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Desde o início, o governo Lula se recusou a apresentar um grande plano para o Brasil. Recentemente o presidente ironizou seus antecessores, cujos planos só trouxeram dissabores para os brasileiros. Desde Sarney, tivemos mesmo planos de nefasta memória, salvando-se o Real, que nos livrou de uma inflação estratosférica, recuperou a auto-estima da moeda nacional e a estabilidade da economia, ainda que por mecanismos artificiosos; aliás, à semelhança do que vem fazendo o ministro Palocci de modo injustificado. De propostas salvadoras estamos realmente cheios, mas não significa que se pode governar sem planejar. Gestão, controle, racionalização, são a chave até para uma simples casa de família que deseja andar em dia com a sua renda e seus gastos. Foi por falta de estratégias de gestão que o governo deixou de cumprir muitas das suas promessas de campanha: a dos dez milhões de empregos, por exemplo. Os brasileiros não esquecem. Nem podiam. Por falta de emprego, por subemprego ou questões correlatas, é que 85 brasileiros, em média, estão sendo presos por dia tentando entrar nos EUA, onde sonham ganhar a vida clandestinamente. É verdade que desemprego é uma crise mundial. Mas não justifiquemos a nossa situação pelos problemas dos outros. Temos potencialidades incríveis. Escassez de trabalho é decorrência de um círculo vicioso que só pode ser rompido com políticas incisivas. Sem ambiente para deslanchar, a maior parte das pequenas e microempresas não consegue passar do segundo ano de vida; outra parte mantém-se na informalidade; as grandes, por sua vez, tendem a reduzir o pessoal, informatizando e robotizando processos (nos anos em que o presidente Lula começou a se destacar como líder sindical, as montadoras fabricavam 1,5 milhão de veículos/ano com 140 mil operários; hoje fabricam o dobro com apenas 90 mil). A carga tributária, que atinge os contribuintes em geral, chega hoje à marca de 37,5% do Produto Interno Bruto (há setores da economia que pagam bem mais). O próprio governo – pasmem – faz questão de remunerar seus credores com uma taxa básica de juros de 19,5%, das mais altas do mundo, tornando o Brasil um paraíso para capital especulador. O combustível, do qual todo mundo depende, tem preços atrelados ao mercado internacional; até o álcool que é 100% nacional. A gasolina não era para sofrer tantas altas. Para agravar, a escolaridade média dos candidatos a emprego, no país, é de seis anos; apenas 29,5% têm o segundo grau completo. É importante frisar que criar empregos não é missão direta, mas indireta do governo. Em uma economia dinâmica, com ambiente propício, isso acontece naturalmente. O Brasil, porém, é o 65.º no ranking da competitividade de 117 países. Perde até para a China. Cabe ao governo oferecer educação, atualizar as legislações trabalhista e sindical, não castigar tanto nos tributos e exigências fisco-legais, incentivar os diferentes setores, de acordo com as suas particularidades. Tirar as parcerias público-privadas do papel. Pelo menos não atrapalhar se não pode ajudar. É um absurdo, levando em conta nossas imensas e ricas terras, mas a agricultura corre riscos de ter que importar alguns produtos, no ano que vem, diante da previsão de uma safra insuficiente.

Governos que tentam resolver diretamente a questão do emprego, ele próprio criando vagas, só conseguem promover mutirões contra a fome, inchar a máquina administrativa, sobrecarregar a folha de pessoal, dar vazão ao fisiologismo e ao clientelismo.

Em pontos do círculo vicioso dos fatores que negam o direito ao trabalho estão pessoas infelizes, irrealizadas e, fácil prever, predispostas à violência. Violência que atingiu um nível insuportável e que o governo propõe minimizar proibindo o comércio de armas. Falta de visão.

Maurício Fernando Cunha Smijtink é empresário da contabilidade e presidente do CRCPR.

mauricio@crcpr.org.br

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