Brasil e China se reuniram para tratar da Guerra da Ucrânia em Nova York, na sede da ONU| Foto: Nils Huenerfuerst / Unsplash
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Após o protagonismo brasileiro na criação do Estado de Israel, em 1948, o Brasil agora vai presidir um dos grupos de trabalho nas Nações Unidas (ONU) que discute a criação do Estado da Palestina. O convite feito ao governo brasileiro partiu da França e da Arábia Saudita e ocorre em um momento que o Brasil enfrenta ruídos com Israel.

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Apesar dos problemas diplomáticos com Israel nos últimos meses, diante das sucessivas críticas da gestão petista ao país, analistas consultados pela Gazeta do Povo avaliam que o convite pode ser visto como uma oportunidade para recuperar a posição de neutralidade brasileira diante do conflito entre israelenses e palestinos. Para eles, também poder ser interpretado ainda como um reflexo da atuação da diplomacia brasileira na ONU.

Tradicionalmente, o Brasil adota uma postura equilibrada diante do impasse, mas passou a ser percebido como um ator inclinado ao lado palestino nos últimos anos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem adotado um tom crítico em relação a Israel devido às ações militares do governo de Benjamin Netanyahu contra o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza.

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O petista chegou a comparar a atuação israelense ao Holocausto praticado por Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. A declaração rendeu a Lula o título de "persona non grata" por parte de Israel e estremeceu a relação entre os dois países. Para analistas, a postura "personalista" de Lula na condução de sua política externa pode ter prejuízos nessas discussões.

França e Arábia Saudita estão organizando uma conferência internacional que deve ser realizada neste mês para propor o reconhecimento internacional da Palestina. A iniciativa tem o objetivo de encontrar uma solução pacífica para o conflito israelense-palestino no Oriente Médio, que já dura décadas, em busca da existência dos dois Estados.

A iniciativa franco-saudita busca levar adiante a chamada solução de dois Estados, que propõe a criação do Estado da Palestina independente e ao lado do Estado de Israel. A proposta busca o fim do conflito na região por meio da divisão territorial, especialmente da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental. O Brasil é um dos países a favoráveis à iniciativa.

Discussões podem ser oportunidade para Brasil demonstrar neutralidade e força na ONU

Com o aumento da tensão na Faixa de Gaza, a comunidade internacional retomou as discussões sobre a necessidade de criar o Estado palestino como uma forma de colocar um fim no conflito. Nesse sentido, em dezembro do ano passado, a Assembleia-Geral da ONU aprovou a realização de uma conferência para discutir o tema.

A proposta teve o apoio de 157 das 193 nações que integram a ONU, incluindo o Brasil. Oito grupos de trabalho foram formados para debater a proposta e o Brasil vai presidir um deles. A chamada Conferência Internacional para a Solução Pacífica da Questão da Palestina e a Implementação da Solução de Dois Estados é organizada por França e Arábia Saudita, que convidaram outros países para copresidirem as discussões.

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O Brasil, ao lado de Senegal, vai copresidir um grupo para discutir a "promoção do respeito ao direito internacional para a implementação da solução de dois Estados".

"Os oito grupos de trabalho convocados pelas copresidências da Conferência como parte do processo preparatório, assim como a Conferência propriamente dita, são abertos a todos os Estados-membros e a representantes do sistema ONU, incluindo programas, fundos, agências especializadas e comissões regionais, além das instituições de Bretton Woods", informou o Itamaraty.

Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard, também avalia que a atuação do Brasil nesse grupo pode ser uma oportunidade para reforçar o papel diplomático do país na ONU, além de ser uma forma de tentar recuperar a tradicional neutralidade brasileira.

"Ao tentar promover esse diálogo para o conflito Israel-Palestino, o Brasil contribui para a estabilidade regional, além de fortalecer sua posição como ator relevante na diplomacia global", avalia Brustolin. O especialista pontua que o governo brasileiro tem um papel de destaque na promoção dos direitos humanos na ONU e possui um histórico positivo na organização.

Parte dessa concepção deve-se à atuação do Brasil em operações de paz, mas também pelo papel que o país desempenhou na criação de Israel. Com o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha na presidência da Assembleia-Geral da ONU, o plano de partilha da Palestina foi aprovado em 1947 e o Estado de Israel foi criado em 1948.

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A atuação de Aranha na defesa de uma solução territorial que contemplasse dois Estados — um para judeus e outro para árabes — consolidou a imagem do Brasil como um defensor do equilíbrio na região. Desde então, o país mantém sua posição favorável à coexistência de dois Estados.

Essa imagem de neutralidade, porém, tem se desgastado nos últimos anos. O professor Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), explica que tanto as políticas personalistas tanto de Lula quanto as de seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), contribuíram para o afastamento da tradicional neutralidade brasileira.

Os analistas também alertam que esse desvio pode comprometer a capacidade do Brasil de atuar de forma construtiva nas negociações por uma solução duradoura para o conflito no Oriente Médio.

"Declarações em favor ou em contrário de Israel ou Palestina muito incisivas - como as que têm sido feitas dos últimos governos brasileiros - são atípicas e incomuns à história diplomática brasileira. Isso revela, no meu entendimento, uma certa contaminação da política de Estado brasileiro pela hiperpolarização que tomou a arena política doméstica nos últimos anos", pontua Gomes.

Críticas de Brasil de Lula a Israel podem prejudicar negociações

Embora tenha causado desgastes com o governo israelense, Lula é favorável à solução de dois Estados e já saiu em defesa da coexistência de Israel e Palestina em diversas oportunidades. No último ano, após encontro com o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Mohammad Shtayyeh, o petista defendeu a existência dos dois Estados.

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“Falamos da necessidade da solução de dois Estados e ele agradeceu a solidariedade e apoio do Brasil para um cessar-fogo imediato na região e o fim dos ataques que estão matando civis palestinos”, escreveu Lula no X ao comentar o encontro com Shtayyeh ocorrido na Etiópia.

Apesar de defender tal solução, as recentes declarações adotadas pelo petista podem prejudicar as discussões do governo brasileiro.

O petista adotou uma postura crítica a Israel devido à contraofensiva de Benjamin Netanyahu contra os terroristas do Hamas na Faixa de Gaza nos últimos anos. A disputa territorial na região enfrenta um novo período de tensão desde que o grupo, que vive na Faixa de Gaza, fez um ataque contra Israel e matou centenas de civis em outubro de 2023.

No ano passado, o Brasil apoiou uma denúncia da África do Sul conta Israel por suposto crime de genocídio contra a população palestina que vive na Faixa de Gaza. Os países acusam Netanyahu de promover assassinato em massa contra os moradores da região com a prerrogativa de exterminar os terroristas do Hamas. O grupo atua na Faixa de Gaza e costuma se esconder entre civis, utilizando estruturas como escolas e hospitais para dificultar sua localização.

Diante disso, a relação entre Brasil e Israel deteriorou. "Essas divergências, não necessariamente comprometem a percepção internacional sobre a diplomacia profissional e sobre o corpo diplomático brasileiro, mas comprometem a visão que se tem sobre a diplomacia personalista do governo Lula", pontua Vitelio Brustolin.

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Ou seja, em tese, a postura que Lula adotou nos últimos meses em relação a Israel — e até mesmo sobre a guerra em curso entre Rússia e Ucrânia — pode atrapalhar o papel do Brasil como mediador ou interlocutor respeitado nas discussões sobre o conflito. Especialmente porque, para que a Palestina seja oficialmente reconhecida como um país, é preciso que haja negociações com o governo israelense e também com os Estados Unidos, que é aliado histórico de Israel.

Reconhecimento da Palestina depende de negociações com Israel e EUA

À Gazeta do Povo, Vitelio Brustolin explica que o processo de reconhecimento da Palestina como um Estado enfrenta obstáculos e resistência. "A decisão da Conferência partiu da Assembleia-Geral que, embora não tenha poder vinculativo dentro da ONU, pode influenciar no processo de reconhecimento internacional", pontua.

De acordo com o especialista, para a criação do Estado palestino com fronteiras internacionalmente reconhecidas, é preciso que haja negociações com Israel, para definir os limites territoriais e questões relacionadas à segurança, além do status de Jerusalém.

O principal ponto de impasse é que os israelenses reivindicam toda a cidade de Jerusalém como capital do país por questões históricas e religiosas. Pelos mesmos motivos, palestinos querem que Jerusalém Oriental seja a capital do futuro Estado da Palestina. Em 1947, ficou determinado que a cidade ficaria sob tutela internacional, sem pertencer a nenhum dos povos, mas isso não foi implementado e Israel controla toda a cidade desde 1967.

Sem que a Assembleia-Geral tenha poder vinculativo, o Conselho de Segurança da ONU poderia aprovar resoluções para admitir novos membros nas Nações Unidas. Essa saída, contudo, não é simples.

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Para que uma resolução seja aprovada no órgão, ela precisa ser aprovada sem veto dos cinco membros-permanentes (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos). Os EUA, como aliado histórico de Israel, pode barrar uma resolução a favor da Palestina e da criação do seu Estado.

O reconhecimento da Palestina como um Estado também depende das outras nações. Brustolin aponta, contudo, que este já é um caminho meio andado. "Atualmente, 143 dos 193 países membros da ONU, reconhecem o Estado da Palestina. Isso é o equivalente a 74% dos países das Nações Unidas", pontua. O Brasil é um desses países e reconhece a Palestina como Estado desde 1975.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]