Professora Maria Vilma Paolini e o marido Ubaldo Paolini morreram com menos de duas horas de diferença| Foto: Jefferson Oliveira /SEDS
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Um time vitorioso. É assim que a essência do casal Maria Vilma e Ubaldo Paolini poderia ser resumida. Ela com sua garra e jeito para a negociação, ele com a cortesia, o humor e o conhecimento sobre o passado da região onde passaram a vida toda, o bairro Caximba, na região Sul de Curitiba. Cada um cumpria uma parte específica nessa equipe, mas ambos compartilhavam o espírito solidário e a energia para conseguir direitos para uma comunidade que muitas vezes foi deixada de lado. No dia 28 de maio, o time saiu de campo junto. Maria Vilma, 78 anos, e Ubaldo, 90, faleceram por Covid-19 com apenas uma hora e meia de diferença.

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Apesar de ter adotado a Caximba como lar durante a maior parte da vida, Maria Vilma nasceu no Sudeste paranaense, em São Mateus do Sul. Ela e Ubaldo se conheceram em Santa Cecília, Santa Catarina, e se casaram em Mafra, no mesmo estado, em 1960. Com a união e estabelecimento do lar no bairro curitibano, Vilma, uma professora que se importava bastante com o acesso de todos à educação, conheceu a luta que o sogro, o imigrante italiano Dino Paolini, encampava há tempos na região: permitir que os caximbenses não precisassem “viajar” para tão longe - o Centro da cidade - para ter ensino básico, já que isso fazia com que muitos desistissem da empreitada. Foi ele quem ofereceu terreno e hospedagem para professoras que viessem lecionar no bairro, fundando a primeira escola do local, na década de 1930.

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Essa foi apenas a primeira das muitas outras pautas necessárias pelas quais o casal batalhou ao longo dos anos. Pela Associação de Moradores e Amigos do Bairro Caximba, da qual Vilma foi presidente, eles auxiliaram de forma fundamental em conquistas como a pavimentação de ruas, instalação de um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), de uma unidade de saúde, uma creche, uma escola municipal e um espaço de saúde. Com a liderança comunitária ativa veio o contato com vereadores, prefeitos e outras autoridades municipais que colaboravam para a concretização das demandas da comunidade.

O casal descartava o ingresso na política, mas sabia que o relacionamento com políticos era importante. A mesma casa que estava sempre de portões abertos para a vizinhança, caso precisassem de alguma assistência ou informação, também recebia com frequência representantes do poder público para um café acompanhado dos quitutes de Vilma, cozinheira de mão cheia. Nessas ocasiões, Ubaldo cumpria a função de quebrar o gelo, com um jeito brincalhão e extrovertido que parece acompanhar muitos outros descendentes de italianos que se misturam à latinidade brasileira.

Aterro era razão para pedir mais apoio à Caximba

Marcada pelo antigo Aterro Sanitário de mais de 400 mil m², desativado em 2010, a Caximba de Vilma era, na verdade, uma terra cheia de gente boa e trabalhadora, merecedora de todo o respeito. “Ela tornava esse assunto [do aterro] um motivo pelo qual o bairro precisava de mais apoio. Ela ajudou a mudar a visão que as pessoas tinham sobre o lugar”, conta a neta Carolina do Rosário Paolini.

A atividade comunitária se misturava à rotina, pois trabalhar pelo desenvolvimento local, para eles, era tão natural quanto regar as plantas no jardim ou assar um pão pela manhã. Na rotina doméstica, o time se dividia nos afazeres e se juntava na confraternização diária. Vilma amava cozinhar - pães, bolos, biscoitinhos e outras delícias que a tornavam famosa - e ler, já Ubaldo se ocupava da horta, do pomar e de tudo o que eles produziam, além de cuidar das “criações”, galinhas, porcos e cavalos. Ambos eram apaixonados por reunir a família e contar boas histórias. O casal deixa três filhos e sete netos.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]
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