A chamada “crise das universidades estaduais” – desencadeada no início deste ano – pede uma afirmação, em alto e bom som. O Paraná seria uma miniatura de si mesmo não houvesse suas sete universidades. UEL, UEM, UEPG, Unioeste, Unicentro, Uenp e Unespar redesenharam o mapa desta terra, projetando-a para além da imagem pitoresca alimentada por tantas décadas, em panfletos patrióticos que a colocavam entre o ingênuo e o nada. Pinheirais, cataratas, cafezais, os inacreditáveis Campos Gerais, uma capital fria e europeia, por aí vai. Mas o Paraná é sobretudo um lugar onde universidades reviram o solo, incubam ideias, projetam cidades. A vida adulta passa por elas. Negá-las é pedir de joelhos para ser criança outra vez.

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Não se trata de uma bravata. Os números da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia e Ensino Superior são superlativos. Quase 100 mil alunos, divididos em 267 cursos de graduação, 137 mestrados, 54 doutorados, atendidos por 7,6 mil professores. Para além dos números, impõe-se uma verdade. As “estaduais” fundaram um novo Paraná, fazendo morder a língua daqueles que acusavam essas divisas de ser uma espécie de Texas ao Sul do Equador – rico e sem instrução, cenário de um filmeco empoeirado da Sessão da Tarde.

Um único argumento é o bastante para associá-las a um novo tempo. Onde há universidade, o ensino fundamental e médio é melhor. O contrário disso é o século 19 ou o 18. Os cursos superiores – é evidente – não formam apenas professores, mas de forma providencial, não raro, começam por essa tarefa. Vale esmiuçar a questão. Cidades muito pequenas tendem a ter ensino atrofiado, pela falta de mestres que atuem nos anos seguintes ao ciclo básico. O Paraná é um estado de cidades pequenas – 60% dos municípios estão na casa dos 10 mil habitantes. Boas estradas ajudam. Mas estaríamos à margem do conhecimento, com perdão ao clichê, não fossem as “vias” abertas pelas instituições nas regiões onde estão. Onde há universidade, as distâncias são menores. Sem elas, nos colocamos ao longe, bem perto da treva.

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Onde há universidade, o ensino fundamental e médio é melhor. O contrário disso é o século 19 ou o 18

Toda essa cantilena reafirma o que anda atravessado nas gargantas. Nossas universidades dizem precisar de pelo menos R$ 124 milhões para continuarem abertas, e não os R$ 9 milhões inicialmente oferecidos, depois elevados para R$ 27 milhões. Para saber, basta colocar na conta o bem que realizam. A cada novo ano letivo, a geografia cultural do Paraná se altera, para melhor. Reprovação compulsória para quem não vê.

Os que vivem em Curitiba – onde as universidades estão diluídas na paisagem da cidade grande – tendem a abstrair o que representa uma Universidade Estadual de Ponta Grossa ou uma Universidade Estadual de Maringá. Todas as estradas – as de asfalto e as de chão – levam a elas. É preciso ser agressivo para tratar do assunto, despertando os dorminhocos: essas e as outras instituições oferecem um sem-número de serviços à comunidade, de modo a se confundirem com a vida dos lugares em que foram instaladas. É parte do seu encanto.

As estaduais têm seus problemas, como não?, mas é comovente flagrar, sem esforço, o quanto pulsam em Londrina ou em Toledo, por exemplo. O que provocam? Desenvolvimento, mas sobretudo desejo de futuro – a maior de todas as energias. E, no fundo, quem mora no encalço dos municípios-sede faz parte deles, mesmo sem passar num concurso vestibular.

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Pesquisadores como Cássio Rolim e Maurício Serra, do Departamento de Economia da UFPR, estão entre os que se debruçaram sobre o milagre palpável das universidades estaduais do Paraná. Estão entre os que alertam para o valor inconteste dessas instituições em meio ao rolo compressor da globalização. Espaços de pesquisa nos interiores não permitem que tudo se achate na mesmice. Ao contrário, ajudam a afirmar identidades e garantir existências políticas e econômicas. Em se tratando do Paraná, estado de tantas costuras, as estaduais fundam histórias que permitem ecos entre Sul e Norte, Leste e Oeste.

Não vivem o melhor dos mundos, diga-se. A estrutura de divisão de verbas para pesquisa segue a lógica das federais, passando ao largo das necessidades regionais. A burocracia emperra projetos. É preciso fôlego. Nossas sete já têm de cortar lenha o bastante.