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 | Brunno Covello/Arquivo Gazeta do Povo
| Foto: Brunno Covello/Arquivo Gazeta do Povo

A ficção literária é uma forma muito particular de mentira: é a mentira que poderia ter acontecido, ou mesmo que deveria ter acontecido, para que a verdade fosse mostrada de maneira mais completa e pura. No mundo real em que vivemos, as histórias não têm o começo, meio e fim que a ficção espera que tenham, o que torna muito mais difícil identificarmos seus atos e elementos. A ficção serve para destilar todas essas histórias, transformando-as em algo que está para a realidade como um esqueleto anatômico arrumado e montado está para uma bailarina a saltitar.

É assim, pela ficção, que podemos aprender a identificar uma dada realidade antes que ela venha, nos morda e nem sequer saibamos o que aconteceu. Na vida real, afinal, a relação sinal/ruído é alta demais, e é comum que não percebamos os fios das várias meadas que esticamos ao longo da vida à medida que eles se emaranham uns aos outros. É na ficção que eles se apresentam estendidos, flexíveis, com cores diferentes.

É na ficção que podemos conhecer em toda a sua profundidade a natureza humana

Quem julga não precisar ler ficção, normalmente, é pessoa absolutamente desprovida de imaginação. Não que a imaginação seja necessária para a ficção, mas sim que ela o seja para a vida: só quem não a possui consegue achar que a vida não terá surpresas, quando elas esperam atrás de cada poste e debaixo de cada folha de grama. Quem não ama a ficção, todavia, prova-se incapaz de amar a própria vida, e não é à toa que seja tão comum que tais tipos se dediquem a ofícios em que a mediocridade absoluta é condição sine qua non para o sucesso – normalmente, aqueles em que se confunde o que deveria ser um fim e o que deveriam ser meros meios.

É na ficção, que é sempre o fruto da pena de um ser humano, que podemos conhecer em toda a sua profundidade a natureza humana, vivendo vicariamente centenas de vidas, sofrendo tentações que nunca nos atingiram no mundo real e alcançando vitórias que só a um dentre mil homens seria dado viver. É nela que aprendemos que o mundo é complexo, infinitamente mais complexo, por mais paradoxal que isso possa ser, que qualquer obra de ficção. É por ela que somos apresentados, antes que nos chegue a vez, aos mistérios que se repetem a cada geração: o amor, a traição, a paternidade e seu instinto de proteção, o voto que obriga para sempre, a dor e, mais ainda, a boa morte. Afinal, em uma sociedade em que os moribundos são escondidos na UTI é mais que salutar lermos sobre mortes heroicas ou sobre sacrifícios de si em favor de todos os demais ou de causas maiores: é extremamente necessário.

É pela ficção, em suma, que aprendemos a viver humanamente e nos preparamos para dar nosso melhor. É ela a mestra que nos leva pela mão além da mediocridade cotidiana.

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