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Editorial

Segundo turno na Argentina

O candidato à presidência e vencedor do primeiro turno nas eleições da Argentina, Sergio Massa, discursa no Ministério da Economia, em Buenos Aires. (Foto: EFE/ Enrique García Medina)

O peronista de esquerda Sergio Massa, atual ministro da Economia e candidato governista à presidência da Argentina, foi a grande surpresa do primeiro turno da eleição realizada neste domingo. Massa, que tinha obtido 21,4% dos votos nas primárias realizadas em agosto, saltou para 36% e disputará o segundo turno contra o libertário Javier Milei, que manteve os 30% conquistados nas primárias vencidas por ele. A candidata de centro-direita Patricia Bullrich terminou a disputa na terceira posição, com pouco menos de 24%. Os dois candidatos remanescentes, agora, terão até 19 de novembro para convencer o eleitor argentino.

Uma das características marcantes da votação foi o índice de abstenção, o maior da história recente da Argentina desde a redemocratização do país, nos anos 80: no total, 74% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas, enquanto as primárias de agosto tinham atraído 69% do eleitorado. Os 26% de faltantes seriam mais que suficientes para alterar radicalmente o resultado, seja dando a um dos candidatos a vitória já neste domingo – na Argentina um candidato se elege no primeiro turno com 45% dos votos válidos ou dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado –, seja mudando os nomes do segundo turno.

A principal causa do avanço de Massa certamente é a enxurrada de medidas populistas adotadas pelo ministro da Economia na reta final da campanha. Para vencer a eleição presente, ele já contratou a inflação futura

Outro número notável do pleito foi a ascensão de Sergio Massa, que elevou a votação dos peronistas de esquerda em 9 pontos porcentuais na comparação com agosto – considerando-se aí os 6% de votos que Juan Grabois, da mesma coalizão, havia conquistado nas primárias. Mas tamanho salto tem suas explicações. Uma delas foi o ótimo desempenho do atual governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, do mesmo partido de Massa e que conquistou a reeleição já no primeiro turno. Mas a principal causa de tamanho avanço certamente é a enxurrada de medidas populistas adotadas pelo ministro da Economia na reta final da campanha. Bônus de todo tipo, ampliação de isenções de Imposto de Renda e crédito mais fácil estão entre os anúncios feitos nas últimas semanas. Para bancar tudo isso, não há outra opção ao governo a não ser seguir imprimir dinheiro sem lastro. Em outras palavras: para vencer a eleição presente, Massa já contratou a inflação futura.

É esperado que os populistas queiram vender como solução aquilo que é o problema – isso faz parte de sua natureza. Que a população siga comprando esta mentira mesmo sentindo na pele o estrago causado por essas políticas no passado recente (como na era Kirchner) e durante o mandato atual, com inflação fora do controle e uma enorme parcela dos argentinos vivendo na pobreza, é prova do que chamamos, quatro anos atrás, de “prisão mental” em que o populismo peronista lançou o país e da qual parece impossível escapar. Estado inchado, forte presença estatal na economia, funcionalismo numeroso, auxílios governamentais sem fim – de alguma forma, muitos argentinos parecem crer que não há salvação fora deste conjunto e que a solução para as atuais mazelas está não em desmontá-lo, mas em intensificá-lo.

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Isso não significa que a opção por Milei seja algo simples, ou fácil. Esta ainda é uma escolha relativamente arriscada – afinal, sua pauta moral está longe do ideal e seu libertarianismo econômico nunca foi aplicado, ao menos não na escala de uma nação grande como a Argentina; uma medida radical que fosse mal aplicada poderia terminar de quebrar o país. Por isso, vários analistas chegaram a avaliar que Massa recebeu neste primeiro turno uma dose considerável de “voto útil” de eleitores que apoiariam Bullrich, mas que, prevendo-a fora do páreo e enxergando muita incerteza em uma possível vitória de Milei, preferiram apostar desde já no proverbial diabo que já se conhece. No entanto, este mesmo diabo, o peronismo de esquerda, é justamente o responsável pelo caos argentino. Neste exato momento, sem considerar possíveis articulações para o segundo turno, o argentino terá de decidir entre a quase certeza de que não haverá melhora ou um salto no escuro que pode dar muito certo, ou muito errado.

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