A situação é tão crítica que até fila de pedestres para comprar gasolina em galões já são registradas nos poucos postos que ainda têm o combustível em Brasília.| Foto: André Dusek/ Estadão Conteúdo

A situação do abastecimento de combustíveis é crítica em 24 estados brasileiros, disse nesta sexta-feira (25) a Fecombustíveis. A entidade que representa os donos de postos diz que, a partir do momento em que o abastecimento for retomado, serão necessários três dias para que a situação seja normalizada. “O problema é que não vejo hoje a mínima perspectiva de solução para o problema”, diz o presidente da Fecombustíveis, Paulo Miranda, para quem o governo está “perdido”. 

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A situação é tão crítica que até fila de pedestres para comprar gasolina em galões já são registradas nos poucos postos que ainda têm o combustível. Segundo Miranda, apenas no Piauí, no Amazonas e no Pará ainda é possível encontrar combustíveis com facilidade. Nesses estados, o bloqueio às bases de distribuição começou mais tarde, por volta de quarta (22) ou quinta-feira (23).

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Nos outros 24, as entregas começaram a ser suspensas a partir do início da semana. “Mas, mesmo nesses que ainda têm combustível, deve começar a faltar a partir desta sexta”, alertou o executivo.

O Brasil tem hoje cerca de 42 mil postos de gasolina, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP). Miranda diz que o estoque médio dos postos brasileiros dura quatro dias. Em mercados mais próximos a refinarias, como São Paulo, pode ser menor.

“Mas no momento em que a imprensa alerta para o risco de falta, há uma corrida aos postos e as vendas dobram”, ressalta. “Um posto que vendia 10 mil litros por dia vai vender 20 mil e os estoques acabam mais rápido.”

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Em balanço parcial divulgado na manhã desta sexta, a Fecombustíveis disse que Bahia, Distrito Federal e Espírito Santo estão próximos de não ter mais combustíveis para abastecer a população. Nesses estados, já passa de 90% o percentual de postos sem estoque.

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A federação disse ainda que há problemas graves de abastecimento também em Minas Gerais e no Mato Grosso. Na região de Porto Alegre não há mais produtos, mas ainda é possível abastecer nos postos do interior do Rio Grande do Sul. Na cidade do Rio e na Baixada Santista, mais de 90% dos postos estão sem estoques.

A greve dos caminhoneiros foi iniciada na segunda (21), em protesto contra a escalada dos preços dos combustíveis. Nesta sexta (25), o presidente Michel Temer fez um pronunciamento para anunciar um plano de segurança para liberar as estradas parcialmente bloqueadas por caminhoneiros desde o começo da semana.

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O presidente disse que tomou a decisão já que a paralisação dos caminhoneiros continuou, apesar do acordado, na noite desta quinta (24), com entidades representantes. 

“O que preocupa a gente é que não estamos enxergando nenhuma inteligência por parte do governo. O governo está perdido, cada um fala uma coisa”, reclama Miranda, o presidente da Fecombustíveis. “Seria importante reunir todo mundo na mesma mesa, como uma sala de crise, para que as decisões sejam conjuntas.”

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Posto em Brasília tem fila até de pedestres para abastecer

“Tá acabando, tá acabando”, grita um homem na fila que se forma ao lado das bombas de combustível de um posto de gasolina próximo à Universidade de Brasília (UnB). A cena seria comum ao quinto dia da greve dos caminhoneiros no país não fosse um fato: ali, a fila não é de carros, mas de pedestres.

Em meio à escassez de combustível, o proprietário Rodolfo Moreira decidiu passar a vender o pouco que ainda restava no posto em galões e garrafas, de até no máximo 5 litros por pessoa. “Estamos fazendo isso para ajudar a população, porque a maioria está sem combustível para chegar em casa”, diz. “Isso não é rotineiro, mas as pessoas não têm como voltar para casa.” Desde quinta-feira (24), a maioria dos postos de Brasília está sem combustível.

A alegria de encontrar um posto aberto, porém, durou pouco. “Bem na minha vez. Que maravilha”, disse um homem ao ver que o combustível tinha acabado. Antes dele, o último a conseguir “abastecer” encheu uma garrafa de 2 litros – mas só pela metade.

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Para Juliana Santos, a medida de vender o combustível em galões foi “solidária”. “Mas seria melhor se estipulassem um valor de cada um, porque comprar o galão e ter que tirar depois dá mais trabalho. Mas pelo menos vou voltar para casa”, diz.

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Os poucos postos com combustível na cidade continuaram com fila nesta sexta-feira. E põe fila nisso. No posto Jarjour, na Asa Sul, a fila ia da quadra 210 até a altura da quadra 202 – cerca de 5 quilômetros ao todo. Ainda assim, a maioria das bombas já tinha o aviso: “com greve de caminhoneiros: sem gasolina e sem álcool”.

Na fila desde 7h50 da manhã, o servidor público Rui Marques, 32 anos, conseguiu chegar perto das bombas só às 13h40, após quase seis horas de espera. “Cheguei no limite da reserva [de combustível] do carro. Nem fui trabalhar hoje para poder ficar na fila”, conta.

Já o farmacêutico Guilherme Gabriel, 31 anos, também na fila, fazia as contas para ver se conseguiria chegar a tempo de abastecer. À sua frente, havia ainda cerca de 20 carros -e olha que era um dos primeiros. Enquanto isso, funcionários avisavam que a gasolina já estava quase no fim.

“Estou desde 8h aqui. E ainda tem risco de não chegar a tempo”, diz. “Entendo o direito de greve como legítimo, mas o governo pressionado como está, em época de eleição, pode tomar uma medida pior para as gerações futuras”, afirma, referindo-se ao acordo feito pelo governo que prevê custos de R$ 5 bilhões para garantir que os preços do diesel sejam mensais e não diários até o fim do ano.