Em entrevista a uma televisão francesa veiculada nesta semana, a presidente Dilma Rousseff afirmou ser “impossível” estar envolvida no esquema de corrupção da Petrobras e que lutará até o fim para mostrar isso. Coincidentemente, as declarações de Dilma foram divulgadas um dia antes de o doleiro Alberto Youssef prestar depoimento na sede da Justiça Federal em Curitiba na Ação de Investigação Judicial Eleitoral que pede a cassação da presidente e de seu vice Michel Temer. O processo, protocolado no final do ano passado pelo PSDB, corre no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Dilma insiste na velha tese de que a corrupção na Petrobras foi obra de uns poucos

Além de Youssef, operador do esquema de distribuição das propinas que jorravam dos negócios suspeitos entre a Petrobras e grandes empreiteiras, Paulo Roberto Costa, que atualmente cumpre prisão domiciliar, também já foi ouvido. Sobre a campanha de 2010, os dois delatores se contradizem sobre as supostas doações irregulares provenientes do petrolão e, a respeito da campanha de 2014, ambos dizem de nada ter conhecimento – o primeiro porque já não era diretor da estatal (deixou o cargo em 2012); o segundo porque durante o período já se encontrava encarcerado. Devem ser solicitados outros testemunhos, como o do presidente da UTC Engenharia, Ricardo Ribeiro Pessoa, outro investigado pela Operação Lava Jato.

O principal argumento utilizado pelo PSDB para pedir a declaração de inelegibilidade de Dilma é o de que campanhas do partido da presidente teriam sido financiadas com dinheiro de corrupção, no caso, do esquema investigado pela Operação Lava Jato na Petrobras. Por enquanto, o processo se apoia basicamente nos depoimentos dos envolvidos no petrolão, faltando ainda provas concretas de que os recursos do esquema tenham mesmo abastecido as campanhas eleitorais de 2010 e de 2014. Mas pela gravidade, essa possibilidade precisa ser investigada a fundo, de modo que se prove, como a própria presidente disse, ser “impossível” o envolvimento de Dilma no esquema.

Pesa contra a presidente o fato de que ao longo do tempo em que foram identificados os malfeitos na gestão da Petrobras, isto é, desde pelo menos 2003, Dilma ocupou sucessivamente os cargos de ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da estatal e, por último, a Presidência da República. Em todas essas funções, é difícil acreditar que ela poderia permanecer em completa ignorância a respeito do que acontecia nos subterrâneos da Petrobras. Logo, soa inverossímil que nada soubesse. E se soubesse e nada tenha feito para conter a corrupção, teria sido, no mínimo, conivente com os malfeitos.

Foi como presidente do Conselho de Administração, por exemplo, que Dilma aprovou a escandalosa compra da refinaria de Pasadena, negócio que, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), teria dado prejuízo de quase R$ 800 milhões aos cofres públicos. Dilma se defende: na época não lhe fora dado conhecimento de cláusulas contratuais altamente lesivas para a Petrobras, não constantes do “relatório falho” que lhe fora apresentado. Portanto, ela “não sabia” do potencial prejuízo e muito menos que o negócio rendia grossas propinas a diretores, conforme eles mesmos confessaram, e que foram confirmadas pela empresa europeia sócia do empreendimento.

A falta de transparência e resistência de Dilma e aliados em adotar uma postura firme contra os malfeitos e assumir eventuais responsabilidades – mesmo por omissão – também pouco contribui para afastar as suspeitas de que o petrolão foi usado para financiar a campanha eleitoral do PT. Na entrevista à televisão francesa, Dilma insistiu na velha tese de que a corrupção na Petrobras foi obra de uns poucos e que o escândalo diz respeito a funcionários da estatal que se articularam com empresas e partidos para obter vantagens – só esqueceu de mencionar que, no caso, o partido envolvido no esquema é o PT.

Já quando questionada se assumiria a responsabilidade caso seja provado seu envolvimento no escândalo, a presidente não quis responder. “Eu não respondo a essa questão porque sei que não tenho nada a ver”, afirmou visivelmente irritada. Ainda é cedo para afirmar qual será o resultado do processo que investiga o uso de dinheiro conseguido através do petrolão nas campanhas do PT. Mas se forem identificados elementos suficientes para provar a ligação de Dilma com o esquema, a presidente não poderá se eximir de dar uma resposta satisfatória a essa questão.

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