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O Ministério Público do Paraná (MPPR) analisa um pedido feito pelo Sindicato Rural de Ponta Grossa que aponta possíveis irregularidades no projeto do novo Contorno Norte e Leste da cidade dos Campos Gerais paranaense. A obra está previsto no novo contrato de concessões de rodovias do Paraná e será executada pela concessionária Motiva.
A entidade aponta falta de transparência na apresentação do projeto, com possíveis irregularidades urbanísticas e técnicas no projeto do contorno rodoviário. Segundo o presidente do Sindicato Rural de Ponta Grossa, Gustavo Ribas, os questionamentos começaram ainda em 2025, quando o projeto passou a ser apresentado a lideranças locais, que afirmam que não houve detalhamento técnico suficiente.
“Começaram a apresentar o projeto sem transparência, com informações superficiais. Quando vieram à cidade, trouxeram apenas mapas e PDFs, sem apresentar dados técnicos consistentes para análise”, afirma Ribas.
De acordo com ele, entidades, representantes do setor produtivo e o próprio poder público local solicitaram acesso a estudos mais aprofundados, como sondagens e detalhamento do traçado, para permitir análise técnica e eventuais sugestões de ajuste. “Pedimos acesso aos dados técnicos para discutir alternativas de traçado com especialistas. Até hoje, nenhuma informação concreta foi repassada a entidades e lideranças”, diz.
Impactos ambientais e produtivos estão entre as preocupações
Entre os pontos levados ao MPPR, o sindicato destaca possíveis impactos sobre áreas de pesquisa, recursos hídricos e propriedades rurais. Um dos trechos previstos, segundo a entidade, corta áreas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o que pode comprometer pesquisas estratégicas para o agronegócio da região Sul.
“A Embrapa tem papel fundamental para o Paraná e outros estados do Sul. O traçado atinge áreas de pesquisa e pode gerar contaminações, o que preocupa muito”, afirma Ribas.
Também há alertas sobre interferências em nascentes e cursos d’água, como o rio Cará-Cará. Segundo ele, o projeto cruza diversas nascentes, o que pode reduzir a disponibilidade hídrica e afetar inclusive atividades industriais que dependem desses recursos.
No campo produtivo, a principal preocupação é com a fragmentação de propriedades rurais. O sindicato afirma que o projeto prevê nove acessos ao longo de cerca de 37 quilômetros de áreas produtivas, o que pode dificultar a logística no campo.
“Em alguns casos, haverá até cinco quilômetros entre passagens. Isso pode inviabilizar propriedades, porque o produtor precisa circular com máquinas, insumos e animais”, argumenta.
A entidade também afirma que não foram apresentados mecanismos claros para a passagem de máquinas agrícolas e animais entre áreas separadas pela rodovia.
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Sindicato diz apoiar obra, mas critica traçado
Apesar das críticas, o Sindicato Rural de Ponta Grossa afirma não ser contrário à implantação do contorno, considerado estratégico para o desenvolvimento da cidade, mas defende mudanças no projeto. A obra, estimada em cerca de R$ 1 bilhão prevê aproximadamente 42 quilômetros de extensão.
“Somos favoráveis à obra, que já chega atrasada. Mas ela precisa ser bem feita. Do jeito que está, não atende plenamente à sociedade. Parece uma solução pensada apenas para cumprir prazo”, diz Ribas.
Segundo ele, sugestões alternativas de traçado foram discutidas no âmbito do Conselho de Desenvolvimento de Ponta Grossa, mas não teriam sido incorporadas ao projeto.
O novo Contorno Norte e Leste foi concebido para desviar o tráfego de veículos pesados das áreas urbanas de Ponta Grossa, onde rodovias passaram a funcionar como avenidas, gerando congestionamentos e riscos de acidentes.
O projeto prevê dois eixos rodoviários, com cerca de 42 quilômetros de extensão e nove dispositivos de acesso controlado. A obra integra o pacote de concessões rodoviárias no Paraná e tem prazo contratual de até sete anos para conclusão.
Em nota, a concessionária Motiva Paraná afirma que não foi notificada e se pronunciará quando receber a comunicação por MPPR. A empresa administra 569 quilômetros de rodovias no estado, em 21 municípios, dentro de um programa de investimentos de R$ 16 bilhões ao longo de 30 anos.











