| Foto: Reprodução/ Facebook

Cientista político, professor do Departamento de Ciências Econômicas da PUCPR e mestre pela London School of Economics, Másimo Della Justina é entusiasta da democracia, mesmo em relação àqueles que discordam dela. Para o especialista, os movimentos que atacam a Constituição de 1988 jamais tiveram apreço pelo texto cidadão. “Algumas pessoas nunca tiveram intenção de cumprir o que está escrito”, aponta. “Mas têm seu lugar ao sol”. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele fala ainda sobre renovação política e a participação do eleitor no pós-campanha.

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O ciclo 2015-2018 foi conturbado, com impeachment, denúncias e prisões. Vamos assistir uma renovação política em outubro?

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O triunfo do Direito, da lei, do Judiciário é bonito, faz parte da democracia, mas ele não indica necessariamente uma grande renovação política. Se acontecer, vai se dar mais na mente do eleitor, que se sente impelido a defender alguma bandeira. Tem essa questão atual da bipolarização. O que eu chamo de poder permanente é esse exercício de passagem lento. O impeachment foi um fato histórico, mas a política é feita de ciclos. Mesmo que não tivesse tido essa situação dramática, seria natural uma troca. As democracias parlamentares europeias têm alternância, os Estados Unidos também. Quem vigia o poder gera um desgaste natural em quem é vigiado. Os discursos soam ao eleitor como renovação constante, mas não é isso. As campanhas são formação de imagem para se obter maioria. Há até candidatos que não querem cumprir a Constituição. Há muito teatro. As campanhas evoluíram em relação à formação da imagem do candidato e desconstrução do oponente.

Os partidos impactados pela Operação Lava Jato vão sofrer?

O processo de desgaste dos partidos é bastante lento. Isso permite inclusive mudar a face para fingir uma reciclagem. Os manifestos e estatutos de todos os partidos são bonitos. O que costuma acontecer nas siglas é os mandões escandalizarem essa imagem. Mas há como reverter, botar caras novas. Os próprios partidos usam as legendas menores para compor a sua base, então alguns acabam migrando para elas, o que denota essa espécie de “partido permanente”.

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Essa será a primeira eleição sem financiamento privado. O fundo público é uma boa alternativa?

O financiamento público não me aborrece. Temos uma economia com um PIB de mais de R$ 6 trilhões. Não me parece exagerado separar R$ 2 bilhões para a eleição. Está no propósito do próprio pleito. Nós elegemos 65 mil pessoas para cuidar das áreas do setor publico, para ajudar a construir uma sociedade melhor, uma economia melhor para o setor privado. É natural que todos financiem esse esforço. Temos que acreditar na democracia. Os eleitos são os melhores entre os bons. Nós temos que fazer um esforço para que os melhores cheguem lá. Há muita demagogia por parte do eleitor. Por que não se candidata se é tão crítico? O financiamento público permite qualquer situação, independente de classe, renda, capacidade técnica.

Há um movimento de rejeição à democracia. Por quê?

Temos que partir do princípio de que somos uma sociedade dotada de muitas vozes. Há pessoas que não são democráticas por princípio. Que não estavam de acordo com o rompimento do período de exceção civil/militar. Somos mais de 200 milhões. Tem um percentual que simplesmente não quer, não acredita mais. A democracia não é conveniente economicamente para alguns. Mas houve um esforço conjunto naquela época para construir a nova Constituição, um texto cidadão. Mas algumas pessoas nunca tiveram intenção de cumprir o que está escrito. Agora essas pessoas enxergam oportunidade no descuido alheio para dizer “tá vendo, não funciona”. Acharam uma brecha, que é a corrupção, uma falha no sistema, para enaltecer o colapso da democracia. É difícil imaginar que todos na Noruega ou Finlândia sejam democratas. Tem aqueles que não suportam a democracia. E esse percentual usa a demagogia para dizer que tem que proibir o outro.

O que falta ao eleitor?

A política é um exercício muito bonito, nobre, por isso a sociedade tem partidos, porque é complexa e multicultural. Os partidos representam as faces da sociedade. Nesse contexto é preciso puxar a orelha do cidadão que não tem tempo para ser político e delega essa função a um representante. Todo deputado tem página na internet, telefone, e-mail, assessoria. Tem como ser alcançado. Há um pouco de preguiça no eleitor, falta de interesse.