Fábio Marcon: abaixo-assinado contra Takayama já tem 120 assinaturas.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Eleito pelo Paraná, o deputado federal Hidekazu Takayama (PSC) ganhou projeção nacional no mês passado, ao se tornar líder da bancada evangélica na Câmara Federal. O parlamentar, no entanto, não é unanimidade nem mesmo dentro do próprio partido. O engenheiro mecânico Fabiano Marcon, de 36 anos, vem coletando adeptos a um abaixo-assinado, que pede que o deputado se afaste da presidência do diretório estadual do PSC* – ocupada por Takayama há mais de um ano.

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A mobilização, segundo Marcon, teve como motivação aspectos éticos e morais. É que, como Takayama é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) – em ação decorrente da “Operação Gafanhoto” –, o engenheiro filiado ao PSC acredita que o parlamentar não esteja em condições de representar os cristãos na Câmara. As ações - que correm sob segredo de justiça - envolvem supostos desvios, ocorridos por meio de funcionários fantasmas, na Assembleia Legislativa do Paraná, no período em que Takayama era deputado estadual.

Confira o que diz o deputado Hedekazu Takayama

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“Como um cara como esse, que é réu no Supremo, pode estar como nosso líder? Pra mim, ele não é líder nosso (...). O comportamento dele não é comportamento de um cristão”, disse Marcon. “A gente não está pedindo para que ele se entregue à polícia, mas para que, até em respeito aos filiados, que deixe a liderança, que peça licença”, completou.

Outra razão para o abaixo-assinado é o fato de Takayama ter votado a favor da inclusão de uma emenda no pacote que ficou conhecido como “Dez medidas contra a corrupção”. A emenda aprovada abre precedentes para que juízes e promotores sejam processados por crime de responsabilidade, em razão de suas atuações. Marcon disse que o voto de Takayama causou indignação entre os filiados do PSC do Paraná, que haviam coletado mais de 600 assinaturas em apoio às “Dez medidas”.

“Muita gente batalhou pela aprovação [do projeto original das ‘Dez medidas’] e vem um cara do próprio partido e vota contra. Ele [Takayama] jogou todo o trabalho fora. Foi tudo por água abaixo”, disse o engenheiro. “Todo mundo fala do Lula, mas seria bom que cada partido fiscalizasse a si mesmo. Os filiados de cada partido deveriam olhar para o próprio partido e corrigir o que está errado”, avaliou.

Até agora, o abaixo-assinado que pede o afastamento de Takayama da presidência do PSC do Paraná soma pouco mais de 120 nomes. Apesar disso, o documento não pôde ser entregue oficialmente ao diretório estadual. Isso porque as duas últimas reuniões do partido – presidido por Takayama – foram canceladas.

“Eu suspeito que foram canceladas por isso [por causa do abaixo-assinado], mas não posso garantir”, diz o autor da iniciativa.

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Um conservador

Marcon é casado e pai de um filho de seis anos. Católico de formação, ele diz ser bastante atuante na paróquia do Bom Pastor, bairro Vista Alegre, em Curitiba, e politicamente se define como um conservador. Acredita que se os políticos seguissem a Bíblia, não haveria corrupção.

“Se tiver valores iguais aos do Evangelho, a pessoa não vai fazer nada de errado. O conservador aceita as mudanças, mas essas mudanças têm que vir aos poucos. Se fala muito em liberdade, mas o que controla a liberdade são os valores. Os valores é que garantem que a pessoa não vá fazer algo errado.”

Seu ponto de vista ideológico vai ao encontro do que defende a bancada evangélica. Marcon é, por exemplo, contra o aborto e contra o que chama de “incentivo ao homossexualismo”. Condena a atuação do deputado Jean Willys (Psol), a quem diz querer defender “privilégios a minorias”. “O Jean Willys quer bancar leis que favorecem as minorias. A bancada evangélica não aceita, aí se acalora e a mídia explora isso.”

Há dois anos – antes de ingressar no PSC –, Marcon foi filiado ao Partido Progressista (PP) . “Eu e meu grupo de amigos não tínhamos muito espaço, então saímos. Escolhemos o PSC mais pelo nome, por ser um partido cristão”, conta. Apesar de atualmente desacreditar a legenda, Marcon afirma que pretende continuar atuando politicamente em partidos. “Eu quero ensinar isso para o meu filho. Não tem solução política fora da política.”

O que diz o deputado Takayama

Procurado pela reportagem, o deputado Takayama respondeu às perguntas por escrito. Sobre o processo que o envolve e corre no STF, o parlamentar apenas ressalta que ainda não há qualquer condenação contra ele. “Caso houvesse, nem poderia ser candidato, muito menos diplomado”, afirma Takayama em nota enviada por sua assessoria.

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O deputado também classifica como absurdas e injustas as acusações contra ele. “Tenho 50 anos de ministério cristão, e não tenho do que me envergonhar, tenho zelo pela obra de Deus. E pedir, ou concordar com qualquer pedido de afastamento das minhas atribuições sem nenhuma condenação, é aceitar a injustiça.”

Sobre o abaixo-assinado, Takayama diz não ter recebido, até o momento, qualquer comunicado de quem encabeça o movimento, mas afirma que pretende ir à justiça contra a iniciativa. “Irei adotar as medidas judiciais cabíveis, inclusive quanto à apuração de crimes de calunia, injúria e difamação contra mim, meu ministério, minha honra e imagem pública. Não tenho do que me esconder”, afirma Takayama, que atribui o pedido para seu afastamento a opositores.

O parlamentar ainda garante que está confortável na função de presidente do PSC. “Nem me passa pela cabeça acatar desejos de uma oposição, que não está preocupada com nada relacionado a postura cristã, mas apenas deseja levantar falso testemunho contra mim”, completa.

*Esse conteúdo foi alterado. Fabiano Marcon entrou em contato com a reportagem para informar que não pede a saída de Takayama também da liderança da bancada evangélica, como foi informado anteriormente.

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