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Op. Compliance Zero 6

Bicheiros, milicianos e policiais formavam grupo de Vorcaro para ameaçar desafetos, indica PF

Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro, banqueiro do liquidado Banco Master. (Foto: reprodução/Youtube Esfera Brasil)

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A investigação da Polícia Federal que levou à deflagração da sexta fase da Operação Compliance Zero, na manhã desta quinta-feira (14), revelou que o grupo formado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, para ameaçar e coagir desafetos era formado por seu pai, Henrique Moura Vorcaro, policiais aposentados ou cooptados, operadores do jogo do bicho e milicianos.

A revelação consta no relatório da Polícia Federal que embasou as ações desta manhã e que levou à prisão de Henrique Moura e ao afastamento das funções de uma delegada e uma agente policial. Ao todo, a autoridade cumpre seis mandados de prisão e 17 de busca e apreensão nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

“Pelas características já identificadas, a autoridade policial ainda acrescenta ser plausível inferir que esse braço local é formado por operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais”, escreveu Mendonça no despacho a que a Gazeta do Povo teve acesso.

A reportagem procurou a defesa de Daniel Vorcaro para se pronunciar sobre as novas revelações da Polícia Federal e aguarda retorno.

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O grupo era chamado de “A Turma” e foi classificado pelo ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), como uma “milícia privada” de Vorcaro. Além do banqueiro, faziam parte o policial federal aposentado Marilson Roseno e o aliado Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” – ele tentou se matar na prisão horas após de ser detido e morreu dias depois.

A existência do grupo foi revelada durante a deflagração da terceira fase da Operação Compliance Zero, em março deste ano, em que Vorcaro pedia represálias contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, e até mesmo de funcionários de suas residências. Após sua primeira prisão, em novembro do ano passado, seu pai, Henrique Moura Vorcaro, passou a liderar o grupo.

“Henrique Moura Vorcaro é apontado como demandante, beneficiário e operador financeiro do núcleo 'A Turma'. [...] Agente que atuava em conjunto com o filho, em posição de colaboração direta, como solicitador e beneficiário de serviços ilícitos prestados pelo grupo, além de exercer função própria e autônoma na engrenagem financeira voltada à sua sustentação”, escreveu Mendonça.

Segundo a investigação, a “milícia privada” de Vorcaro custava R$ 1 milhão ao mês. Além de ameaçar e coagir desafetos, "A Turma" atuava ainda na invasão de sistemas sensíveis sigilosos de autoridades do Brasil e do exterior, como Polícia Federal, Ministério Público Federal, FBI e Interpol.

No mesmo relatório, Mendonça cita "robustos indícios da existência de pessoas ainda não identificadas pertencentes à organização", e que o grupo tem uma "altíssima capacidade de reorganização da organização criminosa, já demonstrado pela persistência de suas atividades mesmo após a deflagração de sucessivas fases anteriores da operação".

Por conta disso, o ministro decretou a prisão preventiva também do policial federal da ativa Anderson Wander da Silva Lima, que atua na Superintendência Regional do Rio de Janeiro; David Henrique Alves, Victor Lima Sedlmaier e Rodrigo Pimenta Franco Avelar, que fariam parte de um grupo chamado de "Os Meninos" para ataques cibernéticos e monitoramento digital ilegal; e Manoel Mendes Rodrigues, empresário fluminense apontado como operador do jogo do bicho a serviço de Vorcaro.

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Influência mesmo preso

Em relação ao policial federal aposentado Marilson Roseno, como foi revelado durante a terceira fase da Operação Compliance Zero e reforçado agora, a Polícia Federal o aponta como líder operacional d'"A Turma" de Vorcaro, exercendo um papel central na coordenação das atividades ilícitas, com capacidade de articulação, comando e acesso a informações sensíveis, inclusive após sua prisão.

A autoridade pede que Roseno seja transferido para o Sistema Penitenciário Federal, já que ele continua com forte influência mesmo estando detido em uma unidade prisional comum.

"Mesmo após sua prisão, Marilson teria continuado recebendo informações
sigilosas sobre diligências policiais realizadas fora do cárcere, demonstrando a existência de uma rede externa ainda ativa e sua capacidade de manter comunicação e influência sobre integrantes do grupo em liberdade", pontua o relatório.

As investigações também apontam que Marilson, quando estava na ativa na Polícia Federal, utilizou seu acesso institucional ao sistema e-Pol para
"realizar consultas relacionadas a pessoas e empresas de interesse do
grupo, valendo-se de sua experiência e vínculos internos para abastecer a
organização com informações reservadas".

Além disso, diz a investigação, há indícios de que "continuou recebendo pagamentos e mantendo estrutura financeira vinculada ao esquema mesmo após o avanço das investigações, o que reforça sua posição de relevância dentro da organização".

Policiais corrompidos por Vorcaro

Segundo a investigação da autoridade, a “milícia privada” de Vorcaro contava com a participação de mais dois policiais federais aposentados – Sebastião Moreira Júnior e Francisco José Pereira da Silva – e o agente da ativa Anderson Wander da Silva Lima, lotado na Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

A apuração aponta que Lima recebia propina de Marilson Roseno para acessar os sistemas sigilosos da Polícia Federal pelo menos desde agosto de 2023, sendo procurado constantemente pelo policial federal aposentado aliado de Vorcaro.

A Polícia Federal cita um "padrão de conduta estável, voltado à exploração funcional de acesso institucional em benefício de interesses privados e ilícitos".

"Anderson Wander da Silva Lima teria desempenhado papel de agente infiltrado funcionalmente na Polícia Federal em benefício da organização criminosa. [...] Trata-se, portanto, de atuação que, em juízo de delibação, revela abuso continuado da função pública, violação de sigilo funcional e inserção orgânica no núcleo policial-informacional da 'Turma'", conclui Mendonça no relatório.

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Bicheiro a serviço de Vorcaro

A decisão do ministro André Mendonça aponta que a organização liderada por Daniel Vorcaro utilizava, ainda, operadores do jogo do bicho como uma força de choque para realizar intimidações e ameaças presenciais contra desafetos. O documento identifica a participação de policiais e bicheiros que atuavam de forma coordenada para garantir os interesses do núcleo central do grupo.

Entre eles, segundo cita, está o empresário fluminense Manoel Mendes Rodrigues, apontado pela investigação como líder de um braço local de Vorcaro no Rio de Janeiro. “Ele surge como elo entre o comando central da organização e a força local empregada para intimidação física e constrangimento direto de alvos”, escreveu Mendonça.

A Polícia Federal aponta que a atuação de Rodrigues é “particularmente grave” ao projetar a atuação do grupo para além do círculo imediato do policial federal aposentado e dos demais identificados, “revelando um desdobramento territorializado e com potencial uso de força privada ou paramilitar em favor dos interesses da família Vorcaro”.

"A autoridade policial assinala que esse braço operacional se voltava tanto à execução de intimidações presenciais quanto à obtenção ilícita de informações sigilosas e ao acompanhamento de desafetos de Daniel Vorcaro", diz o relatório.

"Os Meninos"

A nova fase da operação Compliance Zero revelou um suposto braço cibernético ligado a Daniel Vorcaro que era usado para promover invasões digitais e monitoramento ilegal de alvos considerados de interesse da organização. O grupo “Os Meninos” era liderado por David Henrique Alves e teria atuado para derrubar perfis em redes sociais de críticos ao banqueiro. A apuração aponta que ele recebia cerca de R$ 35 mil por mês.

Os investigadores apontam que o grupo tinha perfil “eminentemente tecnológico” e seria responsável por ataques digitais, invasões telemáticas, monitoramentos ilegais e derrubada de contas em plataformas online. Segundo a corporação, David era encarregado de recrutar operadores com perfil hacker para executar ações ilícitas em ambiente virtual.

“A imputação é precisa ao situar David como responsável pela célula que viabilizava, no plano digital, aquilo que “A Turma” fazia no plano presencial: neutralizar, intimidar, constranger ou vigiar alvos de interesse da organização”, escreveu Mendonça.

No último dia 4 de março, durante a terceira fase da operação Compliance Zero, David foi flagrado dirigindo o carro de Sicário enquanto transportava computadores, notebooks, caixas e malas, em uma movimentação interpretada pela Polícia Federal como tentativa de fuga e possível ocultação ou destruição de provas. Na mesma data, Sicário e Vorcaro foram presos preventivamente pela Polícia Federal.

Para os investigadores, a atuação de David ultrapassava a condição de colaborador secundário e assumia “feição central e diretiva no âmbito do núcleo denominado ‘Os Meninos’”. Ainda conforme a investigação, o grupo atuava sob ordens de Vorcaro e gerenciamento de Sicário para atingir pessoas críticas ao ex-banqueiro nas redes sociais.

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