de Cinzas denunciava com firmeza o clima de hipocrisia e clamava por renovação na Igreja. Vinte e nove dias depois, bem antes da Sexta-Feira Santa, o colégio de cardeais reunidos em Roma elege com relativa facilidade seu sucessor, surpreendendo todos os vaticanistas, teólogos, torcedores e apostadores nos quatro cantos do globo.

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Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, é o primeiro papa não europeu, o primeiro latino-americano e o primeiro jesuíta nos 18 séculos do atual modelo pontifício. Tal como aconteceu logo após a escolha de Ratzinger em 2005, o passado político de Francisco foi minuciosamente vasculhado. O papa alemão fora obrigado a alistar-se na Juventude Hitlerista; com 16 anos, incorporado à Wehrmacht (o exército alemão); e, aos 18, em seguida ao fim da Segunda Guerra Mundial, libertado de um campo de prisioneiros. Ratzinger jamais ocultou esse episódio; ao contrário, sempre se serviu dele para a pregação antinazista que incluía veementes denúncias contra a complacência dos católicos alemães com as barbaridades cometidas contra os judeus.

Na quarta-feira, horas depois de a fumaça branca anunciar Habemus Papam, a biografia do novo pontífice já estava escancarada, e devassada a acusação de ter abandonado dois jovens jesuítas aos ferozes esbirros da ditadura argentina que os sequestraram e torturaram durante cinco meses.

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O episódio está aparentemente esclarecido, mas não a íntima relação da Igreja do país vizinho com os militares implicados na "guerra suja" que até hoje sangra a Argentina. O nazifascismo foi batido há 68 anos, mas não desapareceu, teima em reaparecer sem disfarces. A ditadura argentina só agora começa a ser devidamente visualizada, e o papa Francisco será uma peça fundamental para completar o resgate. Mais ainda para pacificar a fragmentada sociedade argentina.

Não há mais segredos, as ditaduras mais secretas já não conseguem encobrir seus crimes e malfeitorias. O acontecer e o conhecer, verbos antes dissociados no tempo e no espaço, de repente se agregaram e conjugaram em ação única. Nossos ancestrais deslumbravam-se com as mutações a que assistiam e legaram preciosos tesouros de arte rupestre. As mudanças que testemunhamos e o clima de liberdade de que gozamos oferecem admiráveis oportunidades diárias para surpreender e assombrar.

O Homo sapiens é um ser em construção – crente ou agnóstico –, sempre sequioso de conhecimentos. Cada elemento que se acrescenta ao seu acervo pessoal o torna mais curioso, portanto melhor, mais sensível ao saber e sentir.

Um fascinante drama transcorre no menor Estado do mundo, o Vaticano, em ambiente solene, religioso. Ratzinger o viveu no plano moral e Bergoglio o quer no plano espiritual, para que a Igreja não seja confundida com "uma ONG piedosa". Impossível ignorar, porém, que a ordem dos jesuítas, a militante Companhia de Jesus criada em Paris, em 1534, foi a primeira reação da Igreja romana ao cisma luterano iniciado 17 anos antes.

Vivemos o presente em alta velocidade. E, curiosamente, ele nos remete cada vez mais perto do passado.

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Alberto Dines é jornalista.