Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Agrofloresta
Valdenise Batista Veloso e Cláudio Redede realizam trabalho com agrofloresta.| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

A necessidade cada vez mais urgente de promover a conservação e a restauração da Mata Atlântica tem feito com que a área seja foco de vários projetos apoiados por grupos como a Fundação Grupo Boticário. Atualmente, restam cerca de 32 milhões de hectares dessa mata no Brasil. Números preocupantes, embora à primeira vista possam parecer impressionantes. Esses "milhões de hectares" correspondem a apenas 28% da cobertura original, segundo estudo financiado pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

RECEBA notícias do Paraná pelo messenger do Facebook

O levantamento em questão faz parte de uma tese de doutorado desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado na edição de dezembro de 2018 do periódico científico “Perspectives in Ecology and Conservation”. O mapeamento considera todo tipo de vegetação nativa, sem filtro por tamanho de fragmento, o que inclui pedaços pequenos demais para serem perenes e florestas secundárias ainda muito longe do seu clímax de biodiversidade.

Outros trabalhos, como os desenvolvidos pela fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo MapBiomas, apontam que esse número cai drasticamente quando é considerada a cobertura de matas bem preservadas (12-17%), em estágios médio e avançado de regeneração e com área de pelo menos três hectares.

Qualquer que seja a métrica escolhida, o quadro atual está longe do objetivo de médio prazo disposto na lei federal nº 11.428/2006, que prevê a volta de 35% e 40% de cobertura vegetal nativa na Mata Atlântica. Nessa porcentagem estariam incluídas Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reservas Legais dos imóveis rurais, unidades de conservação públicas e privadas e outros remanescentes.

Mesmo que, no geral, o desmatamento desse bioma venha caindo nos últimos dois anos, alguns dos 17 estados que abrigam esse tipo de vegetação ainda preocupam. De acordo com o levantamento anual do SOS Mata Atlântica, atualmente o Paraná é o terceiro estado que mais desmata o bioma, perdendo apenas para Minas Gerais e Piauí. Entre 2017 e 2018 foram destruídos 2.049 hectares, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. A Mata Atlântica é o bioma predominante no Paraná, originalmente presente em 99% de sua área. Atualmente, restam 11,8% (2,3 milhões de hectares) desse total.

Conservação é também uma luta cultural

A preservação do meio ambiente é parte integral dos povos caiçaras, populações tradicionais que habitam a faixa de Mata Atlântica que parte do litoral de Santa Catarina, passando pelo Paraná e chegando até São Paulo. A vasta cultura, que passa pelo ritmo fandango e pelo sabor da cachaça de cataia, inclui manejos próprios de agricultura e pesca que são aliados da conservação ambiental.

É pensando em preservar e divulgar essa cultura que Ytalo dos Santos desenvolve ações de ecoturismo de base comunitária na região da baía de Paranaguá. Morador da Ilha dos Valadares, ele se interessou pela área quando fez um treinamento de agente de turismo e, em 2015, passou a ser colaborador da Rede Caiçara de Turismo Comunitário. Atualmente, o grupo é composto por aproximadamente 100 pessoas, espalhadas por 16 comunidades.

À medida que sua participação na rede foi crescendo, veio também mais profissionalização. Foi durante o curso de Tecnologia em Gestão de Turismo, no campus Litoral da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que surgiu a ideia de criar uma agência focada nesse tipo de roteiro. "Eu quero muito trabalhar na área, especificamente como empreendedor, para fortalecer o grupo. Quero ser uma agência operadora, mas uma que vem dessas comunidades", conta o estudante, que também faz parte da turma de pré-aceleração.

"A gente quer mostrar uma vivência relacionada à cultura caiçara do litoral do Paraná, mais aproximada da comunidade", explica. "Não é simplesmente um serviço, há uma troca ali". Entre as atividades oferecidas estão a pesca do siri, incluindo uma visita à casa do pescador, com direito a almoço junto da família, e um roteiro sobre a história e a presença do fandango nas comunidades, do qual faz parte a casa do Mestre Zeca Martins.

Mestre Zeca toca e faz rabecas e violas há mais de 50 anos e a sua casa é um misto de ateliê com galeria de instrumentos. Tudo muito humilde, mas não menos caprichado. Ele dá aulas de música e de construção de instrumentos e cada peça é única. À medida que passa adiante as técnicas, multiplica também a cultura. "Se a gente não passar [a tradição adiante], acaba, né?"

As rabecas feitas por ele têm até marcações numéricas para ajudar os alunos na hora da aula. "No meu tempo ninguém ensinava [a tocar] e não deixava nem a gente pegar no instrumento. Aqui tem a viola que era do meu pai", mostra o músico, indicando uma viola presa à parede, datada de 1957. "Para pegar nessa viola, eu esperava que meu pai fosse trabalhar e tocava escondido". Tudo que sabe, aprendeu observando.

"O Mestre Zeca é um dos anfitriões. Sempre tem gente aqui na casa, ele é um ponto de referência. A gente passa na casa dele, explica para o visitante como são os instrumentos, o Zeca ilustra isso tocando e conta como era antigamente", diz Ytalo.

O estudante participa do Natureza Empreendedora, projeto do Grupo Boticário que, ao longo de cinco anos, vai promover ações de capacitação e aceleração de negócios de impacto socioambiental positivo - que gerem receita, desenvolvimento regional e promovam a conservação do meio ambiente - na região da Mata Atlântica.

Em parceria com um colega de faculdade, o estudante também levou para as oficinas de pré-aceleração do programa outros dois projetos. Um deles é para a produção de depuradores de ostra de baixo custo, que poderiam ser instalados em comunidades pesqueiras para aumentar o valor agregado das ostras colhidas e, por consequência, diminuir a necessidade de extração excessiva destes moluscos. A outra ideia é de levar às comunidades um sistema de saneamento básico por células, acabando com a necessidade de fossas e reduzindo o impacto ambiental.

Para o jovem empreendedor, o que não falta vontade de melhorar a vida na região e de valorizar o local justamente pelo diferencial dessa relação mais harmoniosa com o meio ambiente. "Eu nasci aqui em Valadares. Quero ficar aqui, trabalhar nessas comunidades tradicionais, levar os turistas para conhecerem esse lugar."

Da agrofloresta para a mesa

Enquanto Ytalo desenvolve seu trabalho à beira-mar, Valdenise Veloso encontrou a sua veia empreendedora no meio do mato. Há mais de uma década ela vem trabalhando com famílias do assentamento Nhundiaquara, em Morretes, onde auxiliou a implantação de agroflorestas e da certificação de produtos orgânicos nas propriedades dos agricultores.

"A agrofloresta é o homem imitando a natureza no plantio. Ela não é um monocultivo, mas sim várias espécies em consórcio", explica Valdenise, que é formada em Gestão Ambiental pela UFPR Litoral. "Vai desde a hortaliça até uma árvore de [extração de] madeira, passando pelas frutas, pela mandioca e outras. [Nessa técnica] você pode plantar tudo numa mesma linha."

A prática é antiga e vem do uso que os indígenas fazem do território, mas foi resgatada nas últimas duas décadas e vem ganhando força. A ideia é garantir a soberania e a segurança alimentares da família, cultivando na propriedade o que é necessário para a alimentação cotidiana, e respeitar o ecossistema da região. "A gente tem plantio de espécies exóticas, mas a ideia é sempre fortalecer as nativas", garante ela.

São incluídas também espécies que colaboram para a manutenção do sistema como um todo, como a bananeira, que enriquece a cobertura do solo com o material do seu caule e das suas folhas. "O sistema agroflorestal pede muito a cobertura do solo, porque um solo aberto está ali queimando no sol e, quando a chuva vem, leva todos os nutrientes. É por isso que o monocultivo precisa de cada vez mais insumos. Mas o sistema agroflorestal melhora o solo - uma planta vai auxiliando a outra", explica Val. "Grande parte dessa área do assentamento era pasto. Então, até recuperar o solo leva um bom tempo."

É o caso de Claudio Redede, que hoje tem uma agrofloresta de sucesso, mas só depois de anos de trabalho para recuperação da terra. "Eu nunca trabalhei com veneno. Então, a minha ideia era continuar com o sistema que meus avós tinham na região de Guaraqueçaba: sem usar veneno, plantando a minha banana, a minha laranja, as minhas frutas, e todo ano plantar o meu milho para comer e para alimentar minhas galinhas", conta.

Quando virou realidade, esse sonho foi muito além. Além das frutas e do milho, o agricultor colhe toda uma infinidade de espécies: azeitona, cana-de-açúcar, cará, cajá-manga, mogno, eucalipto, feijão-cavalo, couve, cúrcuma e a lista ainda vai longe. Algumas plantas, como a batata-inglesa, não vingam - mas não tem problema. "A batata-inglesa não vem, então não adianta forçar. É melhor plantar o cará e o inhame, que vingam", explica a gestora.

"Eu posso plantar cana no meio do bananal, não precisa ser só cana. Por que tem que derrubar tudo e plantar só laranja se a mimosa cresce junto com o arbusto?", questiona Claudio, que trouxe algumas espécies de Guaraqueçaba para a sua propriedade. "A agrofloresta é isso: é o que o agricultor quer plantar, não simplesmente a demanda do mercado", ressalta Val.

Para respeitar essa autonomia, ela vem promovendo ações para despertar nos restaurantes locais a demanda pelos alimentos produzidos nas agroflorestas. Há cerca de dois meses nasceu uma parceria entre os chefs e os produtores com o propósito de melhorar a renda dessas famílias e levar à mesa alimentos orgânicos e espécies nativas.

Val, que faz parte da diretoria da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa), ajudou também a formar na região um sistema de certificação de orgânicos participativa. Neste tipo de certificação, os produtores são separados em grupos e um fiscaliza o outro; periodicamente, há uma auditoria externa. Se for constatada alguma irregularidade, todo o grupo pode ser prejudicado, o que assegura o rigor na autofiscalização ao mesmo tempo em que não submete os agricultores a todo um processo externo.

A certificação de produto orgânico agrega valor aos alimentos, correspondente a todo cuidado necessário com esse tipo de produção. No projeto que Val representa, a produção ainda é baixa, mas está aumentando justamente por causa da possibilidade de vender mais, diretamente para as cozinhas, sem atravessadores que podem desvalorizar os produtos.

"Comercializar é importantíssimo. Não adianta só produzir ali, só ter diversidade de alimento e de fauna, porque o produtor tem outras necessidades, outros ‘quereres’. Nós queremos qualidade de vida e queremos adquirir coisas", aponta a empreendedora.

A partir das atividades de pré-aceleração, como a do projeto da Fundação Grupo Boticário, a ideia é conseguir dar mais força para esse negócio e colocá-lo definitivamente em pé. "A gente quer caminhar para a independência, ter um veículo para fazer a logística da venda e, assim, conseguir fazer outras frentes de comercialização", explica Val.

Com o empreendimento em pé, o plano é achar um equilíbrio entre uma remuneração adequada pelo valor agregado desses alimentos sem que isso os torne inacessíveis. "Nós buscamos o valor justo do alimento. A gente não quer ficar alimentando só quem pode pagar, todos precisam comer bem", destaca.

QUIZ: conhece as bandeiras do Paraná?

2 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]