O Comitê de Política Monetária anuncia hoje a nova taxa Selic, dentro da diretriz de ampliar para um mês e meio os períodos de marcação dessa taxa referencial. O dilema da autoridade monetária consiste em conciliar juros básicos, que busquem a meta inflacionária de 4,5%, com o crescimento de 3,5% para a economia durante o ano. Até aqui esse objetivo duplo não foi conseguido – situação negativa que afeta o projeto político do governo.

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É que em 2005 o índice de inflação foi baixo (5,69%), porém o crescimento também se revelou modesto, devendo fechar em menos de 2,5%. Em comparação, países emergentes similares – Rússia, Índia e China – avançaram entre 6 e 10%; no continente Chile e México conseguiram conjugar a estabilização inflacionária com altas taxas de expansão. O desconforto com esse quadro já alcançou autoridades de alto escalão, como o secretário do Tesouro, que na semana passada não poupou críticas ao viés conservador da autoridade monetária.

Pressionado, o titular preferiu recuar, estendendo-se em considerações quanto ao PIB potencial, etc. Mas as queixas continuam na ordem do dia, incluindo lideranças empresariais, economistas e personalidades como o ex-presidente do IBGE, Sérgio Besserman Vianna. "O Brasil é um país viável, que sem dúvida melhorou suas contas, mas está condicionado pelo passado e seus fantasmas", completou o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, consultor do PSDB, dando como exemplo a manchete dos jornais: foram abertas quase trinta mil vagas – não na economia real, mas em órgãos públicos.

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Para contrabalançar esse estado de opinião, o governo estende as comemorações pelo resgate antecipado do empréstimo do FMI após o colapso do programa de câmbio fixo, em 1999. Não há dúvida que o saneamento das finanças públicas, que permitiu o pagamento ao Fundo, foi relevante: houve melhora na gestão macroeconômica e foi eliminada a pressão da dívida externa atrelada ao câmbio.

Contudo, a antecipação é vista por seu caráter simbólico – conforme a comentarista Lúcia Hipólito, no limite significando trocar um dinheiro barato por recursos captados no mercado. Luiz Guilherme Piva, consultor de economia, explica que o dinheiro do FMI custa 2% mas vem acompanhado de condicionalidades; no mercado interno as captações não saem por menos de 18%. A quitação serviu para o governo proclamar autonomia em relação a um supervisor incômodo. Com efeito, seu diretor Rodrigo de Rato não se dispensou de oferecer os últimos conselhos ao Brasil; mas os críticos ponderam que, não obstante, o governo seguiu-os à risca, até ultrapassando a meta de superávit primário.

Demonizar o FMI foi o esporte predileto das esquerdas, mas persistir na sua rejeição revela um comportamento injustificável em adultos educados. Afinal, o Fundo é um órgão do sistema internacional de regulação, proposto pelo gênio de Keynes para salvar as nações do caos que se seguiu à II Guerra; um socorro de última instância, útil nas crises que o Brasil enfrentou por mais de meio século.