Inflação norte-americana é a maior em 40 anos.| Foto: Marcelo Andrade/Arquivo/Gazeta do Povo
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Os dois principais desafios com os quais as nações têm mais dificuldades de tratar e os mais difíceis de vencer são o crescimento econômico e a inflação. Desde que Adam Smith escreveu a primeira grande obra de macroeconomia, A Riqueza das Nações, em 1776, o crescimento econômico a taxas maiores que a taxa de aumento populacional tornou-se o principal problema de economistas, sociólogos, políticos, governantes e tantos quantos tratam do tema. O crescimento do produto nacional acima do aumento da população tem o objetivo de oferecer uma fatia maior de produto por pessoa, com todos os efeitos positivos decorrentes: aumento do nível de emprego, redução da pobreza, redução das desigualdades e melhor bem-estar social geral.

A complexidade da vida moderna, o amplo leque de bens e serviços produzidos e as diferenças regionais estão entre as causas que levaram à sofisticação do papel da moeda e do mercado de trocas. Não importa qual o regime político e qual o sistema econômico, não há nenhuma sociedade capaz de funcionar sem um mecanismo de formação de preços, moeda e mercado de trocas. Pode haver diferentes características, porém, o núcleo estrutural central da economia é a existência do tripé “preços-moeda-trocas”. Seja nos países comunistas – Cuba, Coreia do Norte, Vietnã, China, Laos –, nos países mais pobres da África ou nas nações desenvolvidas, esse tripé existe e funciona, ainda que marcado por certas peculiaridades.

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A soma de inflação interna em vários países mais inflação em dólar é perigosa, podendo levar a queda na produção global e aumento do desemprego e da pobreza

No atual cenário, a inflação é um fenômeno comum, ao qual todos os países são vulneráveis e do qual nenhum está livre. Não existe sistema que contenha em sua estrutura e processos de funcionamento qualquer componente capaz de torná-lo imune à inflação, no sentido de aumento generalizado e contínuo dos preços. Essa definição é a mais comum e corriqueira sobre a inflação, lembrando que os pensadores mais ortodoxos afirmam que a inflação em si é o aumento dos meios de pagamento sem o correspondente aumento da produção de bens e serviços, e o aumento generalizado de preços seria apenas o efeito do aumento da moeda circulante. Ficando com a definição usual, há muito tempo não ocorria o aumento simultâneo de preços em dezenas de países, após a paralisação de parte substancial do sistema produtivo em função das medidas de isolamento para enfrentar a pandemia.

Se os preços internos na moeda nacional aumentam simultaneamente em todos os países com o qual determinado país mantém comércio exterior, mas os preços externos de exportação e importação na moeda padrão internacional (o dólar) não se alteram, esse país acaba desvalorizando a moeda nacional em relação ao dólar, como meio de reequilibrar as receitas das exportações e elevar os custos das importações na moeda nacional para compensar a inflação interna. Assim, a normalidade do comércio exterior de um país depende de que a taxa de câmbio (preço do dólar na moeda nacional) aumente na proporção da inflação desse país. Porém, a situação é diferente caso os preços em dólar dos produtos no comércio exterior subam junto com a inflação média mundial. Esse movimento de aumento dos preços e dólar é o que acaba ocorrendo pelo menos em certa medida quando o país que dá lastro à moeda padrão (o dólar) também sofre inflação.

No atual momento, os Estados Unidos – o país que dá lastro à moeda internacional – tiveram inflação de 7% em 2021 (a maior desde 1982) e, ao encerrar o primeiro trimestre deste ano, o índice já havia atingido 8,5% no acumulado de 12 meses. Ocorrendo inflação nos Estados Unidos, o poder de compra do dólar cai e a tendência é haver desvalorização do dólar e valorização das moedas nacionais dos países integrados ao comércio exterior e às finanças internacionais. Como o cenário atual é de inflação em vários países, além de certa desorganização nos sistemas de preços e a não sincronia dos movimentos altistas, os preços de todos os ativos, sejam mercantis ou financeiros, tendem a aumentar nos países que estejam conectados pelo intercâmbio comercial e financeiro.

Apesar de esse assunto ser intrincado e de difícil compreensão mesmo para economistas que não sejam especializados no sistema monetário internacional e nos movimentos de capitais entre as nações, a soma de inflação interna em vários países mais inflação em dólar é perigosa pelo potencial de dificultar o combate à inflação mundial e provocar novos aumentos das taxas de inflação nos mesmos países envolvidos. O quadro geral, assim, leva a três consequências possíveis: queda na produção global (podendo chegar no nível de recessão), aumento no desemprego (que vinha sendo reduzido com a arrefecimento da pandemia) e aumento da pobreza (sobretudo pelo aumento dos preços dos produtos alimentícios). O mundo entra neste meio de 2022 e seguirá em 2023 tendo esses problemas econômicos como assunto prioritário de governos e sociedade.

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Um dos pontos importantes que um candidato a chefe da nação deve apresentar diz respeito, no geral, a seu plano de relações internacionais em suas variantes econômica, política, social e como será o relacionamento do Brasil com as nações do mundo, segundo os regimes políticos e econômicos delas. Neste momento em que as campanhas já estão iniciando seus movimentos, muito pouco se aproveita das falas dos pretendentes a dirigir o país a partir do ano que vem, a não ser enunciados genéricos, superficiais, pobres de conteúdo técnico e intelectual. Até as eleições, há tempo para que apresentem seus planos.

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