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Bolsonaro participou nesta quarta-feira (10) de um jantar de confraternização da representantes de países muçulmanos. Foto: Alan Santos/PR
Bolsonaro participou nesta quarta-feira (10) de um jantar de confraternização da representantes de países muçulmanos. Foto: Alan Santos/PR| Foto: Alan Santos/PR

Foi em clima de “deixa disso” que autoridades brasileiras e embaixadores de países muçulmanos deixaram o jantar que ocorreu nesta quarta-feira (10) na Confederação Nacional da Agricultura (CNA), organizado para desfazer o mal estar com islâmicos criado ao redor do realinhamento do Brasil com Israel.

Falando à imprensa ao lado do embaixador da Palestina, Ibrahim Alzeben, na saída do jantar, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o presidente da CNA, João Martins, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmaram que o Brasil é um país aberto ao comércio com todos os países do mundo.

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Nas entrelinhas, porém, a questão da transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv não pareceu estar resolvida. No discurso que fez aos presentes ao jantar – dos 41 convidados, só não compareceram os representantes de Albânia, Benin, Mali, Suriname e Emirados Árabes Unidos –, a ministra Tereza Cristina não citou a questão da embaixada. Preferiu apostar na agenda positiva.

“Hoje, um milhão e meio de brasileiros professam a fé revelada pelo mensageiro Maomé, e muitos milhões mais descendem de imigrantes de países que integram o universo cultural islâmico”, afirmou durante o jantar.

Questionado sobre a embaixada durante a coletiva de imprensa, o chanceler Ernesto Araújo não se manifestou sobre o tema. Já Alzeben, que é decano dos embaixadores dos países árabes no Brasil, aproveitou para mandar um recado ao país: “Este conflito não é do Brasil, fiquem onde vocês estão. Fiquem longe deste conflito e vocês ganharão o mundo”, afirmou.

Iniciativa do jantar partiu de exportadores e lideranças muçulmanas

A iniciativa do jantar desta quarta-feira começou a ser costurada ainda antes da viagem do presidente a Israel pela ministra da agricultura, pela CNA e pela Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (Fambras). Na quinta-feira (4), no Fórum do Agronegócio 2019, em Londrina (PR), Tereza Cristina havia dito que Bolsonaro tinha concordado em comparecer ao encontro.

“O mercado islâmico, os muçulmanos e os árabes, são grandes compradores de milho, soja, proteína animal. É um mercado importantíssimo para esse segmento. Houve um mal-estar, que tenho tentado contornar, recebendo todos os embaixadores no ministério, conversando, explicando”, declarou na ocasião.

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Desde que Bolsonaro declarou em campanha que deslocaria a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alguns países árabes reagiram e o setor exportador começou a temer retaliações nas exportações brasileiras (leia mais abaixo).

Junto ao vice-presidente Hamilton Mourão, Tereza Cristina liderou a ala do governo que se opôs à mudança, o que acabou resultando no anúncio da abertura de um escritório comercial em Jerusalém Ocidental, e não na transferência da embaixada. O presidente e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), porém, sinalizaram que a mudança da embaixada não está descartada até o final do mandato, em 2022. Líderes dos evangélicos, um dos principais setores de apoio a Bolsonaro, também já sinalizaram que não pretendem desistir do pleito.

Itamaraty começa a trabalhar na visita de Bolsonaro aos parceiros árabes

O chanceler Ernesto Araújo, que apoiou o realinhamento com Israel desde a indicação de seu nome ao cargo, suavizou suas declarações desde que o governo começou e, ainda durante a viagem presidencial a Israel, afirmou que Bolsonaro deve visitar parceiros árabes.

Na última quinta-feira (4), em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores (CRE), Araújo disse que a viagem poderia acontecer ainda no primeiro semestre e que Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são destinos prováveis.

Diplomatas que cuidam de perto do tema, no entanto, acham “difícil” que a viagem aconteça antes do fim do semestre. Entre os dias 5 de maio e 4 de junho, os muçulmanos estarão no período de jejum do Ramadan, mês sagrado do calendário da religião. A partir de junho, a corte saudita entrará nos seus três meses anuais de férias, paralisando as atividades de Estado, o que deve empurrar a data mais provável da viagem para outubro.

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Outra questão que tem preocupado os diplomatas é garantir que Bolsonaro visite tanto Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, líderes do eixo sunita, e o Catar, que está com as relações rompidas com os tradicionais aliados desde 2017. A ideia do ministério das relações exteriores é não tomar parte na disputa, mais um capítulo da queda de braço mais ampla entre Arábia Saudita e Irã.

O principal objetivo da diplomacia brasileira, em um primeiro passo do aprofundamento da relação com os países árabes, é atrair os fundos de investimentos dos sauditas e emiráticos, que estão entre os mais rentáveis do mundo.

O Brasil também vê oportunidades de investimentos em infraestrutura, aproveitando a expertise dos emiráticos na área de logística e de portos. Só em reexportações, aproveitando esse ativo, os Emirados Árabes Unidos reexportaram mais de US$ 58 bilhões em 2018. Para se ter uma ideia, no mesmo ano o Brasil exportou US$ 64 bilhões para China, nosso principal parceiro comercial.

Até o momento, o Itamaraty diz que não houve nenhuma reação veemente de lideranças árabes e muçulmanas à aproximação entre Brasil e Israel. Até o momento, apenas o movimento islâmico radical Hamas – considerado terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, mas não pelo governo brasileiro – e a Autoridade Palestina se manifestaram sobre assunto.

Os palestinos, contudo, fizeram-no em termos brandos, ressaltando que se opõem apenas ao reconhecimento integral de Jerusalém como capital de Israel, já que pleiteiam a parte oriental da cidade como capital do Estado palestino.

De acordo com o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, a orientação da Autoridade Palestina é aguardar os desdobramentos da viagem de Bolsonaro a Israel. O principal pedido dos palestinos é que o Brasil mantenha o equilíbrio na disputa entre o país e Israel, abrindo uma representação comercial também na parte oriental de Jerusalém e não abandonando a posição tradicional do Brasil no conflito.

O Brasil apoia o consenso internacional sobre o assunto desde o plano de partilha entre Israel e Palestina, estabelecido pela Assembleia Geral da ONU, em 1947. Depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o país se alinha às resoluções, inclusive do Conselho de Segurança da ONU, que condenam a ocupação israelense sobre territórios da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Já os israelenses, desde 1980, estipulam por lei Jerusalém “unida e indivisível” como capital de Israel, uma ação também condenada pela comunidade internacional.

Itamaraty ainda trabalha com cenário de realinhamento no Golfo

Desde que o Irã foi percebido como uma ameaça nuclear pelo eixo sunita dos países árabes, as lideranças dos países do Golfo parecem estar fazendo um esforço de aproximação informal com Israel, já que os países ainda aderem à Iniciativa Árabe para a Paz, lançada em 2002 e ratificada em 2007 e 2017. Formalmente, os árabes propõem o fim do conflito com Israel condicionada à retirada do país dos territórios palestinos ocupados – inclusive Jerusalém Ocidental, depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Nos últimos anos, porém, lideranças árabes têm dado sinais positivos em relação a Israel. Dois exemplos são o fato de a Arábia Saudita ter autorizado voos partindo de Israel a sobrevoarem seu espaço aéreo pela primeira vez em 2018 e os Emirados terem recebido delegações israelenses e, durante o torneio mundial de judô, a bandeira de Israel ter sido hasteada no país. Na prática, porém, os árabes sunitas já cooperam em matéria de defesa e inteligência com Israel e têm especial interesse na cooperação em matéria de ciência e tecnologia.

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A percepção do Itamaraty é que os Estados Unidos apoiam informalmente essa aproximação, principalmente pelo apoio à formação da Aliança Estratégica do Oriente Médio (Mesa, na sigla em inglês), uma espécie de OTAN árabe. Por enquanto, a iniciativa está no nível de conversas e consultas apenas. Um marco dessa aproximação foi a Conferência de Varsóvia para Promover um Futuro de Paz e Segurança no Oriente Médio, patrocinada pelos Estados Unidos e pela Polônia e ocorrida em fevereiro.

A principal intenção da reunião era o isolamento do Irã, que se alinha com a Rússia nas disputas da região. Estiveram presentes na reunião patrocinada pelos americanos: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Marrocos, Omã, Barein, Tunísia, Egito, Jordânia, cujos representantes se reuniram com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que também se encontrou com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Foi a primeira vez que um ministro das relações exteriores participou de um evento do tipo, ocorrido fora dos marcos da ONU.

Realinhamento com Israel preocupa exportadores

A possibilidade de retaliações comerciais por parte de países árabes e muçulmanos preocupa principalmente os exportadores de proteína halal – que segue regras rígidas de manejo de acordo com preceitos da religião muçulmana. Segundo dados da Câmara de Comércio Brasil-Países Árabes, os países árabes responderam por 31,4% das compras de proteína halal brasileira em 2017. No mesmo ano, o Brasil forneceu 51,9% de todas as compras desses produtos nos mesmos mercados.

Entre os países árabes, os maiores compradores do Brasil são Egito (US$ 2,13 bilhões em exportações em 2018), Arábia Saudita (US$ 2,1 bilhões), Emirados Árabes Unidos (2 US$ bilhões) e Argélia (US$ 1 bilhão), todos alinhados ao eixo sunita. Em 2018, a exportação total do Brasil para os países árabes foi de US$ 11,5 bilhões e a Câmara de Comércio trabalha com a perspectiva de que essa cifra alcance US$ 20 bilhões em 2022.

Considerando ainda os países muçulmanos, cujos representantes também estiveram no jantar desta quarta-feira, as exportações brasileiras já passam dos US$ 20 bilhões. O Irã, rival da Arábia Saudita, comprou US$ 2,3 bilhões do Brasil no ano passado. Ainda entre os países com larga maioria de muçulmanos, o Brasil exportou US$ 5,5 bilhões para Turquia, Indonésia, Paquistão e Bangladesh. A Índia, embora tenha pouco menos de 15% da população de muçulmanos, tem a terceira maior população dessa religião no mundo. Em 2018, o Brasil exportou US$ 3,9 bilhões para o país.

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