Ex-prefeito de Curitiba Saul Raiz na Praça do Batel, em outubro de 2010| Foto: Albari Rosa / Arquivo Gazeta do Povo
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Como engenheiro civil e administrador público, Saul Raiz não tem como não ser lembrado por sua longa lista de feitos e obras, mas quem o conheceu mais de perto faz questão de destacar a personalidade doce, gentil e sempre pronta a oferecer conselhos valiosos. Ele faleceu no dia 3 de dezembro, aos 91 anos, por complicações da doença de Alzheimer.

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Ana Maria Petruzziello Kohane, amiga há mais de 40 anos e uma das últimas pessoas a serem visitadas por Saul, com a saúde já debilitada, o considerava um segundo pai. Ela lembra que a prestatividade e o bom humor na vida pessoal eram complementares à integridade conhecida na vida pública. “Ele era mais reservado sobre o que havia realizado como político, mas tinha histórias que o orgulhavam”, conta ela. Uma das preferidas tratava da caravana de taxistas que o acompanhou ao aeroporto quando seu mandato como prefeito de Curitiba acabou e ele estava se mudando para São Paulo. A categoria o estimava muito.

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Saul Raiz era o primogênito de casal de imigrantes poloneses

Filho de imigrantes judeus poloneses, Saul foi o primeiro dos dois filhos do casal a nascer já em Curitiba. A família firmou-se na cidade em 1928 e trabalhou com comércio de roupas, tecidos, depois frutas e verduras e por fim abriu uma loja de móveis na qual o caçula trabalhou como carregador. O menino que jogava pelada na então pacata Avenida Sete de Setembro ingressou no Colégio Estadual do Paraná e em 1948 em Engenharia na Universidade Federal do Paraná. O pai era professor na Polônia e a prioridade número um dele e da esposa era a educação dos filhos. Formaram uma médica e um engenheiro que ajudaria a transformar o local que elegeram para morar.

Seu primeiro emprego foi como topógrafo da Prefeitura e depois como chefe de Urbanismo. Por causa deste trabalho, conhecia a cidade como a palma da mão. Este período de atuação ficou marcado pela Lei de Zoneamento da cidade e pelo projeto do Mercado Municipal de Curitiba. Em seguida, no início dos anos 1960, foi para o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER). Lembrava com carinho da campanha de Ney Braga, comandada pelo engenheiro, para o governo do estado, feita com abordagem “porta a porta” e contato direto com os eleitores.

No portifólio, a construção da Rodovia do Café

Foi o responsável pela construção da Rodovia do Café, com o objetivo de ligar a região Noroeste do estado ao litoral, favorecendo o desenvolvimento do estado. Também fez parte do governo de Paulo Pimentel, mas decidiu sair por desentendimentos que mais tarde seriam solucionados entre eles. Na iniciativa privada, Saul presidiu por dez anos a indústria Klabin, atuou no grupo Prosdócimo e esteve à frente de seu escritório de engenharia.

Apesar de o novo zoneamento da cidade e da canalização do Rio Belém, que livrou Curitiba das constantes enchentes no Centro e Centro Cívico, serem amplamente conhecidos como os destaques de sua gestão como prefeito - de 1975 a 1979, indicado pelo governador Jayme Canet Júnior - o legado que mais o orgulhava era o incentivo ao respeito aos professores, além da criação de uma estrutura de escolas municipais de bairro que, segundo ele, poderia ser modelo para o país e segue germinando até os dias atuais.

Político, Saul Raiz trabalhou com Ney Braga e Jaime Lerner

Em mais um mandato de Ney Braga como governador em 1981, foi secretário de desenvolvimento municipal, com foco no desenvolvimento de cidades médias do estado, como Cascavel, Pato Branco, Apucarana, entre outras. Em 1982, candidatou-se ao governo, mas foi derrotado por José Richa. Saul foi também responsável pela região Sul do Brasil no Grupo de Integração de Política e Transporte do Banco Mundial. Nos anos 90, coordenou duas campanhas de Jaime Lerner. Mais recentemente, preferiu focar na iniciativa privada e limitar a atuação pública a eventuais consultas a administradores que demandavam sua experiência e visão.

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Uma das pessoas que lembra com carinho dos conselhos dele é o vereador Pier Petruzziello, que procurou o ex-prefeito há cerca de dez anos, antes de disputar sua primeira eleição. Como resposta, recebeu o apoio de um ponderado Saul, que o convidou a refletir bastante antes de tomar uma decisão. “Homens como ele, que estiveram à frente de seu tempo e enxergaram a cidade décadas para frente, merecem muito destaque. Para nós, políticos jovens, fica a perda de uma referência e ao mesmo tempo um legado que devemos olhar, refletir e nos inspirar”, comenta Pier.