Bolsonaro e Lula no Nordeste: ambos miram o eleitor nordestino.| Foto: Palácio do Planalto/Ricardo Stuckert
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Líderes das pesquisas eleitorais para 2022, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm centrado suas ações e articulações nos estados do Nordeste. Por um lado, Bolsonaro busca crescer na região, enquanto o líder petista tenta manter o favoritismo que o seu partido mantém há mais de uma década entre os nordestinos. Dentre as regiões brasileiras, o Nordeste é o segundo maior colégio eleitoral, com quase 40 milhões de eleitores, atrás apenas do Sudeste.

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Bolsonaro reforçou suas idas ao Nordeste neste ano e já percorreu todos os estados da região entre janeiro a agosto. Até o momento, foram 19 agendas, que já superam as 15 viagens feitas por ele em 2020.

Sempre acompanhado de ministros como Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Tarcísio Freitas (Infraestrutura), o presidente tem apostado nas entregas de obras e na ampliação de programas sociais para reduzir a base do PT no Nordeste.

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Desde o início do mandato, em 2019, Bolsonaro já entregou 4,7 mil obras e pouco mais de 210 mil moradias na região. De acordo com dados do Palácio do Planalto, foram investidos R$ 3,5 bilhões apenas em obras hídricas para o Nordeste, numa ofensiva para combater os efeitos da seca – rotineiras na região. E recentemente assinou um acordo que prevê a construção de 2 mil cisternas em escolas de zona rural de 350 cidades do Nordeste ao custo de R$ 60 milhões.

“Nós, aqui, às vezes não damos muito valor à água, temos em abundância. Lá [no Nordeste], quando você vê um velho nordestino, uma senhora de idade, com pele enrugada, entrando debaixo de uma bica d’água, não tem preço a alegria daquela pessoa. Parece que ganhou na Mega-Sena”, acenou Bolsonaro.

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Bolsonaro aposta em entrevistas a rádios e no novo Bolsa Família

Em outra frente, Bolsonaro tem se dedicado a conceder entrevistas para rádios regionais para alavancar sua popularidade pelo país. De acordo com a agenda divulgada pelo Palácio do Planalto, entre o mês de julho e a primeira quinzena de agosto, o presidente falou com pelo menos 15 emissoras locais de várias regiões do país.

Em rádios do Nordeste, Bolsonaro tem apostado na divulgação do programa Auxílio Brasil. O programa irá rebatizar o Bolsa Família e irá contar com um reajuste dos valores pagos atualmente. Aliados do governo admitem que a ideia é dissociar o programa de Lula e do PT, aproveitando o sucesso do auxílio emergencial, que já é associado ao governo Bolsonaro.

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Como o Nordeste é uma das regiões com mais pobres no país, o Bolsa Família (e consequentemente o Auxílio Brasil) é relevante para aumentar a popularidade de Bolsonaro na região. Dos atuais 14,2 milhões de beneficiários do Bolsa Família, cerca de 7 milhões são nordestinos, segundo o Ministério da Cidadania.

“Vamos reajustar em no mínimo 50%, porque houve inflação. Não vou negar que houve aumento do preço do gás, da gasolina, do óleo, do feijão, do ovo, da galinha. No mundo todo o povo passou a consumir mais”, disse Bolsonaro em entrevista à Rede Nordeste de Rádio no final de julho.

Na mesma entrevista, o presidente confirmou a estratégia de conversar com emissoras locais. “Resolvemos tomar essa medida. Todo dia, de segunda a sexta-feira, falaremos com uma rádio, não interessa qual seja o alcance dela, sendo questionado com qualquer pergunta. Estamos à disposição para levar informação precisa ao nosso público”, disse o presidente.

As entrevistas a rádios locais e regionais também tem sido concedidas por Lula, especialmente no Nordeste como foco. Também à Rede Nordeste de Rádio, o petista criticou a estratégia de Bolsonaro, o que foi rebatido pelo presidente: “Se ele [Lula] está criticando, é sinal que estamos no caminho certo. É um estímulo que ele dá para mim”.

Em falas para emissoras da Paraíba e Bahia, Bolsonaro destacou obras públicas como ferrovias e pavimentação de estradas. Além disso, investiu no discurso anticorrupção para se contrapor a Lula.

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Minha Casa Minha Vida foi repaginado, com reforço para o Nordeste

Além de repaginar o Bolsa Família, Bolsonaro também rebatizou o “Minha Casa Minha Vida” para “Minha Casa Verde Amarela” e reduziu a taxa de juros do programa habitacional para estados do Nordeste e do Norte.

De acordo com o governo, Pernambuco foi o estado que teve o maior número de residências entregues nos últimos dois anos e meio. Foram 42,4 mil. Na sequência, vêm a Bahia, com 33,4 mil moradias; e a Paraíba, com 30,3 mil.

No mês passado, o Ministério do Desenvolvimento Regional liberou de R$ 34,1 milhões para continuidade de obras de saneamento básico em cinco estados do Nordeste: Bahia, Ceará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte. Recentemente a pasta comandada por Rogério Marinho teve um desbloqueio de R$ 382 milhões no orçamento, que poderão ser executados ainda em 2021.

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Em caravana pelo Nordeste, Lula tenta se aproximar do Centrão 

Enquanto Bolsonaro aposta em viagens, entrevistas, programas e obras para atrair o eleitorado nordestino, Lula tem investido na construção de alianças políticas locais para reforçar seu palanque em estados do Nordeste, além de discutir sobre a pandemia e a retomada da economia.

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Em caravana pela região nos últimos dias, Lula tem cortejado prefeitos e governadores para formar alianças e tentar neutralizar o avanço de Bolsonaro na região.

Em visita a Pernambuco, o petista buscou uma reaproximação com integrantes do PSB, legenda que administra o estado há anos e que também comanda a prefeitura do Recife. No ano passado, na disputa pela capital pernambucana, PT e PSB se enfrentaram no segundo turno com os primos Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB). O duelo, vencido por Campos, foi marcado por ataques de ambos os lados.

Em um jantar entre lideranças dos dois partidos, Lula argumentou que tanto o ex-governador Miguel Arraes (1916-2005) como o ex-governador de Eduardo Campos (1965-2014) já enfrentaram o PT em eleições e nem por isso ele deixou de gostar deles. "Tivemos a oportunidade de deixar claro que, em 2022, precisamos de uma frente ampla do campo progressista para derrotar Bolsonaro e fazer o Brasil voltar a crescer”, afirmou o governador Paulo Câmara (PSB).

Além da recomposição com o PSB, Lula tem feito acenos para lideranças do MDB no Nordeste. O ex-presidente esteve com o deputado federal Raul Henry (MDB-PE), e sinalizou que pretende conversar com o presidente nacional do MDB, deputado Baleia Rossi (SP). Desde que teve suas condenações anuladas pelo STF, Lula tem buscado caciques emedebistas como os senadores Renan Calheiros (AL) e Jader Barbalho (PA), a ex-governadora Roseana Sarney (MA) e o ex-senador Eunício Oliveira (CE).

Ainda em Pernambuco, o ex-presidente petista recebeu os deputados Dudu da Fonte (PP), Silvio Costa Filho (Republicanos) e André de Paula (PSD). O trio busca viabilizar candidaturas ao Senado, mas estão em legendas do Centrão, que dão sustentação ao governo Bolsonaro. Mas, no caso de André de Paula, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, já sinalizou que o partido deverá ter candidatura própria ao Palácio do Planalto em 2022.

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Lula desembarcou na quarta-feira (18) na capital do Piauí, Teresina, onde aproveitou para criticar a aliança do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, com o governo Bolsonaro. Nogueira é senador pelo Piauí e presidente do PP, partido que lidera o Centrão, e pretende disputar o governo do seu estado no ano que vem.

“Eu não sei por quanto tempo o Ciro ficará com Bolsonaro. Não tenho nenhuma certeza. E acredito que esse casamento será mais curto do que eles imaginam”, disse o petista.

Historicamente Ciro Nogueira sempre esteve aliado com os petistas no Piauí. Líderes do PT admitem que a aliança do presidente do PP com Bolsonaro não é assegurada nos estados do Nordeste, e isso se provará com os acordos fechados por Lula na região.

O petista disse que Bolsonaro levou Nogueira para o seu governo para “salvar a articulação política dele com o Centrão”, mas que esse comportamento, em sua visão, não deve garantir “a sustentação que ele pensa que tem durante o processo eleitoral”. Lula disse também que tem se reunido com o partido de Nogueira, com quadros de diferentes estados, em encontros em São Paulo.

Em Teresina, o petista ainda afirmou que não teme uma terceira via nas eleições de 2022. Em um hotel da capital piauiense se reuniu com lideranças de nove partidos com a presença do governador Wellington Dias (PT): MDB, PSD, PCdoB, PL, PTB, PSB, Solidariedade, Cidadania, além da bancada do PT no estado. Parte destas siglas discutem, nacionalmente, a viabilidade de uma candidatura de de centro como alternativa à polarização entre Bolsonaro e Lula.

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Além de Pernambuco e Piauí, a atual viagem de Lula ao Nordeste ainda inclui o Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia.

Entrevistas e outras visitas ao Nordeste

Assim como Bolsonaro, Lula também tem apostado nas entrevistas para rádios locais como forma de ampliar sua popularidade no Nordeste.

Nos últimos dias, o petista falou com emissoras da Bahia, Pernambuco, Sergipe, Piauí, Rio Grande do Norte e Pará (este último, estado do Norte). Lula tem revezado essas entrevistas com outras para veículos estrangeiros, como o jornal inglês The Guardian, o francês Le Monde e o canal russo Russia Today.

"Sabem por que eu dou entrevista em pé?! É pra provar que eu tô com saúde e com muita disposição. Inclusive eu tô aqui na academia, fazendo meu exercício diário", disse o petista durante entrevista à Jovem Pan de Sergipe.

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