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Editorial

Entre a XV e a Avenida São João

  • 22/08/2010 21:02

Dedo na ferida. Foi o que fez a matéria "São-paulinização de Curitiba", dos repórteres Fabiane Ziolla Menezes, Mauri König e Hélio Strassacapa, publicada na edição deste domingo da Gazeta do Povo. Não é de hoje que as relações entre a capital paranaense e a capital paulista são dignas do folhetim: oscilam entre o amor e o ódio. Ao mesmo tempo que queremos nos parecer com Sampa, atirando-se em seus braços, nos esforçamos para ser melhores do que ela.

Em miúdos, os curitibanos acalentam o desejo de miniaturizar a maior cidade do país, livrando-se dos defeitos que a fizeram – no dizer da arquiteta Hellen Miranda, uma das entrevistadas da reportagem – um monstro amargo com seus cidadãos. Infelizmente, não raro, na hora do rush, os curitibanos se veem de ombro com um monstro parecido, com a desvantagem de não ter uma Marginal ao lado, a desafogar os carros e as mágoas.

É preciso lembrar que o flerte entre Curitiba e São Paulo vem de longe. Até 1853 fomos província do estado de São Paulo. E sabe-se o quanto custou nos livrar desse complexo atroz, à prova de divã do analista. Há quem afirme que ainda não nos curamos. Dizia-se, à boca grande e à boca pequena, que para vencer aqui – fosse um artista, um cientista ou um advogado – seria primeiro preciso passar o "mata-burros" de Registro, a pequena cidade da divisa onde os viajantes lancham rumo à metrópole. Voltar de São Paulo para Curitiba – consagrado – sempre foi certeza de receber admiração à sombra dos pinheirais. Doce vingança.

É preciso, contudo, ir além do alegórico e do provinciano. Curitiba não teria por que se espelhar na paradisíaca e acanhada Florianópolis nem tampouco na aguerrida Porto Alegre, cuja história política e proximidade com os Pampas a diferencia de todo o resto do país. São Paulo, em contrapartida, está mais próxima, tem raízes de imigração semelhante e – há de se considerar – também é uma capital sem mar, cuja ausência de belezas naturais é compensada pela taylorismo trabalhista. Além de tudo, goza da pujança do progresso, um progresso que sempre desejamos, por julgá-lo de direito.

Foi o que bastou para que fizéssemos de São Paulo o nosso espelho, nossa cartilha. Mas as distâncias entre as duas cidades – pequena na geografia e na cultura – foi se tornando longínqua como a Terra e a Lua. Passada a fase áurea do ciclo da erva-mate, quando a capital do Paraná se encheu de casarões majestosos, uma universidade, modos parisienses e transpirava uma mentalidade liberal, sobrepôs-se um período sombrio e conservador, que mais nos aproximava da roça do Jeca Tatu do que da Terra da Garoa.

Nos anos 1950, com a imponência e inteligência de um Bento Munhoz da Rocha, Curitiba parecia estar a um palmo de vencer seu período obscurantista e realizar seu destino citadino. A escalada dos arquitetos modernistas e as injeções de urbanismo na cidade fizeram efeito, mas o país já estava perto do pior, trazendo-nos, na década seguinte, o inchaço, a miséria e a incapacidade de responder de forma eficiente às novas demandas sociais e econômicas. São Paulo também passou por isso – mas fazendo dinheiro e impondo-se na grandiloquência de seus Anhangabaús.

Curitiba de novo amargou o recalque: cinzenta, encharcada por seus banhados – uma quase maldição –, fria e cheia de neblina, tinha por hábito falar mal de si mesma. Basta folhear os editoriais dos jornais da época para conferir o festival de baixa-estima que reinava por essas bandas do Sul. Mas o que sobreveio a esse tempo foi coisa boa de se ver.

Da década de 1970 em diante, a cidade encontra seu modo de ser – era difícil um curitibano que não risse de canto de boca ao ver os paulistanos de passagem dizendo que aquela capital inteligente e simples era a São Paulo que eles perderam.

Ora veja – não demorou a que Curitiba, com a faca e o queijo nas mãos, se pusesse de novo a cotejar a grama do vizinho. Não faltam espaços na capital cuja escala pretensiosa, impessoal, um avesso do avesso do que se convencional chamar de cosmopolitismo, lembram o pior de São Paulo.

Basta pensar na "shoppinização" – enredando para o comércio os principais espaços da memória, como fábricas, quartéis e estações –, nas zonas degradadas pelo abandono, os condomínios fechados brotando do chão, da verticalização de áreas que o dedo divino parece ter talhado para ficar na horizontal.

No frigir dos ovos, o que se vê é que Curitiba está ficando como todas as outras São Paulos replicantes do país e do mundo, dando às feras sua conquistada diferença. Não raro estamos em outro lugar do Brasil e temos aquela confusão mental. "Onde é que eu pego o biarticulado?" O carro, maior símbolo dessa "são-paulinização", está aí, para mostrar a fria em que nos metemos. O leitor, hoje, às 18 horas, numa das ruas de bitola estreita do Centro, há de se lembrar do que se trata.

Vale um alerta. Os portugueses ainda cantam aquele belo fado "Lisboa não sejas francesa". Mas tudo o que há em Lisboa a lembrar Paris é muito bom. Curitiba teria muitas coisas boas a copiar de São Paulo – que não sejam só avenidas congestionadas.

Sampa figura em todo e qualquer estudo sobre cidades do conhecimento.

E, à revelia do caos e da monstruosidade, é dali que brotam soluções urbanas criativas, resistência, invenção. Em busca de uma saída, a selva às margens do Tietê e do Pinheiros se tornou um laboratório de soluções, na qual bebem experts e espertos do mundo todo.

Esse posto pode ser nosso de novo, lembrando da velha máxima de que a resposta está bem pertinho, ali, numa esquina da Nicolau Maeder – onde a turma do Inter Lux grafitou bicicletas no muro. Ou no terreno baldio em que os ongueiros da Casa da Videira plantaram hortas. Os exemplos se multiplicam. É só olhar. Que se tornem política pública, promovendo a curitibanização do país. Vamos nos orgulhar muito disso.

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