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Manifestante provoca incêndio para impedir que a polícia entre no câmpus da Universidade Politécnica de Hong Kong.
Manifestante provoca incêndio para impedir que a polícia entre no câmpus da Universidade Politécnica de Hong Kong.| Foto: Philip Fong/AFP

Uma população que tem tomado as ruas por meses, pedindo democracia e recebendo apenas repressão em troca, está adotando métodos mais radicais. Em Hong Kong, jovens tomaram o câmpus da Universidade Politécnica e se encastelaram ali, respondendo às balas de borracha da polícia com coquetéis molotov e arqueiros. Sua esperança, evidentemente, não está no confronto – a desproporcionalidade é tão enorme que os manifestantes estão, muito provavelmente, conscientes de que podem estar rumando para o sacrifício –, mas na repercussão internacional de seus atos e da resposta que Pequim der a eles.

Até o momento, Xi Jinping não manifestou a intenção de repetir seu antecessor Deng Xiaoping e promover uma versão do Massacre da Praça da Paz Celestial, que completou 30 anos em 2019. Não porque ele seja um líder fraco ou demonstre alguma abertura democrática – pelo contrário: desde 2012, quando ele assumiu o poder na China, Xi vem patrocinando expurgos sob o pretexto de uma campanha anticorrupção; promove limpeza étnica em áreas de maioria muçulmana, como no caso dos uigures; e impõe sobre a população um controle orwelliano em que um sistema de “crédito social” define o que cada cidadão pode fazer. A população de Hong Kong não tem a menor intenção de acabar estrangulada em suas liberdades como os demais chineses e, especialmente, minorias étnico-religiosas e povos como o tibetano, e resolveu resistir – partindo para a violência, se preciso for.

A população de Hong Kong não tem a menor intenção de acabar estrangulada em suas liberdades como os demais chineses

Se o líder chinês, que não costuma tolerar desafios à sua autoridade, ainda não esmagou a revolta em Hong Kong, é porque ele tem consciência de que a comunidade global está muito mais atenta e mais disposta a punir uma China que, hoje, tem inserção internacional muito maior que 30 anos atrás. A violência policial contra manifestantes pacíficos já atraiu condenação dentro e fora de Hong Kong, mas um massacre em um centro financeiro global causaria uma reação que abalaria até mesmo uma superpotência como a China. Xi conta com a paciência: a provocação não será perdoada, mas ele pretende vencer os manifestantes pelo cansaço – a estratégia tem funcionado na Politécnica, com a rendição de algumas centenas de jovens – e, por fim, inviabilizar ao máximo uma vida comum para quem ousou se levantar contra o Partido Comunista (os dados pessoais de todos os que se renderam foram coletados), por mais que o sistema de “créditos sociais” aplicado na China (ainda) não esteja sendo usado em Hong Kong.

Parte dos manifestantes de Hong Kong não tem a menor ideia do que era a vida sob domínio britânico, já que a então colônia foi entregue à China 22 anos atrás. Mas eles sabem que, ainda que não houvesse democracia plena – um governador apontado pela Coroa britânica também indicava os membros do Legislativo –, havia uma série de outras liberdades, como de expressão, de imprensa e econômica. O princípio de “um país, dois sistemas” acertado entre britânicos e chineses deveria preservar parte da autonomia administrativa do território e dos direitos dos cidadãos, mas Xi acelerou o ritmo da supressão das liberdades no território. Em 2047, o “um país, dois sistemas” em Hong Kong expira, e o que vem depois disso é incógnita; cenários possíveis vão da prorrogação deste acerto (que os chineses gostariam de aplicar também em Taiwan) à transformação de Hong Kong em uma zona especial aos moldes de Shenzhen, onde há algum grau de liberdade econômica, mas nenhuma das liberdades individuais que os cidadãos de Hong Kong ainda têm.

Os protestos não devem impedir a realização de eleições locais neste domingo, dia 24. Para o governo chinês, elas dão uma impressão de normalidade; para os democratas, são uma chance de tomar o Legislativo, contando com o apoio dos quase 400 mil novos (e motivados) eleitores que se registraram para votar. Mas, ainda que isso ocorra, é improvável que Xi Jinping aceite tranquilamente demandas pró-democracia que enfraqueçam sua abordagem linha-dura. Na ausência de uma solução política, um povo de coragem e que não quer se submeter a uma ditadura talvez tenha de recorrer a outros métodos para manter sua determinação, ainda que a esperança de uma vitória final seja pequena.

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