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Um homem segura um sinalizador enquanto manifestantes em apoio a George Floyd entravam na Interestadual 580 para bloquear o tráfego, em Oakland, Califórnia. Protestos violentos eclodiram nos Estados Unidos em 29 de maio deste ano.
Um homem segura um sinalizador enquanto manifestantes em apoio a George Floyd entravam na Interestadual 580 para bloquear o tráfego, em Oakland, Califórnia. Protestos violentos eclodiram nos Estados Unidos em 29 de maio deste ano.| Foto: Josh Edelson / AFP

Os protestos desencadeados pela morte de George Floyd nos Estados Unidos da América (EUA) já entram no nono dia consecutivo, com desdobramentos internacionais em vários países. O segurança negro, de 46 anos, terminou falecendo após sofrer flagrante violência policial no dia 25 de maio, em Minneapolis, no estado de Minnesota.

Os eventos que se seguiram a sua morte têm impactado fortemente o cenário político norte-americano, numa sociedade já sob forte estresse pelo avanço da pandemia do Covid-19, pelo aumento súbito do desemprego, pela ação de grupos políticos radicais e por outras causas que ainda precisam ser analisadas com mais cuidado.

Os EUA são um país conhecido por um problema histórico de segregação étnica. Até os anos 1964, em muitos estados norte-americanos, negros não podiam frequentar vários estabelecimentos comerciais e instituições de ensino, nem mesmo circular na rua em determinados horários. Foi só com a Lei de Direitos Civis, assinada pelo presidente Lyndon B. Johnson, que a discriminação racial passou a ser crime em todo o país. O marco legal foi resultado de uma intensa luta por direitos civis, liderada por personalidades do movimento negro como Rosa Parks e Martim Luther King. Na série de eventos que levaram à sanção da Lei, o célebre protesto de 381 dias iniciado após o célebre “não” de Parks, ao se recusar a ceder seu lugar no ônibus a uma pessoa branca, que lhe rendeu detenção pelas autoridades de Montgomery.

Embora a comunidade negra norte-americana tenha conquistado inúmeras vitórias nos campos político, social e cultural desde então, o problema do racismo ainda é uma chaga na sociedade que não pode ser ignorada. Em 2019, dados sobre mortes causadas por policiais em todo os EUA foram compilados pelo Mapping Police Violence, registrando dados impressionantes. Em comparação aos brancos, negros tem três vezes mais chances de serem assassinados por um policial no país. Outras estatísticas demonstram que, entre o número de mortos pela polícia, 1,5 vezes mais afrodescendentes estavam desarmados, se comparados aos brancos. Em alguns estados, a discrepância é ainda maior, como é o caso de Mineapolis, onde Floyd foi assassinado. Segundo dados oficiais da cidade, o uso da força por policiais contra negros é 7 vezes maior do que contra brancos, para uma população total que possui coeficiente de 20% de negros.

A própria crise do Covid-19 expôs muito dessa desigualdade ainda presente no país. Enquanto o número de mortos pela doença no país já ultrapassa a casa dos 100.000, já se sabe que em torno de 23% dessas fatalidades correspondem a negros, os quais compõe 13% da população. O percentual de negros descobertos nos serviços de saúde do país tem baixado consideravelmente nos últimos 10 anos, a partir da publicação do Affordable Care Act (ACA), o popular Obamacare em 2010, tendo passado de 19,9% para 9,3% em 2018, um percentual bem próximo dos brancos, com 7,5% atualmente. Em abril, os dados mostraram que os nova-iorquinos latinos e negros, especialmente nos bairros periféricos como Queens e Bronx, estavam sofrendo taxas de mortalidade pelo menos duas vezes superiores às de brancos e asiáticos. As dificuldades de acesso a testes, tratamentos e médicos foram apontadas como causas prováveis para essa diferença.

Para bem além dos números sobre atendimento de saúde, determinantes estruturais tem contribuído para o maior coeficiente de mortes entre os negros. Afinal, a saúde é função também de características como tipo de moradia, renda média, disponibilidade de alimentação saudável, presença de áreas verdes e áreas de lazer, entre outros fatores distribuídos desigualmente na sociedade.

Em termos de causas imediatas, porém, chama a atenção sobre os registros cada vez mais gritantes das dificuldades inerentes que populações negras nos EUA tem em atingir os índices de isolamento social recomendados pelas autoridades sanitárias. O fato pode se dever a certa assimetria de informações e hábitos culturais, mas também há outros elementos em jogo, como a baixa renda, a natureza informal da economia em muitas comunidades, a necessidade de estar na rua a procura de trabalho, o emprego de muitos negros em serviços essenciais como manutenção e limpeza, entre outros fatores que permeiam uma sociedade ainda marcada pelo problema racial.

Ainda que os dados mais recentes sobre desemprego não tenham sido liberados com um recorte racial adequado, já se sabe que cerca de 39 milhões de norte-americanos ficaram desempregados nas últimas 9 semanas. É provável que também nesse aspecto haja disparidades, já que, tanto na Grande Depressão de 1929, quanto na crise de 2008, os afrodescendentes sofreram mais com o desemprego do que os brancos. Tragicamente, isso tem se refletido num aumento desproporcional da punição policial por violação de medidas de isolamento contra negros naqueles estados que adotaram medidas mais duras, o que só contribui para aumentar ainda mais o caldeirão de tensão social.

Outros fatores certamente contribuíram para a explosão de protestos que tomou conta dos EUA e já se espalha pelo mundo. Desde o início da pandemia, boa parte da humanidade tem se submetido a políticas de distanciamento social numa escala nunca antes vista. A medida por si mesmo responde por um aumento considerável da tensão psicológica em muitas pessoas. Seres humanos são animais sociais. Os lares não são mais pensados para abrigar pessoas durante a maior parte do dia. A presença de crianças dispensadas pela escola aumenta o estresse de um ambiente doméstico que se tornou também local de trabalho. O medo da morte, permanentemente alimentado por um fluxo intenso de informação na mídia e nas redes sociais, também contribui para consequências psíquicas inesperadas. Sob esse aspecto, não se pode dizer que é realmente uma surpresa que uma crise assim culmine com uma explosão de pessoas nas ruas.

De todo modo, a morte de Floyd pode ter sido um estopim e a forma como os protestos ganharam força mostram como os problemas raciais americanos estão longe de estarem resolvidos. Chama a atenção que o episódio desde o início recebeu um tratamento semelhante pelos dois lados da política americana. As pautas identitárias são normalmente identificadas como bandeiras do Partido Democrata, mas o próprio presidente Donald Trump, do Partido Republicano, classificou o vídeo como “chocante” assim que tomou conhecido do caso.

Os protestos, contudo, começaram quase imediatamente, porque a testemunha que gravou a abordagem transmitiu a ação ao vivo pelo Facebook. Um grupo menor aproveitou a aglomeração do protesto para se envolver em saques e tumultos. Nas duas primeiras noites, os manifestantes incendiaram prédios públicos e saquearam lojas, em ações totalmente fora de propósito com o intuito de reivindicar a responsabilidade policial sobre a morte Floyd. A discussão então começou a mudar de rumo: da morte trágica de um negro para os atos de vandalismo em si. O presidente Trump chegou a pôr mais lenha na fogueira, ao sugerir que os saqueadores deveriam ser baleados. Um arroubo que pôde ter provocado outros grupos de extrema-esquerda a se mobilizarem.

Nesse final de semana, a polícia de Denver registrou sete disparos durante uma manifestação na cidade, mas ninguém ficou ferido. Em Columbus, a multidão invadiu e depredou o Congresso do Estado de Ohio. Manifestações também foram registradas em Memphis, Los Angeles, Albuquerque, Portland e Saint Paul - vizinha a Minneapolis. Em vários lugares foram registrados saques e depredação. Até a sede da CNN em Atlanta, no estado da Geórgia, foi alvo de vandalismo.

É preciso ter o cuidado para distinguir a questão. O movimento negro americano se queixa de tratamento desigual por parte da sociedade americana, e neste caso particular, da polícia; uma causa justa e que merece discussão pela sociedade. Já os excessos praticados, seja por outros movimentos infiltrados, seja por parcela da rede que levantou a pauta, desfocam a discussão.

O governo americano acusou as células de grupos Antifa (sigla inglesa para antifascita) como responsáveis pelo vandalismo. O movimento, que tem origens históricas no anarquismo e no comunismo, vai ser classificado pelo governo Trump como grupo terrorista. O presidente americano afirmou ainda, nesta segunda-feira (1º), que as forças de segurança federais vão intervir para garantir o restabelecimento da ordem nos estados que não conseguirem fazer isso por conta própria.

O governo americano precisa conter os atos de vandalismo, mas as tensões psicológicas que favoreceram esse estado de coisas não devem ser desprezadas. Nesse sentido, um conflito aberto contra os manifestantes pode agravar ainda mais um tecido social já bastante desgastado. Um serviço de inteligência que desarticule os arruaceiros aliado a uma retórica menos beligerante e mais conciliatória por parte do governo federal podem evitar que a desordem generalizada tome conta dos EUA.

Sobretudo porque os protestos deveriam servir para uma causa mais nobre: o aumento da integração da comunidade negra norte-americana no país.

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