Dezembro não é apenas o mês do Advento, da esperança: é também o mês das profecias, das promessas piedosas e dos pedidos ao bom Deus. Das profecias e previsões já falei na semana passada, lembrando sempre que, a estas, aplica-se o que Bernard Shaw escreveu a respeito de alguém que se casa mais de uma vez: é o triunfo da esperança sobre a experiência. Mas os profetas vivem exatamente da má memória de seus ouvintes ou da ambiguidade de suas previsões, o que permite várias interpretações; assim, até o indefectível Guido Mantega não fica nem vermelho ao fazer as suas para 2013. Como não me dou ao trabalho de acreditar nelas para tomar decisões, poupo-me de muitas desilusões.
No entanto, se é para ser guiado pela esperança, encontro várias razões para ela no Brasil de hoje. Acredito, por exemplo, que o julgamento do mensalão é um divisor de águas entre um país anacrônico, guiado pela luta incessante das elites para a preservação de seus privilégios (como diagnosticou Thomas Skidmore, o grande brasilianista), e um país moderno em que as instituições se sobrepõem aos interesses particularistas. Não sou ingênuo para imaginar que esses últimos desaparecerão por encanto; apenas acredito que as instituições estão ficando mais fortes para enfrentá-los.
Acredito também que, finalmente, estamos nos livrando do salvacionismo que sempre marcou a história brasileira, de nossa busca por um parente próximo do dom Sebastião aguardado pelos portugueses para salvar a terrinha e que nos salve também. O Brasil, finalmente, começa a colocar seus quadros políticos em uma perspectiva humana, em que se misturam virtudes e defeitos, acertos significativos e monumentais enganos. Estamos nos desiludindo da busca de pais da pátria e de super-heróis e tratando de nossa vida, o que é salutaríssimo.
Acredito, também, que as instituições políticas atuais estão com as vísceras à mostra e suas mazelas ficando demasiado evidentes para serem desconhecidas ou negligenciadas por muito tempo. O clientelismo, o patrimonialismo, a corrupção graúda e miúda estão escancarados e isso, mais cedo ou mais tarde, levará a uma reforma política de profundidade, à substituição dessa ficção pseudodemocrática que temos por um sistema realmente representativo, baseado no voto distrital.
Acredito, por fim, que o Brasil está acordando para a importância da educação. A decisão do governo Dilma de direcionar a totalidade dos recursos dos royalties do pré-sal (nossa maior riqueza estratégica no médio prazo) para os investimentos educacionais é um gesto histórico que, se confirmado pelas ações futuras, mudará definitivamente a cara do país.
Mas, como o início do ano é também para formular pedidos, faço o meu: que minhas esperanças não sejam frustradas com (por exemplo) a eleição de Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves para presidir o Congresso. Pessoas como eles representam, a meu ver, tudo aquilo que o Brasil profundo, o das pessoas anônimas que realmente constroem este país, quer ver se perdendo de vez no passado desta terra abençoada por Deus e bonita por natureza.
Deus me (ou nos) ouça.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.
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