Greve dos caminhoneiros em 2018, na Via Anchieta próximo da entrada para o Rodoanel. São Bernardo do Campo. Fotos: Roberto Parizotti/Fotos Públicas| Foto: R.Parizotti

Horas depois de anunciar o aumento do preço do diesel, na noite da quinta-feira (11), a Petrobras voltou atrás e informou que manterá "por mais alguns dias" o preço praticado desde 26 de março, quando mudou sua política de reajustes. O recuo foi interpretado como uma ingerência política do presidente Jair Bolsonaro para evitar uma nova greve de caminhoneiros. Na manhã desta sexta-feira (12), o vice-presidente Hamilton Mourão confirmou que a decisão foi de Bolsonaro, mas assegurou que foi um fato isolado.

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Ainda assim, as ações da Petrobras estão em forte queda na Bolsa de Valores de São Paulo e Nova York; e a cotação do dólar subiu – dois sinais de desconfiança do mercado em relação à adoção da agenda liberal prometida pelo governo.

No mês passado, diante do risco de nova greve dos caminhoneiros, a Petrobras anunciou que os preços do diesel nas refinarias, que correspondem a cerca de 54% do total pago pelo consumidor, passarão a ser reajustados "por períodos não inferiores a 15 dias".

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OPINIÃO: Por medo dos caminhoneiros, ‘dilmonomics’ volta ao preço do diesel

Na quinta, exatos 15 dias úteis depois do anúncio, a Petrobras anunciou reajuste de 5,7%. O litro passaria de R$ 2,1432 para R$ 2,2662. A alta seria a maior desde que Bolsonaro assumiu o governo. Até então, a maior alta havia sido de 3,5%, registrada em 23 de fevereiro. Com exceção desses dois casos, os preços variaram em intervalos de 1% a 2,5%.

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À noite, no entanto, a Petrobras divulgou nota afirmando que "em consonância com sua estratégia para os reajustes dos preços do diesel divulgada em 25/3/2019, revisitou sua posição de hedge e avaliou ao longo do dia, com o fechamento do mercado, que há margem para espaçar mais alguns dias o reajuste no diesel". A empresa afirmou ainda que manterá o alinhamento com o Preço de Paridade Internacional (PPI). A nota não dá outras informações sobre os motivos que levaram ao adiamento do reajuste.

Mourão fala em bom-senso para não repetir Dilma

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, em entrevista nesta quinta à Rádio CBN, afirmou que o recuo da Petrobras foi uma determinação do presidente Jair Bolsonaro, mas assegurou que foi um caso "pontual". Mourão disse crer em bom senso e que não se repetirá a política de preços adotada do governo Dilma Rousseff (PT), quando o governo interferia na Petrobras para manter o preço dos combustíveis e controlar a inflação.

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"Toda decisão tem fatores positivos e negativos. Eu não tenho domínio dos fatos todos que levaram o presidente a tomar essa decisão. Eu não sei quais são as pressões que ele estava sofrendo ou a visão que ele tinha do que poderia acontecer nesse exato momento com esse aumento um pouco maior do diesel e que obviamente o levou a tomar essa decisão", disse Mourão. "Tenho absoluta certeza de que ele não vai praticar a mesma política da ex-presidente Dilma Rousseff no tocante à intervenção do preço do combustível e da energia."

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Mourão disse ainda acreditar que esse é um fato isolado; e não confirmou que a decisão tenha relação com a possível nova greve dos caminhoneiros – embora acredite que esse tenha sido o motivo. "Eu tenho visto alguns dados que tem me chegado da pressão do lado dos caminheiros. Acredito que o presidente está buscando a melhor solução para equacionar o problema", afirmou.

O vice-presidente disse ainda que há uma contradição de um governo que se autodenomina como liberal na economia fazer uma interferência na política de preços de uma estatal. "Em tese é."

Caminhoneiros comemoram

Na manhã desta sexta, um dos principais líderes dos caminhoneiros, Wallace Landim, o Chorão, creditou ao presidente Bolsonaro e a ministros palacianos o recuo da Petrobras sobre o aumento do diesel, na noite da quinta-feira. "Isso prova que mais uma vez o presidente está do nosso lado, ao lado da categoria. É um comprometimento que ele teve com a categoria e que a gente teve apoiando a sua candidatura."

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Ele afirmou que os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e da Secretaria-Geral, Floriano Peixoto, foram os responsáveis por levar o "problema" do aumento de preços para Bolsonaro na quinta. "Eu preciso agradecer num primeiro momento o ministro Onyx (Lorenzoni, da Casa Civil) e o ministro Floriano Peixoto (da Secretaria-Geral), que levaram o problema (do aumento de preços) para o nosso presidente", contou ao Broadcast Político, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. "A gente fica muito feliz, porque vê que ele (Bolsonaro) está olhando por nós. Só que a gente também sabe que não é uma situação muito fácil, vem chumbo grosso por aí, pode ter certeza, porque querendo ou não interfere na política de preços (da Petrobras)", declarou.

Mal-estar na Petrobras

O conselho de administração da Petrobras recebeu mal a notícia de que a empresa voltou atrás na decisão de reajustar o preço do diesel, segundo fonte.

Aos conselheiros, Castello Branco tentou passar mensagem de segurança, de que não está fugindo à linha de gestão que prometeu adotar - de independência e prioridade ao retorno dos investimentos.

Em resposta aos questionamentos de membros do colegiado, disse que se explicará pessoalmente na próxima reunião do conselho, marcada para o dia 24 deste mês.

Esta é a segunda vez em poucos dias que membros do colegiado demonstram insatisfação com decisões tomadas pela diretoria.

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A primeira foi com o tamanho do crédito acertado com a União pela cessão onerosa. O valor de cerca de US$ 9 bilhões foi considerado baixo por alguns deles.