As mulheres cubanas costumam dizer que precisam fazer o “caracol” antes de sair de casa para trabalhar. É autoexplicativo. Elas se veem obrigadas a dar voltas e voltas, fechando acordos com avós, cunhadas e vizinhas, suas ajudantes informais no cuidado dos filhos. São verdadeiras redes, e sempre no feminino. Uma fica com as crianças algumas horas, outra leva ou busca na escola. É tarefa sem trégua, sem folga – assunto no qual as brasileiras são experts.

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Fala-se com passividade que a “nova mulher” – aquela pós-pílula, integrada à vida universitária e ao mercado – trabalha cinco horas semanais a mais que seus maridos, sendo que 88% delas fazem as tarefas de casa, como se fosse esse o preço a ser pago pela escolha que fizeram. As informações são do IBGE, com dados de 2013. Não se trata, contudo, de uma contingência. Não tem de ser assim – como se fosse uma ordem divina ou um imperativo da natureza.

A sociedade, que tanto apoia a maternidade e que precisa dela para se renovar, também deve prover – nas mais diversas instâncias – as atenções para com as mães e suas crianças. Muitos diriam que já o faz, garantindo creches e unidades de saúde, mas se está longe de uma equação ideal. Uma pesquisa com mães certamente informaria o que os olhos veem: estamos aquém do desejável no campo das ações de apoio às mães.

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A cientista social Marlene Tamanini, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisa reprodução assistida e o impacto na família das novas técnicas. Em entrevista recente à Gazeta do Povo, publicada em 8 de junho, disse entender a maternidade como um fato político. Até aí, nenhuma novidade, não fosse o fato de que as práticas são débeis, deixando recair sobre as mães todos os ônus da responsabilidade pelos filhos. Os próprios pais vivem num sistema de proteção. São obrigados à pensão, o que é pouco.

Que pelo menos se considere a maternidade como política prioritária. Mulheres de todos os costados precisam ter a certeza de que não estão tão sozinhas

“O que será da sociedade se as mulheres não se reproduzirem?”, pergunta Marlene, ao citar as mudanças profundas na pirâmide etária brasileira. Cada vez mais velho, o país se digladia com os impactos sobre a previdência social, para citar um dos problemas dos baixos índices de natalidade. “A sociedade toda envelheceu”, reforça a pesquisadora, para quem já são horas de rever a noção de “cuidado”, hoje relegado quase todo à família, para conforto das demais instâncias sociais. Ela sugere o debate sobre o “cuidado ampliado”, um conceito que o Brasil precisa discutir. Do contrário, permanece a tendência à invisibilidade dos obstáculos enfrentados por elas, as mães.

O saldo não é justo. Dados do IBGE de 2010 mostram que, num crescente, mulheres comandam 38,7% dos lares. Viram-se até o osso. Elas não são apenas mães que vivem nas cidades grandes. Não se pode esquecer que o Brasil tem muitos tipos de mães – a rural, a envelhecida, a sozinha, justo a mais sujeita aos “caracóis” e redes informais e a sua fragilidade, pois nascem da caridade e podem falhar a qualquer momento.

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Costuma-se dizer que elas escolheram ser mães cada vez mais tarde e ter cada vez menos filhos. A família com seis crianças ficou num retrato do passado, registro de um tempo que não mais vai se repetir. Mas é só uma parte do problema – cidades violentas, de mobilidade difícil, com poucas relações de vizinhança e escolas públicas deficitárias não são atraentes para a maternidade. Some-se a agressividade do mundo corporativo, a corrosão das instituições e tudo mais. Podem parecer razões pragmáticas, destituídas de valores, mas não há como reprovar a média da população feminina por pesar prós e contras na hora de se decidir – ou não – pela maternidade.

As que decidem, mas encontram dificuldades em engravidar, não encontram estruturas de apoio na saúde pública. Precisam pagar por tratamento, engrossando as garras de um mercado que só faz crescer, a custos exorbitantes. É injusto, inclusive, dizer que se trata de um problema apenas das mulheres mais velhas. Muitas das que estão no auge do período reprodutivo também enfrentam percalços – e não desfrutam de ações que venham em seu auxílio.

Se esse parecer um problema menor, em meio a um país de tantos abandonos, que pelo menos se considere a maternidade como política prioritária. O Brasil está acostumado à sua imagem de fertilidade e pode demorar a se dar conta de que é hora de reagir. Mulheres de todos os costados precisam ter a certeza de que não estão tão sozinhas. Seus filhos e os filhos que vierem precisam ser olhados. É o princípio da humanidade.