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Uma migrante centro-americana e seus filhos em frente ao ponto de entrada em El Chaparral, em Tijuana, no estado mexicano de Baja California, em 17 de julho de 2019
Uma migrante centro-americana e seus filhos em frente ao ponto de entrada em El Chaparral, em Tijuana, no estado mexicano de Baja California, em 17 de julho de 2019| Foto: OMAR MARTÍNEZ / AFP

Entre 2012 e 2017, como parte de um estudo para saber como as mães de baixa renda alimentavam seus filhos, conversamos com mulheres que se mudaram de países da América Central e do México para os Estados Unidos. E elas disseram que estavam aqui porque queriam ter a oportunidade de lhes oferecer mais do que aquilo que tiveram, incluindo a barriga cheia no fim do dia.

Ao longo da pesquisa – em meio a batidas cada vez mais frequentes do ICE, restrições mais pesadas de trabalho e um sentimento anti-imigração mais forte, alimentado pela retórica de Trump –, percebemos que muitas famílias começaram a ficar com medo de se registrar nos programas de assistência alimentar. A nova lei de "encargo público" do governo federal só fará intensificar esse pavor entre os estrangeiros, incluindo os que estão aqui legalmente – e uma das consequências será o aumento da fome.

Ao permitir que as autoridades neguem a permanência legal (também conhecida como "green card") às pessoas que recebem benefícios públicos como assistência à moradia, o Programa de Assistência Nutricional Suplementar (Snap, na sigla em inglês) ou Medicaid, a nova regra – que entrará em vigor em 15 de outubro se sobreviver às contestações legais, incluindo processos dos estados de Nova York e Washington – forçará as famílias a optar entre pôr comida na mesa e a promessa da cidadania futura.

Um dos benefícios mais usados e essenciais é o dos vales de assistência alimentícia. Com os programas de "bem-estar social" tradicionais praticamente zerados em muitos estados, o Snap é um dos últimos recursos para garantir a alimentação da família. Embora não seja disponível para não cidadãos sem documentação, algumas categorias de estrangeiros têm direito de desfrutá-lo, bem como os filhos de imigrantes que nasceram em solo norte-americano, ainda que os outros membros da família estejam em situação irregular.

Entretanto, devido ao alto índice de rejeição que sofrem, é cada vez mais comum evitarem a assistência, coisa que vinha acontecendo antes mesmo do anúncio das novas regras. Um estudo recente realizado com quase 40 mil funcionários de creches revelou que a participação no Snap diminuiu drasticamente entre os imigrantes em 2018, especialmente entre as famílias que se encontram nos EUA há menos de cinco anos. No estudo que realizamos entre as mães latinas de baixa renda na Carolina do Norte, testemunhamos como o medo que sentiam cresceu com o tempo, impedindo-as de buscar a assistência pública a que têm direito.

É o caso da Claudia, que saiu do México 14 anos antes de nossa primeira entrevista. Durante o tempo em que mantivemos contato, ela era legalizada, mas com residência temporária; seus cinco filhos, todos nascidos nos EUA, são cidadãos norte-americanos e têm direito ao Snap; seu companheiro, peão de obra, é ilegal. Durante o inverno, quando há pouco trabalho braçal, volta e meia a família enfrentava a escassez. "Teve situações bem difíceis, e ficamos sem ter o que comer, mas o que eu podia fazer? Não tinha outra opção." Sua situação se agravou ainda mais com as complicações burocráticas do benefício Snap, que agora ela está com medo de renovar, pois não quer admitir "ao governo" que precisa de ajuda, temendo que, ao fazê-lo, coloque sua situação em risco ou leve à deportação do companheiro.

Na época do estudo, a incerteza e a confusão de Claudia e outras mulheres como ela eram compreensíveis, principalmente dadas as variações das condições na qualificação de não cidadãos em programas como Medicaid, Snap e WIC. Todas morriam de medo de que qualquer mal-entendido ou passo em falso pudesse ameaçar sua situação legal.

Sob a nova lei, seus temores se basearão em fatores ainda mais concretos: ao rejeitar a legalização daqueles que não tiverem condições de comprar comida ou pagar assistência médica e pedirem ajuda, ela empurrará essas famílias de imigrantes ainda mais para as sombras, forçando-as a sacrificar a saúde e a segurança para manter pelo menos a chance, ainda que mínima, de ter a situação legalizada no país um dia.

E, ao desencorajar os imigrantes de procurar benefícios, inclusive a quem tem direito legal, a nova legislação, tão dura, vai contra uma das verdades fundamentais dos EUA: a de que o país foi criado graças à mão de obra estrangeira e não existiria se não fosse pelo sacrifício e sofrimento daqueles que chegaram a essas terras exaustos, pobres e famintos.

Sarah Bowen é professora associada de sociologia da Universidade Estadual da Carolina do Norte. Sinikka Elliott é professora associada de sociologia da Universidade da Colúmbia Britânica. Annie Hardison-Moody é professora assistente de ciências agrícolas e humanas da Universidade Estadual da Carolina do Norte.

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