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Quando a CPMF teve seu fim decretado em votação no Senado, o governo declarou que perderia perto de R$40 bilhões e que, por isso, iria faltar dinheiro para a saúde. O presidente Lula ficou irritado e nunca se conformou com a derrota parlamentar. Menos de uma semana após a eleição, tanto Lula quanto Dilma Rousseff voltam a falar na recriação da CPMF, em forma de um tributo para a saúde, depois de a presidente eleita passar a campanha falando em redução de tributos e reforma tributária. Trata-se de uma atitude lamentável e politicamente equivocada, para dizer o mínimo, pois, para muitos, é simplesmente traição diante do eleitorado. É falta de sensibilidade política que a presidente eleita anuncie aumento de tributos antes mesmo de terminarem as festas pela vitória.

Inicialmente, é necessário lembrar que, dos R$ 40 bilhões da CPMF, em torno de 30% eram destinados à saúde, e o restante integrava-se ao Orçamento Geral da União para aplicação em outros fins. Além disso, ao findar a CPMF, o governo não ficou parado. Parte da perda foi compensada pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e pelo aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) incidente sobre o resultado dos bancos, sem contar aumentos na Cofins e no PIS. Só para uma ideia do tamanho desses aumentos, os bancos tiveram a CSLL elevada de 9% para 15% sobre o lucro líquido. Tanto assim que a arrecadação cresceu após o fim da CPMF muito além do que os cálculos iniciais previam.

No meio de toda a polêmica, entrou em cena a Emenda Constitucional n.º 29, que fixa limites mínimos de recursos do orçamento a serem aplicados na saúde. O governo jogou sobre o Congresso Nacional a responsabilidade pela aprovação dessa emenda e declarou que caberia ao Legislativo a missão de arrumar fontes de recursos adicionais para que os limites de aplicação na saúde fossem cumpridos. Estava dada a senha para que os parlamentares criassem novo tributo, vindo daí a articulação da base parlamentar aliada para que o governo metesse a mão no bolso do povo e tirasse, na previsão mais suave, em torno de R$10 bilhões da população. Essa artimanha viria pela criação Contribuição Social para a Saúde (CSS), com alíquota de 0,1% sobre as movimentações financeiras. A Emenda n.º 29 continua no Congresso e a CSS não foi aprovada; mas também não foi descartada.

Menos de uma semana após as eleições, vários governadores se uniram para dar apoio a Dilma Rousseff na tentativa de recriar a CPMF, talvez com outro nome, sempre sob o nobre argumento de que estão pensando na melhoria do atendimento à saúde. O argumento pode parecer aceitável, porém, a carga tributária brasileira já chega perto dos 40% efetivamente arrecadados sobre Produto Interno Bruto (PIB), mostrando ser falsa a afirmação de que falta dinheiro para financiar a saúde, pois o quanto é destinado a esse setor é uma decisão política e de gestão orçamentária.

O problema da saúde não reside apenas no total de recursos orçamentários destinados ao setor. A administração do SUS necessita de um "choque de gestão", a fim de melhorar os processos, racionalizar os gastos, aperfeiçoar a fiscalização e diminuir a corrupção. Infelizmente, no governo não se fala em métodos ou estratégias para melhoria da eficiência, inovação dos processos gerenciais e diminuição dos desvios, temas esses que há muito tempo penetraram o mundo empresarial e respondem por ganhos de produtividade, redução de custos e diminuição dos preços ao consumidor.

Ninguém pode ser contra melhorar a assistência à saúde, seja pelo aumento dos repasses financeiros, seja pela melhoria na aplicação dos recursos. Todavia, não dá para aceitar a tese simplista de que, para cada proposta nobre, a solução esteja na criação de outros tributos e aumento da carga tributária; e tudo isso por uma simples razão: há limites para o tamanho da carga de tributos que pode ser lançada sobre as costas da população e, no Brasil, esse limite já chegou faz tempo. Não há espaço para aumento do porcentual da renda nacional confiscada em forma de tributação, pois chega um momento em que mais impostos significam menos produção e menos iniciativa empreendedora. Se for acrescentado que, para se eleger, Dilma acenou com redução de tributos, a proposta do novo imposto, ainda no calor da vitória, é uma desfaçatez.

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