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O estranho no bar

  • PorAlison Osius
  • The New York Times
  • 20/09/2019 18:00
O estranho no bar
| Foto: Pixabay

Um olhar de tédio. Essas foram as palavras que se formaram claramente na minha cabeça, embora talvez só me lembre delas tão bem hoje por causa do que aconteceu depois.

A viagem está completando duas décadas este ano. Na época, como presidente do American Alpine Club, fui convidada a ir ao Vale de Yosemite, na Califórnia, para participar de um documentário da BBC sobre montanhismo naquela região e o famoso acampamento conhecido como Camp 4. A administração do parque, tendo reconfigurado o perfil do vale depois de uma enchente ocorrida anos antes, planejava construir dormitórios para os funcionários ao lado dele e o AAC estava brigando para preservar o que considerava um espaço sagrado.

Eu já tinha passado ali alguns dos melhores momentos da minha vida, inclusive indo direto para lá uma vez, depois de me formar, para escalar El Capitan, mas a nova oportunidade me deixou ainda mais empolgada – num momento em que trabalhava e tinha dois filhos, um de 5 anos e outro de 2 – por ter cinco dias de respiro e um quarto só para mim.

Mil novecentos e noventa e nove. Alguns vão se lembrar de um crime horroroso cometido em Yosemite naquele ano, quando três turistas – uma mulher, a filha dela de 15 anos e um estudante de intercâmbio argentino de 16 – desapareceram na área, em 15 de fevereiro. Eles estavam hospedados no Cedar Lodge, ao lado do parque. Dois corpos foram encontrados no carro que alugaram, carbonizado, localizado no sopé das montanhas; o terceiro, na semana seguinte. O que era uma busca se transformou em caçada, e o vale lamentou as mortes terríveis de três inocentes.

Eu teria caído na conversa que Cary Stayner usou com os turistas

Essas lembranças me voltaram recentemente, depois que um amigo me contou um episódio do The Moth Radio Hour sobre alguém, não faz muito tempo, que se sentou em um bar ao lado de um homem que era ninguém mais, ninguém menos que o assassino em série Jeffrey Dahmer. "Insano, cara. Jeffrey Dahmer", exclamou meu amigo, querendo na verdade dizer que poderia ter sido qualquer um de nós. Ou que foi por um triz. E pensei que foi exatamente o que aconteceu comigo uma vez.

Minha visita a Yosemite naquele ano fora em junho, com mais quatro pessoas. No primeiro dia, fizemos filmagens no Camp 4 e uma entrevista com a verdadeira lenda viva do montanhismo da região, Ron Kauk. Eu já o conhecia e, quando lhe disse que estávamos hospedados no Cedar Lodge, ele balançou a cabeça. "Cuidado", me alertou, referindo-se aos crimes ainda sem solução cometidos quatro meses antes. "Tem quem ache que foi gente dali de dentro."

Todo dia escalávamos e filmávamos; toda noite nos reuníamos no bar do hotel e ocupávamos uma das mesas do salão para jantar; depois, papeávamos um pouco, mas logo em seguida debandávamos, cada um para seu quarto.

Em uma ocasião, cheguei ao bar e vi Tim Emmett, um dos montanhistas que aparecem no documentário, conversando com alguém. Ele me apresentou ao sujeito e logo em seguida se afastou. Valeu, Tim.

O bar estava cheio, e o estranho e eu acabamos bem próximos. Eu me lembro de ter notado que ele era alto porque, embora estivesse na banqueta do bar, estávamos no mesmo nível. Notei os olhos e cabelos escuros e o lábio inferior bem pronunciado, esculpido até, mas reparei nesse detalhe, na verdade, porque ele me lembrava o de um amigo da minha cidade natal, Annapolis, em Maryland. O pensamento seguinte foi: um olhar de tédio.

Eu não estava a fim de conversar; procurava o pessoal da minha equipe e o estranho não parecia nem um pouco animado. Mesmo assim, fiz umas perguntas por educação, começando com minha costumeira "de onde você é?", à qual ele respondeu citando uma cidadezinha das proximidades. Usava um boné branco com o nome da empresa de suprimentos marinhos que aparecia nos capacetes de seus pintores, à época na moda entre os jovens que trabalhavam na orla.

Um dos colegas me chamou pelo nome em uma das cabines ali perto. "Onde você estava? Precisamos montar o cronograma de amanhã!" Dei uma olhada no grupo e depois no homem à minha frente, me desculpei e saí. Achei que tinha sido um tanto grosseira, já que percebera que ele queria engatar o papo.

Concluímos o filme, terminando o trabalho em clima de grande camaradagem. Fui para casa, no Colorado; o resto do pessoal voltou para a Inglaterra e não pensei mais naquele encontro. Acontece que, no mês seguinte, uma jovem naturalista foi assassinada, o corpo encontrado em uma vala. As marcas dos pneus em sua garagem eram as mesmas do veículo de um dos funcionários do Cedar Lodge. Assim que vi sua foto em um artigo, soube que era o mesmo cara. E os detalhes confirmavam: ele tinha 1,85 m; como não queria mostrar o cabelo que começava a branquear, vivia de boné; frequentava o bar quase toda noite; tinha 37 anos.

Seu nome era Cary Stayner. Era o faz-tudo do hotel e vinha de uma família extremamente problemática: o irmão, Steven, tinha sido sequestrado aos 7 anos por um pedófilo e mantido em cativeiro durante outros sete, tendo conseguido fugir com um menino de 5 que o molestador/sequestrador acabara de capturar. Percorreu a pé vários quilômetros no meio da floresta com o garotinho nas costas, e depois pediu carona até a delegacia mais próxima. Morreu aos 24 anos, em um acidente de moto.

Aqui termina a história. Tenho plena consciência de que meu contato foi breve, em nada comparável à experiência daqueles que trabalharam e conviveram com Cary Stayner, que está no corredor da morte da Califórnia desde 2002; mesmo assim, sinto que tive muita sorte. Li em algum lugar que ele costumava levar uma faca e um garrote no bolso. Na época, meus filhos eram pequenos.

Também me lembro de que saí do restaurante sozinha, como de costume. Assim que me vi do lado de fora, parei. A noite estava escura, ventava. Olhei ao redor com uma inquietação repentina, vi os galhos longos das árvores próximas balançando e me perguntei se não haveria alguém ali, espiando. Podia estar completamente errada, mas em todo caso reforcei o passo para parecer mais forte e decidida, e depois saí correndo, atravessei o estacionamento, subi para meu quarto e tranquei a porta. O fato de estar só me incomodava e cheguei até a pensar em perguntar ao Tim se podia dormir no quarto dele, mas pareceria absurdo demais.

Será que o medo surgiu simplesmente por causa do alerta que eu recebera pouco antes ou foi instinto? Nós, humanos, sabemos que devemos acreditar nele. Conseguimos registrar sinais e vibrações mesmo sem ter consciência disso. Se sentimos medo, é melhor prestar atenção.

Eu teria caído na conversa que Cary Stayner usou com os turistas. "Sou o faz-tudo aqui do hotel, tem um probleminha no encanamento do banheiro, será que posso dar uma olhada?", jogou ele. A mulher disse que sim. Teria essa mãe amorosa e protetora hesitado, insegura ou educada demais para se manifestar? Tenho certeza de que seria esse o meu caso. Só que então ele sacou a arma.

Todos nós temos aquela fração de segundo em que surge alguma sensação – e a chance de impedir algo?

Um dia, eu estava fazendo uma caminhada perto de casa, no Colorado, quando cheguei a uma bifurcação em uma ravina e vi que havia alguém à minha frente. Era um rapaz e tinha as duas mãos enterradas nos bolsos, o que era no mínimo esquisito. Parecia estar em um êxtase exagerado, e me perguntou algo sem sentido sobre o que havia à frente. Tratei de me apressar, sem saber se tinha motivos para isso ou se estava ficando meio paranoica. Sem saber por quê, gritei e acenei para um amigo lá na frente – que não existia.

Cinco minutos depois, cruzei com duas jovens que seguiam na direção oposta, rumo à ravina. Cumprimentei-as e continuei andando, mas acabei voltando para alcançá-las. "Olha só, pode parecer estranho, mas... tem um cara lá atrás que parece meio doido. Achei melhor avisá-las", disse. Elas me agradeceram e prometeram ficar atentas. No caminho de volta, peguei uma pedra, mas não voltei a ver o homem. Acho que errei feio. O instinto também falha, sei disso. Mas também tem razão de ser. Não o ignorem.

Alison Osius é editora da revista Rock and Ice e foi a primeira mulher a se tornar presidente da instituição sem fins lucrativos American Alpine Club.

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