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Conflito fundiário

União desembolsará R$ 584 milhões para resolver disputa de terra que se arrasta há 20 anos

Acordo homologado pelo TJPR encerra conflito fundiário no oeste do Paraná envolvendo a Araupel.
Acordo homologado pelo TJ-PR encerra conflito fundiário no oeste do Paraná. (Foto: Danielson Postinguer/Incra)

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O Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) homologou, nesta quinta-feira (15), um acordo de R$ 584,7 milhões entre o governo federal e as empresas Araupel S/A e Rio das Cobras Florestal Ltda. O objetivo é a regularização de assentamentos em Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu, no oeste do Paraná.

O acordo formaliza a desapropriação indireta de 23,7 mil hectares para a reforma agrária. As áreas das glebas Pinhal Ralo e Rio das Cobras passam a integrar o Programa Nacional de Reforma Agrária. O entendimento viabiliza a criação e a regularização de assentamentos como Celso Furtado, 10 de Maio, Herdeiros da Terra, Dom Tomás Balduino e Nova Conquista, ocupações existentes há mais de 20 anos e que reúnem quase 20 mil pessoas.

A União pagará R$ 584.784.622,10 às empresas. A Araupel, considerada como uma das maiores companhias de produção madeireira do Brasil, receberá R$ 552,6 milhões. A Rio das Cobras Florestal ficará com R$ 32,1 milhões. O pagamento ocorrerá por meio de precatórios, com emissão prevista até 31 de janeiro de 2026.

Em troca, as partes extinguirão todas as ações judiciais relacionadas ao conflito nas Justiças Estadual e Federal. O acordo também preserva áreas produtivas e assegura segurança jurídica às atividades empresariais. As Comissões de Soluções Fundiárias do TJ-PR e do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) conduziram a mediação.

Regularização encerra conflito fundiário de mais de 20 anos

O desembargador Fernando Prazeres, Presidente da Comissão de Soluções Fundiárias do TJ-PR evidenciou à Gazeta do Povo que foram dezenas de reuniões com órgãos federais, estaduais e municipais. Visitas nas áreas de conflito com as famílias que ocupavam as áreas da Araupel e com a direção da empresa, para entender as necessidades e interesses mais imediatos de todos os envolvidos.

"Iniciamos essa mediação há mais de três anos. A comissão sempre apostou no diálogo e na compreensão de que somente o consenso, construído pelos interessados, poderia por fim a um conflito que já atingia pelo menos três gerações", afirmou o desembargador.

Conflito fundiário escalou no ano de 2016

A empresa de reflorestamento e beneficiamento de produtos de madeira Araupel estabeleceu-se em Quedas do Iguaçu, região centro-oeste do Paraná, há cerca de 50 anos, com extensões de terra entre as regiões de Pinhal Ralo e Rio das Cobras, espalhadas pelos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Quedas do Iguaçu, Espigão Alto do Iguaçu e Nova Laranjeiras.

Parte das terras da empresa foi destinada a assentamentos. No Paraná, por causa das ocupações de 1996, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) conseguiu a desapropriação de duas áreas da Araupel, em um total de 24 mil hectares, formando os assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire, entre 1997 e 1998. As áreas foram consideradas improdutivas e 1,5 mil famílias foram assentadas.

Mas foi em 1999 que começava a surgir o que depois se tornaria um dos maiores assentamentos do país, com 23 mil hectares, o de Celso Furtado, onde cerca de 40% é área de preservação. Naquele ano, cerca de 900 famílias se instalaram numa área de aproximadamente de 700 hectares de terras da Araupel. Em 2004, saiu o título provisório da terra para o Incra.

Por serem terras produtivas, o Incra não podia desapropriar as terras para a criação do assentamento Celso Furtado e o órgão começou a negociar com a empresa a possibilidade de compra do local. Um grande momento de impasse ocorreu em 2003, quando a Justiça Estadual determinou a intervenção do governo federal no Paraná, pelo não cumprimento da reintegração.

Depois disso, as negociações de compra não vingaram, com a dúvida sobre o título de origem das terras. Em 2004, alegando que a área pertence à União, o Incra entrou com uma ação de nulidade do título da Araupel e já naquele ano o órgão obteve um título provisório do local.

Na sentença, a Justiça Federal de Cascavel acatou os argumentos do Incra. Em dezembro de 2015, a Justiça Federal sentenciou que outra área da Fazenda Rio das Cobras, em Quedas do Iguaçu, pertencia à União.

Em 2016, o conflito fundiário escalou na região. A cidade viveu momentos de tensão com um confronto armado entre a Polícia Militar e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que terminou com dois sem-terra mortos e seis feridos. Logo depois, a Força Nacional de Segurança Pública foi acionada para reforçar o policiamento na região.

Lula deve ir a Quedas do Iguaçu para acompanhar implantação de assentamentos

O superintendente regional adjunto do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná, Cyro Fernandes Corrêa Júnior, considerou o acordo como o maior marco recente da reforma agrária do Brasil. “Este é o maior acordo fundiário do Paraná e, sem dúvida, uma das maiores conquistas da história da reforma agrária no Brasil. São muitos anos de luta dos trabalhadores rurais e muitos anos de mediação. Agora, finalmente, será possível ao Incra destinar políticas públicas do governo federal em benefício de milhares de agricultores familiares”, disse.

Com a homologação judicial, o Incra deve iniciar os processos de titulação e a estruturação dos assentamentos. Há expectativa de uma visita do presidente Lula (PT) a Quedas do Iguaçu para acompanhar a implantação dos assentamentos. O presidente esteve no município em março de 2018, durante caravana pelo Sul do país, quando participou de ato público em defesa da reforma agrária na Praça Central da cidade.

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