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| Foto: Karin Lindstrom/Free Images

Cissi Wallin estava sentada em uma lanchonete, em TriBeCa, em outubro, quando ficou sabendo das histórias de assédio e abuso sexual que Harvey Weinstein cometera contra várias mulheres. A atriz e escritora de Estocolmo, de 32 anos, que estava em Manhattan de férias com o marido e o filho, leu o artigo até o fim e, silenciosamente, se perguntou: “Será que o pessoal vai acreditar em mim agora?”

Wallin fez um boletim de ocorrência em 2011, alguns anos depois de ter sofrido uma agressão sexual – mas que foi simplesmente descartado em questão de semanas. Desta vez, ela decidiu fazer diferente: pôs o nome de um jornalista famoso, colunista do maior tabloide de esquerda da Suécia, no seu Instagram, e uma declaração na qual revelava que ele a drogara e a violentara brutalmente, em Estocolmo, há mais de uma década. Não demorou a surgirem outras denúncias sobre o homem. Eu fui uma das autoras de uma investigação sobre seu comportamento.

De repente, como nos EUA, as histórias de outras figuras importantes na arte e na imprensa começaram a pipocar – sobre homens que usaram o poder profissional para assediar ou agredir mulheres mais jovens, geralmente subordinadas a eles, quase sempre no trabalho. Sobre situações das quais “todo mundo sabia”, mas homens considerados indispensáveis vinham sendo protegidos pela chefia há anos (às vezes, os próprios agressores eram a chefia). Ao contrário do que houve nos EUA, porém, a onda cresceu rapidamente, indo muito além das acusações contra os famosos e poderosos, com dezenas de milhares de suecas assinando petições e abaixo-assinados que foram levados à imprensa nacional, detalhando incidentes de ataques sexuais violentos e assédio em quase todos os campos profissionais, de advogados, médicos, acadêmicos a políticos e policiais. Cometidos por suecos.

Esse fenômeno em um país que se considera o melhor do mundo em termos de igualdade de gêneros é particularmente doloroso

Pois é, acontece na Suécia também.

Esse fenômeno em um país que se considera o melhor do mundo em termos de igualdade de gêneros é particularmente doloroso. Com um governo feminista, uma política externa feminista, uma agência nacional responsável por manter essa equidade e um primeiro-ministro que se diz feminista, não deveríamos ser melhores? Será que esses homens altos, de aparência ridiculamente perfeita, que saem de licença-paternidade paga pelo governo, já não deveriam ter evoluído um pouquinho mais? Talvez não.

Tendo vivido e trabalhado nos dois lugares, tive a oportunidade de fazer um estudo pessoal ao longo de vários anos, tanto na Suécia como nos EUA. Pela minha experiência, o ambiente de trabalho norte-americano é explicitamente sexualizado, um lugar onde se espera que as mulheres sejam mais abertas e receptivas aos avanços masculinos, sejam esses na forma de ajuda ou supervisão – e que devem resultar, no mínimo, em um jantar – até formas mais diretas de abuso de poder.

A Suécia, por outro lado, é mais fria, correta e assexuada na superfície – mas basta dar uma bebida ou duas a um sueco e você ficará surpreso com a rapidez com que muitos descontam suas frustrações na forma de comportamento promíscuo contra as mulheres, voltando a defender a igualdade entre os sexos no dia seguinte. Como uma conhecida minha que emigrou do Reino Unido para Estocolmo uma vez comentou: “A Suécia é uma sociedade progressista, mas de sofisticada não tem nada”.

Até que ponto dezenas, centenas de regras e leis igualitárias realmente protegem as mulheres em um contexto cultural como esse? De acordo com aqueles que estudam essas coisas, não muito. Segundo Madeleine Leijonhufvud, professora aposentada de Direito Criminal da Universidade de Estocolmo, “a Suécia é uma sociedade aberta, mas mantém as normas sexuais tradicionais”. Elas trabalham lado a lado com eles e se movimentam livremente na sociedade, mas, no fim das contas, ainda se vê como responsabilidade feminina a própria proteção contra os homens. Nesse aspecto, ainda não são completamente protegidas pelo sistema judiciário: pouquíssimas denúncias de estupro chegam a resultar em julgamento e, quando isso acontece, “as circunstâncias e a aparência dela são sempre questionadas. Só nesse tipo de crime existe a presunção peculiar de que a vítima pode estar mentindo”, afirma Leijonhufvud.

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A Suécia também é um lugar onde as demissões não acontecem facilmente. Quase nunca, eu diria. O emprego em período integral é visto como um direito – e a responsabilidade do empregador de proteger e lidar com um funcionário problemático geralmente leva a melhor sobre a preocupação com um ambiente seguro para as mulheres. Isso significa que a maioria dos homens suecos acusados de assédio sexual, ou mesmo estupro, continua empregada.

A versão mais generosa sobre o porquê de o movimento #MeToo ter estimulado confissões de mulheres de toda a sociedade sueca a fazer o mesmo reza que suas integrantes são corajosas e independentes para brigar por seus direitos, ainda que anonimamente (talvez como símbolo de uma cultura que se concentra no coletivo e não no individual, praticamente todas as histórias do gênero ali resultaram em acusados e acusadoras anônimos). A mais deprimente pode ser que, em uma sociedade onde há leis, regras bem estipuladas e uma agência governamental para cada aspecto da vida, a violência generalizada pode ser negada mais eficientemente ou trivializada por mais tempo. Não conseguimos acreditar que tais coisas possam acontecer aqui, apesar de nossos (caríssimos) esforços para nos tornarmos o melhor lugar do mundo para se viver.

Claro, afinal, quem pode admitir que, mesmo em um lugar onde a garotinha que tem as melhores chances de nascer com tudo o que há de melhor – educação de qualidade gratuita, assistência médica e assistência social para lhe proteger –, ela não vai ter jeito de fugir de uma lei que reforça a supremacia masculina, principalmente quando tentar fazer algum tipo de trabalho significativo?

Se é assim na Suécia, o que será do resto do mundo?

Sob vários aspectos, talvez fosse menos doloroso se nos uníssemos e mantivéssemos silêncio a respeito de nossas vidas profissionais em vez de passarmos para o que achamos serem coisas maiores, melhores e mais importantes, que contribuíram “para o bem maior”. Quando o feminismo se transforma em consenso coletivo, e em verdade abstrata em vez de um ato individual de luta e responsabilidade pessoal, talvez a coragem desapareça.

Não queremos ser vítimas de nada – e certamente não podemos nem pensar nessa hipótese, nós, pioneiros livres e irrepreensíveis da igualdade de gêneros. O que torna a nossa vergonha ainda maior; afinal, para quantas colegas mais novas já garantimos que “isso vai passar”, da maneira mais pragmática e fria possível?

O mais desesperador é pensar que, se é assim na Suécia, o que será do resto do mundo?

Enquanto nos debatemos com essa questão, diplomatas e funcionários de agências humanitárias suecos vão continuar a dar lição de igualdade de gênero em outros países. Somos especialistas no assunto. E o New York Times, assim como outras publicações, continuará a mostrar nossos costumes e tradições, belos e curiosos, para atrair o leitor com a fantasia de um país que parece ter quase tudo perfeito, tanto na estética como no estilo de vida. Pode chamar de “jeitinho sueco”.

Jenny Nordberg é jornalista e escritora sueca.
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