Dilma diz que Lula "nunca saiu" do governo e que ambos "são indissociáveis", o que explica uma série de atitudes da presidente, como a manutenção dos absurdos 39 ministérios, na contramão das ruas, que pedem menos desperdício e menos corrupção

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"O Lula não vai voltar porque nunca saiu", disse a presidente Dilma Rousseff ao ser indagada pela Folha de S.Paulo sobre movimentos políticos – inclusive dentro de seu partido, o PT – que pretendem que Lula dispute a Presidência no ano que vem, tirando dela a intenção de se reeleger. Dilma diz que não discute sucessão e nem se incomoda com esse tipo de pregação, mesmo porque, segundo ela, "eu e Lula somos indissociáveis".

Tais declarações, somadas às incontáveis vezes em que a presidente se abalou de Brasília para ir a São Paulo aconselhar-se com o ex-presidente, tiram de Dilma o que aos brasileiros pareciam ser as maiores marcas de seu perfil político e administrativo: uma gestora eficaz no comando de equipes, detentora de opiniões claras, sólidas e firmes, e possuidora de forte personalidade forjada nas agruras da vida de militante de esquerda durante a ditadura militar, contra a qual empunhou armas.

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Os primeiros meses de seu mandato pareciam confirmar tais atributos. Aparentemente intolerante com a corrupção e com os desvios de comportamento de integrantes do primeiro escalão, demitiu nada menos de seis ministros – no que ficou conhecido como a "faxina da Dilma". Na aparência, a criatura dava sinais de que pretendia se distanciar da figura de seu criador, buscando impor sua presença como líder do próprio governo.

Não demorou muito para que a primeira impressão logo se desvanecesse, pois o lugar dos demitidos passou a ser ocupado de acordo com os mesmos critérios fisiológicos e amorais antes utilizados para a escolha dos primeiros. Serviu-se a presidente dos mesmos requisitos – tão largamente usados por Lula – para manter sua maioria congressual, isto é, os de dar aos caciques partidários e líderes do Congresso a função de indicar-lhe os substitutos. Critério técnico nenhum. Interessou-lhe mais a manutenção de maioria obediente em nome do que se convenciona chamar, impropriamente, de "governabilidade". Não por outro motivo é que ela ainda resiste à redução do paquidérmico gabinete de 39 ministérios.

Nesse ponto se traduz a mais nefasta influência que Lula (com seus "conselhos") exerce sobre a presidente. Afinal, por maiores que sejam os defeitos dela, dentre os quais o viés da centralização excessiva (e paralisante), há de se reconhecer que Dilma difere do ex-presidente no que diz respeito ao grau de integridade. E mais: percebe-se nela um genuíno desejo de fazer as coisas, como tem demonstrado no campo da infraestrutura, muito embora sejam ainda ralos os efeitos práticos. E, por fim, bem ao contrário de Lula, conhecido predador das instituições democráticas – como se viu principalmente no escândalo do mensalão, transcorrido em seu mandato – Dilma demonstra por elas um maior respeito.

Não faz bem à presidente, ao seu governo e, principalmente, ao próprio país que Dilma não consiga se libertar desse paralelismo – uma espécie de shadow cabinet às avessas representado por Lula, que sai das sombras quando lhe convém mostrar protagonismo, assim como volta para elas quando seu agudo senso de oportunismo o aconselha. Alguém viu Lula quando as ruas se encheram de manifestantes que, entre outras razões, clamavam exatamente pela condenação da herança que deixou?

Assim, conclui-se, não se sabe se por ingenuidade ou por verdadeiro respeito, Dilma Rousseff se diz indissociável de Lula. É preferível acreditar na primeira hipótese.

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