UTI de Covid-19.
UTI de Covid-19.| Foto: Geraldo Bubniak / AEN

A atual explosão de casos de Covid-19 no sistema de saúde, que já estava sobrecarregado ao longo de toda a pandemia, forçou o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) a editar norma aumentando a quantidade de pacientes por médicos nas UTIs. Desde domingo (28), ao invés de 10 pacientes por médico, conforme determina regulamentação de 2010 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as unidades de terapia intensiva do estado estão autorizadas a operar com um médico para 15 pacientes – aumento de 50%.

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Com o próprio governo do estado admitindo que a rede hospitalar já está colapsando, com 96% de ocupação nos 1.444 leitos adultos de UTI nesta sexta-feira (5), chegou o cenário crítico que vinha sendo alertado por autoridades de saúde desde o início da pandemia: não há mais profissionais intensivistas para serem contratados. Atualmente, o Paraná inteiro conta com 321 médicos intensivistas adultos e 120 pediátricos, segundo o CRM-PR.

Dessa forma, resta aos médicos que já estão extenuados dedicar ainda mais tempo no atendimento de pacientes graves de Covid-19. “Essa norma é uma excepcionalidade que não deve mais valer após a pandemia, afirma o presidente do CRM-PR, Roberto Yosida. "Toda deficiência na saúde deságua infelizmente nos ombros dos profissionais de saúde. E o momento agora é como se fosse o de uma queda de avião: mesmo que seja acima da capacidade do hospital, todos os pacientes que dão entrada têm que ser atendidos", ilustra Yosida.

O presidente da Sociedade de Terapia Intensiva do Paraná (Sotipa), Rafael Deucher, avista um cenário ainda mais grave, com demanda de trabalho ainda maior às equipes de UTI se a transmissão acelerada do coronavírus não for freada. “Os leitos de UTI até aparecem. Botam uma cama, um respirador, os outros equipamentos, mas a questão é: médico e outros profissionais intensivistas não brotam do nada. São profissionais que exigem capacitação para lidar com pacientes graves. E a maioria dos pacientes de Covid-19 são muito graves, exigem muita atenção das equipes”, ressalta. "Botar um médico sem especialidade para atuar numa UTI seria como pedir a um recém-formado para operar um paciente com apendicite. Não vai saber fazer", compara o médico.

Deucher afirma que antes da pandemia a média era de três a quatro pacientes em estado grave nas UTIs do estado. Agora, são 15 ou até mais em estado gravíssimo em cada unidade de terapia intensiva, “quase morrendo”, faz questão de enfatizar. “Com 15 pacientes graves, você não para um minuto. Isso pode gerar falhas humanas pelo cansaço, o que já ocorre em situação normal e que agora foi muito potencializado. Mas, pelo momento crítico, é preferível dar 80% de atenção a 15 pacientes do que 100% para 10 pacientes”, aponta.

Com tamanha sobrecarga, muitos hospitais de Curitiba e de todo o estado já estão com dificuldade de fechar escalas. “Fazia dois anos que eu não fazia plantão noturno. Agora, estou fazendo de três a quatro por semana porque não tem médico”, ilustra Deucher, que entre domingo (28) e quarta-feira (3) dormiu apenas 12 horas, já que teve que cobrir o plantão de um colega que apresentou sintomas de Covid-19.

Além disso, aponta o médico, as equipes de terapia intensiva de todo o estado estão tendo de improvisar para conseguir atender o contágio acelerado. Segundo o presidente da Sotipa, por falta de respiradores, hospitais estão tendo que usar ventiladores mecânicos usados em cirurgias e de ambulâncias.

“Esses equipamentos não são ideais para se usar na UTI, porque eles têm capacidade de operação de uma, duas horas”, explica. No último domingo (28), por exemplo, o Hospital de Retaguarda, de Cascavel, referência no tratamento de Covid-19 no Oeste do Paraná chegou a requisitar do zoológico um respirador usado em cirurgias veterinárias que só não foi utilizado porque de última hora a equipe conseguiu respiradores de ambulâncias. Depois disso, o Hospital de Retaguarda colapsou.

Cansaço físico e mental

O chefe da UTI do Hospital Evangélico Mackenzie, com 43 leitos de Covid-19, o médico Marcelo Oliveira, reconhece a necessidade de se aumentar a quantidade de pacientes por médico neste que é o pior momento da pandemia. Mas faz um alerta: as equipes das UTIs já estão mais do que extenuadas física e mentalmente ao longo de um ano de pandemia.

“Somos profissionais de saúde. Estamos ali para atender o paciente. Mas essa responsabilidade tem que ser compartida com a sociedade e o poder público. Cada um tem que fazer sua parte para que a gente possa salvar o maior número de vidas possível”, aponta.

“Pelo nível de gravidade dos pacientes, a maioria em ventilação mecânica, muitas vezes com dificuldade para serem estabilizados, com internamentos prolongados, isso acaba sobrecarregando todos os profissionais, não só os médicos. Talvez a sobrecarga maior seja na equipe de enfermagem por ter o cuidado direto com o paciente, com várias intervenções ao longo da assistência”, complementa Oliveira.

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