Desde que surgiram os primeiros escândalos envolvendo o premiê da Itália, Silvio Berlusconi, se questiona como a população de um país democrático escolhe e mantém no governo um líder bufão, autoritário e pouco preocupado com valores éticos.

Não é de hoje que Berlusconi protagoniza uma série de episódios que paralisou o governo e vem denegrindo a imagem da Itália, país de grandes tradições, rico culturalmente e avançado em políticas sociais.

O caso mais recente das trapalhadas do premiê italiano, o qual mostra até onde pode chegar um político que despreza os valores morais de uma sociedade, foi apelidado de "Rubygate", em referência à dançarina Karima El Mahroug (Ruby). Berlusconi teria pago para manter relações sexuais com a marroquina em 2010, quando ela ainda tinha 17 anos. Se não bastasse a acusação de exploração sexual de menor, o líder da direita italiana responde processo por ter usado sua influência para livrar Ruby da prisão e acobertar denúncia de roubo envolvendo a garota.

Mas o caso "Rubygate" é apenas a face mais escandalosa das investidas do bilionário político. Em 1997 veio à tona denúncia de que o poderoso premiê pagou propina de US$ 600 mil ao advogado britânico David Mills em troca de falso testemunho em um processo envolvendo suas empresas de mídia. O julgamento foi suspenso no ano passado e retomado agora em 2011. Os juízes pretendem julgar o caso neste ano para evitar a prescrição, em 2012.

O chefe do governo italiano responde ainda a mais dois processos, os chamados casos Mediaset e Mediatrade. No primeiro, a acusação é que o conglomerado de mídia de Berlusconi teria cometido fraude e lavagem de dinheiro durante compra de direitos televisivos. No segundo, a denúncia é semelhante: empresas do político teriam fraudado a comercialização de direitos televisivos.

Esses são considerados, assim dizendo, os fatos "mais graves" do rol de problemas envolvendo Berlusconi. Buscando outros episódios, constata-se que a lista é extensa. As denúncias vão de festas eróticas, em que participavam menores, a abuso de poder e indução à prostituição.

Em todos os casos o líder do governo negou participação. Sua tática é se declarar vítima de magistrados de esquerda que supostamente estariam usando o sistema judicial para derrubá-lo.

As alegações parecem ter dado resultado ao longo dos anos, tanto que ele sobreviveu às pressões políticas e populares. Mas a cota de tolerância da sociedade italiana parece estar chegando ao fim – se já não esgotou.

Prova disso é que nas eleições municipais de maio o partido do governo, o Forza Italia, fundado por Berlusconi em 1993, sofreu uma derrota fragorosa. Em Milão, seu bastião eleitoral há quase 20 anos, o candidato da esquerda Giuliano Pisapia obteve 55,1% dos votos contra 44,89% da prefeita em final de mandato Letizia Moratti, candidata do premiê.

Em Nápoles, afetada por uma grave crise de coleta de lixo, o vencedor foi o ex-magistrado Luigi de Magistris, conhecido por combater a corrupção e inimigo do chefe de governo. A coalizão de Berlusconi também foi castigada em Trieste, Novara e Cagliari, redutos governistas.

Outra evidência clara da perda de credibilidade de Berlusconi foi o resultado da consulta feita no domingo. Os eleitores rejeitaram em referendo propostas do governo sobre energia nuclear, privatização do sistema de abastecimento e imunidade judicial aos ministros, o que beneficiaria Berlusconi. A recusa à energia nuclear e ao programa de privatização foi mais um "não" a Berlusconi do que uma reprovação em si das propostas.

Mais de 57% dos eleitores participaram do referendo, número que não era atingido desde 1995, e mais de 95% disseram não ao governo. Tudo indica que é o começo do fim de uma era de abusos e falta de ética no governo italiano, práticas que não devem ser aceitas na política de nenhum país.

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