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Diretor-geral da PF afastado

Como Andrei Rodrigues se tornou o homem de confiança de Lula

Lula
Afastamento de homem de confiança de Lula na PF eleva tensão e crise institucional às vésperas das eleições. (Foto: Andre Borges/EFE)

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A relação de confiança entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Andrei Rodrigues começou antes mesmo de o petista voltar ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023. Responsável pela segurança do então candidato durante a campanha de 2022, o delegado da Polícia Federal (PF) ganhou espaço no entorno de Lula e, após a vitória no pleito, foi escolhido para comandar a corporação.

Quatro anos depois, o afastamento do diretor-geral da PF determinado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), coloca no centro de uma crise institucional um dos principais homens de confiança do presidente na área de segurança.

A proximidade com Lula fez de Rodrigues um dos homens de confiança do entorno presidencial na área de segurança, com trânsito no Palácio do Planalto. Na saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, ele chegou a ser cotado para ocupar a função.

A relação também ficou evidente no desfile de 7 de Setembro deste ano, quando Andrei Rodrigues esteve em posição de destaque próxima à tribuna presidencial, em uma demonstração pública de proximidade com o presidente.

Mesmo com os ruídos entre o governo e setores da PF, Lula demonstrava respaldo ao então diretor-geral. O presidente vinha criticando vazamentos que considerou seletivos e direcionados a investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e também aqueles relacionados ao INSS e ao Banco Master.

Rodrigues, por sua vez, chegou a defender publicamente a autonomia da corporação e afirmou que a PF não atuava para proteger ou perseguir pessoas. Ele também evitou se manifestar publicamente sobre atos envolvendo seu nome e investigações em curso na corporação.

O plano de Lula para Andrei Rodrigues

A relação próxima com Lula também colocou Andrei Rodrigues entre os nomes considerados para ocupar um espaço ainda mais importante no governo.

Uma das medidas do governo Lula na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública é o desmembramento do Ministério da Justiça, com a criação de uma pasta exclusivamente destinada à segurança. Para aliados do governo, o nome de Andrei Rodrigues era o mais bem posicionado para assumir essa função.

“Chegou a ser cotado como ministro da Justiça e poderia ser o ministro da Segurança em uma eventual reeleição de Lula em 2026”, salienta o cientista político Gustavo Alves.

A possibilidade de Rodrigues deixar a direção da PF não era completamente nova nem mesmo para o governo, mas não era considerada nas condições registradas nesta terça-feira.

Nos bastidores, já havia a perspectiva de uma mudança no comando da corporação. Segundo interlocutores próximos a Rodrigues, ele vinha avaliando deixar o cargo para se dedicar à construção de uma defesa após seu nome aparecer em mensagens envolvendo o caso Banco Master, mas sobretudo por causa das suspeitas relacionadas à produção e ao encaminhamento de relatórios de inteligência ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes produzidos pela PF que teriam apurado a conduta do próprio ministro André Mendonça.

Outra possibilidade era a saída do comando da PF em um eventual segundo mandato de Lula. A avaliação era de que Rodrigues poderia assumir uma futura estrutura ministerial voltada à Segurança Pública, abrindo espaço para uma nova direção na Polícia Federal.

O cenário agora mudou radicalmente. Em vez de uma transição negociada dentro do governo, a saída aconteceu por determinação judicial e no momento em que o diretor-geral enfrentava questionamentos sobre a atuação em episódios de relatórios de inteligência utilizados pelo gabinete de Moraes para contestar a conduta do ministro André Mendonça.

“Uma saída voluntária permitiria a Rodrigues se concentrar em uma defesa, preservando maior controle sobre o momento e os impactos sobre a campanha eleitoral de Lula. O afastamento determinado por Mendonça, ao contrário, coloca o delegado imediatamente sob o foco de uma investigação e transforma sua permanência no cargo e no governo em uma questão judicial”, avalia Marsiglia.

Como a crise entre Mendonça e a PF atingiu o homem de confiança de Lula

Desde o início de 2026, a relação entre André Mendonça e a Polícia Federal, mais especificamente com Andrei Rodrigues, foi marcada por sucessivos atritos na condução de investigações, especialmente nos casos Banco Master e INSS.

Em abril, Mendonça restringiu o acesso de delegados e integrantes da própria cúpula da PF, incluindo Rodrigues, a determinadas apurações, sob a justificativa de evitar vazamentos e interferências. Nos meses seguintes, também demonstrou insatisfação com o andamento de investigações, aumentando o desgaste com a direção da corporação.

A crise ganhou nova dimensão em agosto, quando a área de inteligência da PF produziu ao menos seis relatórios, dos dias 3 a 31, analisando decisões e a atuação de Mendonça nos casos Master e INSS. Os documentos também fizeram avaliações sobre a relação do ministro do STF com outras autoridades, inclusive o advogado-geral da União, Jorge Messias.

O episódio se tornou ainda mais sensível quando esses relatórios foram encaminhados por Andrei Rodrigues a Alexandre de Moraes, a pedido do magistrado, e posteriormente utilizados pelo ministro para questionar a atuação de Mendonça, transformando o conflito entre os magistrados em uma crise que atingiu diretamente o Supremo e a cúpula da PF.

A tensão chegou ao ápice nesta terça-feira (8), quando Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. O ministro alegou que havia sido alvo de monitoramento ilegal e sistemático e determinou investigação sobre a produção dos relatórios.

Ao retirar Rodrigues da função — cargo de confiança de Lula —, o objetivo de Mendonça foi preservar as investigações contra o ministro Alexandre de Moraes, o próprio diretor-geral da PF e o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet.

A Segunda Turma formou maioria para manter o afastamento, com os votos de Luiz Fux e Nunes Marques, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Dias Toffoli ainda não se manifestou.

O governo promete recorrer da decisão da Turma e pedir que o afastamento seja revogado ou que a decisão seja encaminhada ao colegiado, para apreciação dos dez ministros.

A decisão de Mendonça amplia o desgaste político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante da crise que envolve o Judiciário e o Executivo. Mendonça também intensifica a suspeita de uso político da PF para blindar aliados do governo e perseguir rivais.

A tendência, segundo analistas, é de haver ainda mais prejuízos para sua campanha à reeleição. “Lula vem de um desgaste provocado pelas investigações contra seu filho e essa nova situação só deve reforçar a tese de um aparelhamento político da PF”, alerta o doutor em Direito pela USP Luiz Augusto Módolo.

“As polêmicas estão se intensificando a poucos dias das eleições e essa crise institucional entre STF e PF reflete diretamente no governo, sobretudo quando há uma indicação de aparelhamento político”, alerta o constitucionalista André Marsiglia.

Lula ainda não se pronunciou publicamente sobre o afastamento do diretor-geral da PF.

Diretores da PF colocam cargos à disposição em apoio a Andrei Rodrigues

O afastamento de Andrei Rodrigues também provocou reação na cúpula da Polícia Federal. Onze diretores da corporação colocaram os cargos à disposição nesta terça-feira (8), em manifestação de apoio ao diretor-geral afastado e ao diretor de Inteligência, Leandro Almada, também retirado da função por determinação de André Mendonça.

Além dos diretores, delegados e superintendentes das 27 unidades regionais da PF articulam uma possível saída coletiva em protesto contra a decisão. A manifestação foi encaminhada ao diretor-geral interino, William Murad, que havia saído em defesa de Rodrigues durante um evento em Brasília.

Em nota, os diretores afirmaram que as acusações contra Rodrigues, Almada e a própria corporação são “desprovidas de fundamento” e repudiaram qualquer tentativa de atribuir à PF uma atuação “não republicana”. Segundo eles, narrativas influenciadas por interesses político-eleitorais não podem apagar a trajetória profissional dos dois dirigentes nem a história institucional da corporação.

A reação expõe mais uma dimensão da crise provocada pelos afastamentos na PF e abre uma nova frente de tensão dentro da corporação. Peritos da Polícia Federal também demonstraram incômodo com a decisão de Mendonça e defenderam que o caso seja analisado pelo plenário do STF, e não apenas pela Segunda Turma.

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